Veneza, o Amor de Hermes – Vitor Manuel Adrião Quinta-feira, Nov 26 2009 

Sintra, 26. 11.2009

Dedicado ao Ilustre e Digníssimo Dr. Giulianno Leone di Lozenzo,

Filho de Sintra em Veneza, Sub-Posto do Quinto Posto da Europa.

 

 Significado do nome Veneza

 

A República Sereníssima de Veneza liga o seu nome a origens bíblicas recuando ao povo Véneto, que o historiador judeu-romano Josefo Flavio (37-100 d. C.) identifica aos Paflagónios primitivos do Sul da Rússia dizendo-os descendentes de Rifath, filho de Gomer, neto de Jafet e bisneto do patriarca Noé. O poeta épico grego Homero também escreve que os Vénetos moravam na Paflagónia.

Os Vénetos, apesar de povo guerreiro e empreendedor, eram profundamente religiosos sendo a sua divindade suprema feminina, a deusa Reithia, correspondendo à Hera dos gregos e à Juno dos romanos. Quando foram convertidos ao Cristianismo, mantiveram a sua grande devoção à Mãe Divina em detrimento do culto a Deus Pai. Teve que vir um Papa véneto, João Paulo I, para ensinar que Deus não é só Pai, mas também é Mãe. É do Princípio Feminino que surge a Vida.

Esse Princípio Feminino Eterno era identificado no céu ao planeta Vénus pelos Paflagónios chamando-o Reithia, “Recta, Justa, Nobre”, e foi assim que eles vieram a ser chamados pelos hunos e romanos de Vénetos, com o mesmo significado etimológico da deusa Reithia, com os sobrenomes de Esplendorosa e Sereníssima. Este último título corresponde ao sistema de governo autónomo de Véneto anterior de milénios ao romano, o que remete para a influência da mesma Deusa-Mãe primitiva. É assim que ainda hoje mantém-se um culto matriarcal no Véneto, o da Mamma, quase ou mesmo em oposição ao patriarcal romano da Sicília.

Véneto ou Héneto é o latino Uénus, Vénus, donde provém o etimólogo Venezsia (véneto) e Venezia (italiano). A designação Uénus engloba os temas sumérios W e Anu, respectivamente, “filha” e “céu”. Como “filha do céu” Vénus personifica o belo astro que assiste ao nascimento e ocaso solares. O teónimo romano Vénus, ao ser aditado do tema ara, significativo de “santa”, deu venera, donde procedeu o termo venerar, adorar. Daí que Veneza é “onde se venera Vénus”.

Para a mitologia greco-romana, sendo deusa da tarde, Vénus favorecia o amor e a volúpia, e sendo deusa da manhã presidia aos actos de guerra e conquista, que aliás foram predicados dos primitivos Vénetos, guerreiros intrépidos que é característica do Ares ou Marte romano, e foi sob este signo que fundaram a cidade de Veneza no dia 25 de Março de 811 d. C., data em que o povo do Véneto celebra a sua festa, portanto, nas proximidades do Equinócio da Primavera com a entrada do Sol no signo do Carneiro e do planeta Marte.

Vénus era filha da Lua e irmã do Sol. Mostrando-se na madrugada e no crepúsculo, aparecia como ligação entre as divindades do dia e da noite. É por essa razão que embora o seu fosse seu irmão, a sua mãe era a deusa dos Infernos (das águas terrestres ou “lunares” representadas na laguna e no mítico “crocodilo” que vive nela, representando as divindades subterrâneas assinaladas pelo simbolismo da noite designativa de mistério ou oculto). Do seu parentesco com o Sol, Vénus recebia as qualidades guerreiras e era chamada de a valente ou a dama das batalhas. Isso enquanto estrela da manhã. Mas enquanto estrela da tarde, era a influência da Lua que predominava, fazendo dela a deusa do amor e do prazer (cuja representação viva são os enamorados passeando nas gôndolas em lua crescente vogando pelos canais de Veneza).

O ciclo diurno de Vénus, aparecendo alternadamente no Oriente e no Ocidente, faz dele um símbolo essencial de morte e renascimento que os antigos reproduziam colocando uma máscara fúnebre sobre os mortos, tradição que se mantém em Veneza nas famosas máscaras carnavalescas, com sabor requintado a tragédia num momento que deve ser festivo.

A Sereníssima, Marcos e o Leão (Igreja de San Francesco della Vigna)

A associação de Vénus com o Sol, pela semelhança das suas trajectórias diurnas, faz desse astro divinizado um mensageiro do Astro-Rei, um intercessor entre a Divindade e a Humanidade. Tal veio a ser representado no Cristianismo como Cristo (Solis Invictus) e Maria (Veneris Mater), cujo Apóstolo escolhido para representar a Lei do Leão de Judah (título dado a Cristo como Messias portador dum novo estado de consciência para Humanidade), foi exactamente São Marcos (nome latino que, tal como Macário, tem origem no etimólogo indo-europeu Makara, literalmente, “crocodilo”), e que veio a ser o patrono de Veneza, cuja festa é em 25 de Abril, após a Pascoela, quando o Sol (representado pelo Leão) entra no signo do Touro onde está Vénus. O Apóstolo protector da cidade tem como símbolo iconográfico o leão, elemento inculcado por St.º Irineu e aceite universalmente pela Igreja desde os finais do século II, e por tudo isso a festa de São Marcos em 25 de Abril vem a assinalar a entrada do Sol/Leão em Vénus/Touro como signo natal desta cidade adriática, sendo o do Véneto Marte/Carneiro.

Isso desde que os venezianos trasladaram de Alexandria para Veneza o corpo do Apóstolo São Marcos no ano 828, cuja basílica começou a ser construída no ano seguinte para albergar os seus restos mortais. Desde então São Marcos é o padroeiro da cidade e o nome da sua praça mais famosa.

 

Simbolismo da Cruz “veneziana”

 

A singular Cruz “veneziana” que decora os principais edifícios religiosos desta cidade e que só existe aqui, apresenta feição insólita e origem quase desconhecida. Quem a observa no topo das cúpulas da basílica de S. Marcos, por exemplo, desde logo repara haver nela influência bizantina por ser uma cruz grega, cujas pontas ou desfecham em bolas ou em ramos. Trata-se de uma simplificação liberal das figuras originais, que são 3 flores-de-lis decorando a extremidade de cada braço da cruz (alusão à Santíssima Trindade) e mais 4 irradiando da parte central (expressando o Mundo), ao todo, 16 flores-de-lis. É assim que se vê na Cruz suspensa adiante do altar-mor da basílica de São Marcos.

Trata-se, pois, da Cruz de São Marcos, o Apóstolo padroeiro de Veneza que no século XI substituiu o primeiro orago da cidade, São Teodoro (Todaro, em veneziano), que se viu despossuído do seu título de “protector”, apesar de nunca ter sido esquecido, como pode ver-se na coluna da Piazzetta situada junto ao leão de São Marcos.

A Cruz de São Marcos foi instituída quando a Diocese ou Arquidiocese de Veneza, fundada no ano 775, foi elevada a Patriarcado em 1451, com sede na Basílica de São Marcos. O Patriarca de Veneza detém o privilégio perpétuo de ser nomeado Cardeal no Consistório seguinte ao da sua investidura no cargo. Após a sua ascensão à dignidade cardinalícia, o Prelado goza do título de Cardeal-Patriarca de Veneza. Apesar de seguir o Rito Latino da Igreja Católica, conserva a autonomia que o diferencia de Roma e mantém os princípios bizantinos que estiveram na instituição do Cristianismo no Véneto, particularmente em Veneza desde aproximadamente o ano 568.

Terá sido por ocasião da fundação do Patriarcado de Veneza que foi fundada a Ordem de São Marcos, de curta duração mas decerto a principal difusora da Cruz “veneziana”. Esta Ordem foi instituída pelo Governo da antiga República Veneziana, que a colocou sob a invocação do Apóstolo São Marcos, patrono da República. Era distribuída a todos aqueles, nobres ou não, nacionais ou estrangeiros, que tinham prestado serviços ao Estado. Desapareceu muito cedo.

O significado do simbolismo da flor-de-lis é aqui o da Realeza Divina, igualmente do Poder e da Sabedoria de Deus, o que reporta ao sentido do leão alado iconográfico de São Marcos como símbolo primordial e fundamental do ideário solar, sendo a expressão divinizada do Astro-Rei Todo-Poderoso capaz de dominar, com a sua potência e força, todo um ideário voltado para a exaltação das energias vitais, neste caso, do Patriarcado de Veneza e da própria religiosidade veneziana. Aos antigos Templários, por exemplo, só lhes era permitido caçar o leão, como está na sua Regra, o que comporta o reconhecimento dos valores representados no simbolismo da sua figura.

O leão alado, símbolo de Veneza, que Santo Irineu (cerca de 130 – 202), no seu Traité contre les Hérésies, pôs ao lado de São Marcos a representar este, é alusão à voz que ruge no deserto (a de São João Baptista), onde desde o primeiro capítulo do Evangelho deste Apóstolo descreve o Anunciador de Cristo clamando vigorosamente a penitência e o baptismo, voz austera que foi assim assimilada ao rugido do leão. Mas o leão alado expressa igualmente o Leão de Fogo que é Deus como Trono, portanto, o Trono de Deus, o Mundo Celeste, o que reporta para o significado esotérico das 16 flores-de-lis da Cruz “veneziana”: a Casa de Deus, segundo o Arcano 16 do Tarot. Esta Casa de Deus, no Mundo Humano, vem a estar representada aqui pela Archidioecesis Venetiarum, a Arquidiocese Veneziana, em cujo duomo, na Praça de São Marcos, se vê na fachada principal o leão alado sobre quatro cavalos ou jinetes, também alados ou no ar, em tamanho natural sobre pedestais, expressivas das 4 Palavras Divinas encerradas nos 4 Evangelhos canónicos.

Cruz de Veneza

A Cruz “veneziana” vem a ter uma função de síntese e de medida. Nela se unem o Céu e a Terra, nela se confundem o Tempo e o Espaço. Símbolo da ascensão do Homem a Deus, é igualmente o da Descensão de Deus ao Homem, desta maneira interligando os dois Mundos Celeste e Humano estabelecendo a ligação ininterrupta entre o Universo e a Terra.

Nas Armas Patriarcais de Veneza, com a legenda Sufficit Gratia Tua (“Bastando a Tua Graça”), além da barca e sobre ela a estrela Vénus com 8 raios cujo número é o da Perfeição Crística, tem-se a sua Cruz com dois braços transversais, representando o superior a inscrição derrisória de Pilatos – Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum, “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” – e o inferior aquele onde foram estendidos os braços do Cristo. É a dita Cruz de Lorena, apesar de provir da Grécia onde é comum.

A cruz com três braços transversais tornou-se um símbolo da hierarquia eclesiástica, correspondendo à tiara papal, ao chapéu cardinalício e à mitra episcopal. A partir do século XV, só o papa tem direito à cruz com três braços transversais; a cruz dupla fez-se privativa do cardeal e do arcebispo; a cruz simples, do bispo.

 

Papas e Profecias em Veneza

 

Corre a tradição de que certo monge franciscano do convento de San Francesco della Vigna recebeu de São Malaquias uma profecia terrível sobre os Papas. Mas essa tradição não passa de lenda e o que aconteceu é bem diverso.

São Malaquias foi um monge beneditino irlandês do século XI, nascido em Armagh em 1094, de cujo convento se tornou abade ainda adolescente. As suas visões começaram em 1139 na sua primeira viagem a Roma, onde foi recebido pelo Papa Inocêncio II, que pontificou de 14.2.1130 a 24.9.1143. Depois dessa visita Malaquias O´Morgain escreveu as suas profecias, compostas por 111 divisas em latim correspondentes a 111 pontificados, a contar do Papa Celestino II (1143-1144) até ao último Papa, Petrus Romanus (Pedro Romano), sendo o penúltimo o actual Papa Bento XVI.

Segundo profetiza S. Malaquias, com o último Papa Pedro Romano, aventando alguns que será português, a Igreja Católica Romana terminará o seu ciclo, de acordo com o seu texto apocalíptico redigido em latim, e que até hoje é pomo de controvérsias: “Petrus Romanus – Na última perseguição da Santa Igreja Romana, surgirá Pedro o Romano, que há-de pastorear as suas ovelhas no meio de numerosas tribulações. Terminadas estas tribulações, a cidade das sete colinas será destruída, o Juiz incorruptível julgará o seu povo”.

Este profeta santo irlandês faleceu em Clairvaux nos braços do seu grande amigo, também santo, Bernardo de Claraval, em 2 de Novembro de 1148, a quem predizera antes a data da sua morte. Canonizado santo pelo Papa Clemente III em 6 de Julho de 1199, as Profecias de São Malaquias foram depositadas no Arquivo do Vaticano e aí permaneceram esquecidas até à sua descoberta em 1590 por Arnold de Wyon, também chamado Monge de Pádua, historiador beneditino e igualmente profeta.

Em 1595 Arnold de Wyon publicou em Veneza, pela primeira vez, as Profecias de São Malaquias, possivelmente tendo acrescentado anotações às mesmas e fazendo parte do seu livro Lignum Vitae. Anteriormente, também em Veneza, as Profecias do Monge de Pádua foram publicadas pela primeira vez em 1527. Assim como a lista de São Malaquias, a lista do Monge de Pádua associa poucas palavras a cada um dos Papas, mas é menor, possuindo apenas 20 nomes descritos de forma enigmática, obscura.

O facto de se escolher Veneza para dar à estampa pela primeira vez no mundo tanto as Profecias do Monge de Pádua como sobretudo as de São Malaquias, talvez se devesse a esta cidade já ter sido berço de vários Papas até essa altura, e possivelmente doutros que viriam. Com efeito, em Veneza nasceram os Papas Gregório XII, Eugénio IV, Paulo II, Alexandre VIII, Clemente XIII e Pio X. São descritos nas Profecias de São Malaquias do modo seguinte:

 

Nauta de ponte nigro (Nauta do mar negro).

Gregório XII (Angelo Correr). Pontificado: 30.11.1406 – 4.7.1415.

O “nauta” significa “natural de Veneza” e bispo da ilha Negroponto ou Eubeia, hoje grega mas veneziana no século XV, no Mar Egeu fronteira para o Mar Negro.

 

Lupa coelestina (Loba celestina).

Eugénio IV (Gabriele Condulmer). Pontificado: 3.3.1431 – 23.2.1447.

A “loba” figura na Armas de Siena onde fora bispo, e “celestina” referente à Ordem dos Celestinos integrada na dos Agostinhos onde professara este Papa.

 

De cervo et leone (Do veado e do leão).

Paulo II (Pietro Barbo). Pontificado: 30.8.1464 – 26.7.1471.

O “leão” será o de São Marcos de Veneza, donde era natural este pontífice que fora antes bispo de Cervia (“cervo”), pequena cidade perto de Ravena, na costa adriática.

 

Poenitentia gloriosa (Penitência gloriosa).

Alexandre VIII (Pietro Vito Ottoboni). Pontificado: 6.10.1689 – 1.2.1691.

A “penitência gloriosa” é alusão à vida penitente de São Bruno, em cujo dia da sua celebração este Papa foi eleito.

 

Rosa Umbriae (Rosa da Úmbria).

Clemente XIII (Carlo della Torre Rezzonico). Pontificado: 6.7.1758 – 2.2.1769.

A “Rosa da Úmbria” é referência directa a este Papa ter sido governador de Rieti, na Úmbria onde se encontra a cidade de Assis, pátria de São Francisco, a “Rosa” da Cristandade.

 

Ignis ardens (Fogo ardente).

Pio X (Giuseppe Melchiorre Sarto). Pontificado: 9.8.1903 – 20.8.1914.

Apesar de nascido em Riese, Véneto, foi Patriarca de Veneza eleito em 1896. “Fogo ardente” aludirá à I Grande Guerra Mundial, que quando eclodiu só a muito custo demoveu-se este Papa de ir para a frente de batalha tentar travar os combates.

 

Há ainda dois outros Patriarcas de Veneza eleitos Papas: João XIII, Cardeal-Patriarca de Veneza entre 1953-1958, a quem se igualmente se atribui dotes proféticos que deixou num seu escrito pouco conhecido, Profecias de João XXIII, dentro do mesmo vaticínio apocalíptico de Malaquias mas aclamando como Salvadora a Mãe de Deus chamando-a de “Rosa Branca” e “Mar Celeste”; e João Paulo I, nascido em 1912 em Forno di Canale, Véneto, sendo Cardeal-Patriarca de Veneza em 1978 quando foi chamado para o Papado. As Profecias de São Malaquias referem-nos:

 

Pastor et nauta (Pastor e nauta).

João XXIII (Angelo Giuseppe Roncalli). Pontificado: 4.11.1958 – 3.7.1963.

“Pastor e nauta” será referência ao novo pastoreio pontifical da Igreja iniciado com o Concílio Vaticano II, aberto por Pio XII e encerrado por este Papa, nauta de um novo rumo da mesma.

 

De medietate lunae (Da meia lua).

João Paulo I (Albino Luciani). Pontificado: 26.8.1978 – 25.9.1978.

“Da meia lua” aludirá ao seu nascimento em Canale d´Agordo, na diocese de (Bel)luno, a 17 de Outubro de 1912.

           

Das colecções de Pastores da Igreja, deve assinalar-se a conservada no Palácio Altieri, na cidade de Viterbo, Itália, constituída por retratos a óleo, em que a partir do retrato de Celestino II cada um tem aposta uma frase latina relativa às Profecias de São Malaquias.

 

Hermetismo Veneziano

 

Considerada uma das mais belas cidades do mundo, igualmente tem sido refúgio de ocultistas e hermetistas ao longo dos séculos, pelo que também se considera Veneza uma cidade hermética repleta de lendas e mistérios.

Tendo por centro geográfico a Ponte de Rialto, qualquer um que observe o mapa aéreo de Veneza repara que ela é dividida em duas pelo Grande Canal parecendo uma serpente deslizando por entre a urbe. Tal simbolismo serpentário vem a ter concretização nos inúmeros hermetistas e místicos que escolheram esta cidade para sua morada, onde em segredo se dedicaram ao aprofundamento dos saberes ocultos que, afinal, a serpente vem a representar como símbolo de Sabedoria e Iluminação. Neste sentido, a separação da cidade em duas pelo Grande Canal também poderá figurar a Veneza do turista, exotérica ou “desvelada”, e a Veneza do ocultista, esotérica ou “velada”.

Esse carácter dúplice já se havia reflectido nos conflitos entre Roma e Veneza, cujas sedes eclesiais, além dos interesses políticos imediatos no século XVI, discutiam calorosamente sobre a doutrina religiosa e a independência ideológica. O então Papa Clemente VIII (24.2.1536 – 3.3.1605), que de clemente nada tinha, nutria suspeitas de Veneza ser um enorme reduto de “hereges”, calvinistas, luteranos e ocultistas promotores da Reforma religiosa nesse século, pelo que Veneza se assumia como centro da intelectualidade, da filosofia e do hermetismo de então, o que desagrava profundamente aos adeptos da Contra-Reforma encabeçada por esse Papa.

Os “livros proibidos” que continham ideias e conceitos diferentes daquelas da Igreja de Roma e que constavam do Índex católico romano (Index Librorum Prohibitorum), que Clemente VIII reeditou em 1596, circulavam livremente pelas ruas de Veneza, especialmente no bairro judeu. O Patriarcado veneziano manteve sempre uma atitude de desafio ao totalitarismo repressor da Cúria Papal, e foi assim que em 1521 criou as suas próprias regras de Inquisição, banindo a tortura como método inquisitório.

Clemente VIII distinguiu-se pela sanção e repressão de tudo que lhe parecesse progresso, até mesmo o simples café, considerada bebida maometana proibida a cristãos, introduzido em Veneza por volta de 1570, altura em o Papa que visitou a cidade e provou essa bebida. Gostou e levantou a proibição…

A liberalidade de Veneza destoava da restante Europa subjugada ao dédalo tenaz da Inquisição Romana, e foi esta a razão de Veneza atrair para si inúmeros estudiosos e pensadores inconformados com a ortodoxia papal. Um dos mais famosos foi Giordano Bruno (1548-1600), neo-platónico adepto da Renascença, que em 1590 fixou-se nesta cidade a convite do nobre veneziano Giovanni Mocenigo, sob pretexto de ensinar a mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória. Foi Mocenigo quem traiu Giordano Bruno entregando-o às tropas papais que o levaram para Roma onde foi queimado vivo no Campo dei Fiori, em 17 de Fevereiro de 1600.

Tamanha era a independência geradora de animosidade de Veneza em relação a Roma, que quando o rei de França, Henrique III (19.9.1521 – 2.8.1589), conhecido pelo seu interesse em Magia e Hermetismo, tendo sido o patrono do famoso profeta Nostradamus, foi assassinado por um católico fanático, Jacques Clément, de imediato Veneza deu asilo ao seu primo e sucessor, Henrique IV (13.12.1553 – 14.5.1610), que era protestante e estivera envolvido nas Guerras de religião antes de subir ao trono, em 27.2.1594.

Foi em 1587 que o filósofo e hermetista Fabio Paolini fundou em Veneza a Accademia degli Uranici, com sede no Convento de San Francesco della Vigna, que reuniu os mais famosos ocultistas e hermetistas da Renascença europeia. Em 1589 Fabio Paolini publicou nesta cidade um tratado de filosofia neoplatónica e hermetista chamado Hebdomades, por extenso, Hebdomades siue Septem de septenário Libri, em breve assumido a obra principal do Ocultismo veneziano.

As reuniões da Academia dos Uranianos realizavam-se a maior parte das vezes nas casas dos membros, reservadas dos olhares indiscretos. Além de comportar ocultistas e pensadores liberais, a Academia também incluía livreiros adeptos do Ocultismo de Veneza. Um deles era Giovanni Battista, conhecido como Ciotto, seguidor das ideias de Giordano Bruno sobre mundos paralelos, e dono de uma livraria chamada Minerva, situada na Rua Merceria, a mais importante da cidade.

Passados alguns anos, a Academia extinguiu-se sob pressão do Clero cuja Inquisição detivera alguns dos seus membros, que nada falaram sobre as suas reuniões e até negaram terem simpatias com o Ocultismo, o que cabalmente é desmentido pelos seus interesses óbvios por Magia e Hermetismo.

No século XVIII, em 1788, encontra-se em Veneza o famoso Superior Incógnito da Rosacruz e Maçonaria, Alexandre Cagliostro, Conde de San Leo e Fénix, que permaneceu na cidade seis semanas, onde institui o seu Rito Copta ou Egípcio. Foi quando um grupo de socinianos (seita protestante anti-trinitarista, ou contra a ideia de Santíssima Trindade) solicitou a patente de uma constituição maçónica a Cagliostro, por não quererem participar dos seus rituais mágico-cabalísticos. Então o Conde instituiu o Rito de Memphis em Veneza, confiando aos socinianos os graus menores da Grande Loja de Inglaterra e os altos graus da Maçonaria Templária alemã.

Com tudo, Veneza continua a reservar tesouros inigualáveis de sabedoria e espiritualidade que até hoje muitas das suas obras artísticas e monumentais preservam resistindo ao tempo, tal como a cidade resiste às tentativas espúrias de travar a evolução do Pensamento Humano.

 

Conde de Saint Germain em Veneza

 

Apesar de não serem muitas contudo são bastante sólidas as provas da presença do famoso Conde de Saint Germain em Veneza. Elas são fornecidas sobretudo pelas Memórias do seu arqui-inimigo, Giacomo Casanova (Veneza, 2 de Abril de 1725 – Dux, Boémia, 4 de Junho de 1798), o famoso aventureiro trapaceiro e libertino destruidor de lares.

Giacomo Casanova incarna o aspecto sensual da Lua ante Saint Germain, incarnando o aspecto amoroso de Vénus. Aquele é o vício em todos os seus aspectos, rendido à magia negra a quem dedicou um tratado romanceado, Isocameron ou Icosaméron, possivelmente começado a escrever em Veneza e terminado na Boémia; este é a virtude dignificadora do Género Humano como Mestre Perfeito de Teurgia ou Magia Branca da qual deixou um tratado ilustrado, Trés Sainte Trinosophie, “Santíssima Trinosofia”, provavelmente começado a escrever em Veneza e terminado em Troyes, França, em cuja biblioteca está o original.

As datas de nascimento e morte do Conde de Saint Germain são absolutamente incertas. Tão-só se sabe que aparece ligado ao Príncipe da Transilvânia, Francis II Rakowsky, cerca de 28 de Maio de 1696, mas não podendo se afirmar que tenha nascido nessa data e que esse Príncipe seja efectivamente o seu pai. Quanto à sua pressuposta morte em Eckernförd, Alemanha, em 27 de Fevereiro de 1784, ao contrário dos registos na igreja daí nada está provado, não se sabendo se é a mesma pessoa e, tampouco, se sabendo onde estão os seus restos mortais.

O Conde de Saint Germain distinguiu-se pelos seus dotes raros de verdadeiro alquimista, mago, profeta, político junto das várias cortes europeias, estabelecendo acordos de paz entre elas, caso da Alemanha e a Áustria em 1761, e, sobretudo, grande benfeitor dos desfavorecidos da vida, fabricando remédios que oferecia aos pobres. É considerado um Mestre Perfeito nos meios esotéricos como o Superior Incógnito dos Rosacruzes e Maçons.

Segundo as Memórias de Casanova, o músico Rameau e a condessa de Gergy, viúva do embaixador de França em Veneza, juraram que nessa cidade conheceram o Conde de Saint Germain em 1710, usando do título de Marquês de Montferrat e o nome Lorenzo Paolo Domiciani, acompanhado da sua esposa Lorenza Anunziata Feliciani. Ambos de uma beleza e sobriedade inexcedíveis. Contrariando a data oficial da sua morte, o conde de Châlons ao voltar da sua embaixada em Veneza em 1788, assegurou à condessa de Adhemar (facto que ela deixou escrito nas suas Memórias) haver falado com o Conde de Saint Germain na Praça de São Marcos um dia antes de deixar aquela cidade, indo para uma embaixada em Portugal.

Em Veneza, Saint Germain fora amigo do embaixador de Inglaterra nesta cidade, lorde Holdernesse, com o havia sido do embaixador de França, o conde Gergy. Escolhendo Veneza – onde desde a Idade Média, diz-se, viviam muitos químicos e alquimistas – para desenvolver a sua técnica de tingiduras de sedas, obtendo as colorações de que necessitava, principalmente a cor púrpura, e não havendo notícia de que tirasse proveitos pessoais dos seus processos, Saint Germain instalou-se nesta cidade em 1764, altura em que aí residia o conde Maximiliano de Lamberg, brilhante diplomata e espirituoso homem de letras, que escreveu nas suas Memórias: “Uma personagem digna de se ver é o Marquês de Aymar, ou Belmar, mais conhecido pelo nome de Saint Germain. Reside há algum tempo em Veneza onde se ocupa, no meio de um cento de mulheres que uma abadessa lhe arranjou, a fazer experiências com linho, que branqueia e torna igual à seda crua de Itália”.

Essas mulheres possivelmente seriam do Ospedalle della Pietá, convento e orfanato veneziano para mulheres jovens, que se tornou famoso no século XVIII quando também se tornou escola musical para meninas órfãs dotadas, tendo sido o principal local de trabalho do compositor António Vivalvi.

Possivelmente Saint Germain terá vivido aí enquanto permaneceu em Veneza, e o seu próprio título de Aymar ou Belmar se ligará às qualidades venustas e marítimas da cidade: Belmar significa, tão-só, “Senhora do Mar” (bel+mar), a mesma Stella Maris ou “Estrela-do-Mar” que é Vénus mas que o Cristianismo assumiu como a Mamma de Deus.

 

Simbolismo esotérico da gôndola

 

A origem da gôndola perde-se nos séculos, sofrendo as alterações que o tempo lhe impôs. Actualmente, as gôndolas medem cerca de 11 metros de comprimento por 1 metro e 42 centímetros de largura e são compostas por 280 peças de madeira diferentes.

A gôndola é mencionada pela primeira vez em 1094 num decreto do doge ou dux Vitale Falier como gondulam, nome que para os etimologistas é de origem incerta, tanto podendo ter resultado do termo latino para “barco pequeno”, cymbula, como do diminutivo de “concha”, cuncula, como ainda das designações gregas para embarcações, como kundy ou kuntòhelas.

Ter-se-á que reportar à História Mítica de Veneza, mormente à lenda de São Jorge lanceando de morte o Dragão, para enquadrar o significado esotérico desta típica embarcação veneziana.

Se Veneza é a cidade de Vénus que se expressa através da Lua que rege os ciclos de fertilidade e as marés tanto das “águas terrestres” como das “águas celestes” que são o Éter Universal, então as mesmas vêm a ser assinaladas na grande laguna para onde correm todos os canais. Reza a lenda que nas profundezas da laguna vive um misterioso dragão ou grande crocodilo (que hoje se encontra coroando, em tamanho natural, o cimo de uma das duas colunas da Piazzetta, na extremidade do Palácio dos Doges) que nada teme menos o gondoleiro, e por isso não vem à superfície porque há sempre gôndolas cruzando os canais… Vez por outra, irado, lança o seu bafo e a grande laguna fica envolta em espesso nevoeiro.

Isso vem a correlacionar-se ao onomástico gôndola que se divide em gundu, vocábulo alemão significando “intrépido”, e dôla ou gola, do alemão wurm, “serpente”. Portanto, a gôndola vem a ser a “serpente intrépida” vogando sobre as profundezas dracónicas da laguna. Ora a serpente é o símbolo das forças telúricas da Terra e associa-se à Lua (nisto e significativamente, esta barquinha tem o formato de lua crescente, símbolo móvel da primitiva Deusa-Mãe Ísis, a da religião egípcia representada pela múmia tebana exposta no mosteiro de San-Lazzaro desta cidade), com o seu serpentear orbital em torno da Terra a cujas águas e emoções (representadas nos enamorados que o gondoleiro transporta) ela assiste, indo transformar-se nas etéreas do amor puro que, afinal, é a característica da mesma Vénus. Por isto se diz que Vénus age sobre a Terra através da Lua…

O vocábulo gundu tem por parente guntu, no mesmo dialecto alemão, que significa “guerreiro”. Este “guerreiro” é representado pelo gondoleiro com a sua “espada”, antes, remo arrastando a barquinha por águas seguras, e que neste simbolismo vem a configurar idealmente a pessoa de São Jorge que o dragão da laguna teme, muito mais porque no meio da mesma está a ilha de San Giorgio Maggiore em cujo convento beneditino as orações e cantos sacros dos monges parecem acalmar a ira do monstro lendário.

A característica cor negra da gôndola resulta do alcatrão utilizado para a sua melhor impermeabilização, e não por ser sinal de luto, pois que em Veneza a cor do luto é a vermelha, e era exactamente esta que predominava nas gôndolas antes do século XVII, mas com o sentido mítico já aqui dado: o de ser a cor iconográfica do próprio São Jorge cuja lenda desenvolveu-se aqui no século V, na Venetia bizantina, depois vindo a ser simbolicamente incarnado no gondoleiro mestre desta embarcação única no mundo.

São Jorge, incarnação da Fé armada do Ideal do Espírito, acabou lanceando o dragão cujo sangue tingiu de vermelho a sua capa branca, tingiu de luto a Veneza inteira, indo desaparecer o corpo ferido do monstro na grande laguna. Assim, pois, a cor vermelha é primordialmente a do luto vitorioso do veneziano sobre o dragão da heresia e apostasia.

Numa leitura mais aprofundada ou esotérica, é interpretação é diversa daquela: São Jorge ou Akdorge, em hindustânico, é considerado Chefe dos Makaras ou “Crocodilos”, também em hindustânico, simbólicos dos Homens Perfeitos ou Mestres Reais, pelo que então Cavaleiro e Dragão tornam-se um só na protecção benfeitora à lacustre e sagrada Veneza.

 

Princípios de Kaballah Musical em San Francesco della Vigna

 

A igreja de San Francesco della Vigna data de 1534, erguida no lugar das vinhas dos franciscanos que aqui tinham um convento desde 1253, altura em que Marco Ziani, filho do doge Pietro Ziani, lhes ofereceu o terreno para aí se instalarem.

O templo actual foi desenhado por Jacopo d´Antonio Sansovino (Florença, 2.7.1486 – Veneza, 27.11.1570) no estilo Renascença, mas tendo sido aconselhado pelo monge franciscano Francesco Zorzi (Francesco Giorgi, 1466-1540), sacerdote local e praticante de Kaballah ou “Tradição” Esotérica judaico-cristã, a compor o esquisso da igreja seguindo as regras da Kaballah Musical para ela ficasse de acordo com as proporções do Templo de Salomão, como estão indicadas no Livro dos Reis da Bíblia.

Francesco Zorzi, autor dum tratado de Música de Pitágoras transposta para a Arquitectura, De Harmonia Mundi Totius (1525), quis que a igreja de San Francesco della Vigna incluísse as consonâncias musicais pitagóricas para que “ela reflectisse inteiramente a harmonia universal”. Para isso baseou-se no valor 3, o número perfeito designativo da Trindade Divina – Pai, Filho, Espírito Santo. A nave devia ter de largura 9 passos (isto é, 3+3+3 =9) e de comprimento 27 (3×9), enquanto as capelas colaterais 3 passos de largura.

Sansovino seguiu essas proporções musicais adiantadas por Zorzi, traçando o seu esquisso da igreja em cruz latina consistindo numa nave única, obtida transformando os dois colaterais em capelas e um coro profundo.

Esquisso musical da igreja de San Francesco della Vigna

O valor 3 Trindade vem a vibrar nas 3 notas fundamentais da tradição musical pitagórica: Dó, Sol, Mi, harmonizando-se com as exigências musicais de Ritmo, Melodia e Harmonia, na Kaballah Musical expressando o Espírito Santo (Dó), o Corpo e o comprimento que está para a nave desta igreja franciscana; o Filho (Mi), a Alma e a largura representada aqui pelas capelas colaterais, e finalmente o Pai (Sol), o Espírito e a altura assinalada no coro profundo do templo.

Nenhum músico teve tanta importância no Período Clássico quanto Pitágoras (Samos, cerca de 571 a. C. – Metaponto, cerca de 497 a. C.). Conta a lenda que Pitágoras foi guiado pelos deuses na descoberta das razões matemáticas por detrás dos sons, depois de observar o comprimento dos martelos dos ferreiros. Transpôs essa medida para a de uma corda e pressionando um ponto situado a ¾ do seu comprimento em relação à extremidade, tocando-a seguir, ouvia-se uma quarta acima do tom emitido pela corda inteira. Exercida a pressão a 2/3 do tamanho original da corda, ouvia-se uma quinta acima, e a ½ obtinha-se a oitava do som original. A partir desta experiência, os intervalos passaram a chamar-se consonâncias pitagóricas. Assim, se o comprimento original da corda for 12 e se a reduzir-se para 9, ouvir-se-á a quarta, para 8, a quinta, para 6, a oitava.

Os seguidores de Pitágoras aplicaram essas razões ao comprimento de fios de corda num instrumento chamado cânone, ou monocorda, e assim foram capazes de determinar matematicamente a entonação de todo um sistema musical.

Os pitagóricos viam essas razões como governando todo o Cosmos através do Som estabelecendo a “Harmonia Universal” através da “Música das Esferas”, os Mundos que povoam o espaço estelar. Foi assim que a Música tornou-se uma extensão natural da Matemática, bem como uma arte de filosofar graças à intervenção posterior de Platão retomando o tema musical de Pitágoras.

A Matemática e as descobertas musicais de Pitágoras vieram a ter, dessa forma, uma influência crucial no desenvolvimento da Música e da transposição dos princípios numéricos desta à Arquitectura, ao longo da Idade Média e na Renascença. Deve-se a St.º Agostinho e a Boécio (cerca do século IV d. C.) a retenção do simbolismo pitagórico da música que veio a estar presente na tradição cristã dos construtores medievais das grandes catedrais europeias, como, por exemplo, a basílica de S. Marcos e a igreja de San Francesco della Vigna, ambas em Veneza. Para os monges construtores da Idade Média, o ritmo ternário era chamado de perfeito, enquanto o binário era sempre considerado imperfeito. A simbologia do número 7, expressivo da Criação Universal, é retomada no plano musical como número de Atena, a deusa da Sabedoria.

A Kaballah Musical encontra-se igualmente presente nas partituras dos grandes mestres musicais, com destaque para Bach, sem esquecer Beethoven, Mozart, Wagner e outros prodígios, facto que merece o consenso comum dos especialistas na matéria.

 

Potestades Celestes protectoras de Veneza

 

Potestade significa “poder, potência, majestade”. Para a tradição judaico-cristã esse termo refere-se sobretudo às Potestades Celestes que criaram o Universo, a Terra e o Homem, estando organizados em 9 Coros chamados de Exército Celestial, composto de Arqueus, Arcanjos, Anjos, Santos e Sábios e todos liderados pelo Arcanjo São Miguel ou Mikael, o mais próximo do Trono de Deus.

Existem várias versões relativas às Ordens ou Coros Celestes. Entre as autoridades eclesiásticas que apresentaram as suas versões relativas a este assunto, destacam-se Santo Ambrósio, S. Jerónimo, o Papa Gregório I, o Magno, e a própria Constituição Apostólica. Entre as autoridades hebraicas igualmente abordando o tema, sobressaem Moisés de Leon e Moisés Maimónides, e as obras teológicas Sepher-Ha-Zohar, Maseket-Atziluth e Berith-Menusha.

Contudo, a versão mais universalmente aceite é a do Pseudo-Dionísio, datada do século VI e adjudicada à Escola fundada por Dionísio o Aeropagita, que viveu no século I d. C. Diz-se que foi o primeiro bispo de Atenas e martirizado pelos romanos durante o reinado do imperador Domiciano. São-lhe adjudicadas as obras A Hierarquia Celestial e a Hierarquia Eclesiástica, mas na realidade foram escritas muito depois por um grupo anónimo de neoplatónicos seus seguidores e por isso adoptaram o seu nome baptizando a sua composição literária de Pseudo-Dionísio.

Segundo a obra dionisiana, aprovada por São Tomás de Aquino na sua Summa Theológica, existem 3 Ordens de Potestades Celestes, cada uma composta de 3 Coros, totalizando 9 Coros, como sejam pela ordem correcta:

 

Primeira Ordem (PAI) – Com os seus 3 Coros está na génese do Universo, mantém a sua Harmonia e manifesta a Vontade Deus, que executam.

 

1. Tronos

2. Querubins

3. Serafins

 

Segunda Ordem (FILHO) – Com os seus 3 Coros representa o Poder de Deus e está na génese dos Planetas os quais governam, particularmente a Terra. Executam as ordens das Potestades da Primeira Ordem e dirigem as da Terceira Ordem.

 

4. Potestades

5. Dominações

6. Virtudes

 

Terceira Ordem (ESPÍRITO SANTO) – Com os seus 3 Coros está na génese do Homem, protegendo e guiando a Humanidade, e elevando os pensamentos de sabedoria e as preces de amor do Homem a Deus.

 

7. Principados (Arqueus)

8. Arcanjos

9. Anjos

 

Essa Terceira Ordem reúne em si as qualidades das anteriores e por ser a mais próxima da Humanidade, é geralmente a ela que esta se dirige e mesmo reproduz nas suas obras artísticas. É o que se verifica em Veneza, com a maioria das suas igrejas consagradas aos Arcanjos e Anjos da Milícia Celestial dispondo a cidade sob sua protecção inequívoca, como antes haviam feito os primitivos Vénetos adorando aos deuses celestiais.

Aparecem assim os patronímicos celestes nas igreja de São Miguel na Insola, igreja do Anjo Rafael, igreja de Santa Maria dos Anjos, igreja do Espírito Santo, sucursal da igreja dos Jesuítas (Santa Maria do Rosário), etc. Nessa última, vulgarmente chamada de chesia dei Gesuiti, aparece o flagrante do misterioso Arcanjo Sealtiel, identificado por legenda na base, juntamente com os três outros Arcanjos protectores do Templo junto ao altar-mor deste. Não deve causar estranheza os Jesuítas venezianos mostrarem conhecimento das Hierarquias Celestes, pois que a Companhia Jesus em Veneza privou de perto com a comunidade judaica da cidade onde haviam rabinos cabalistas que decerto terão influenciado alguns desses doutos cristãos.

Arcanjo Sealtiel

Sealtiel, ou Sakiel, é considerado o “Arcanjo da Contemplação” e é um dos sete Arcanjos diante do Trono de Deus aos quais a tradição cabalística hebraica chama de Mikael, Gabriel, Rafael, Anael, Samael, Zadkiel e Oriphiel. Os gnósticos cristãos chamam os quatro últimos de Uriel, Baraquiel, Sealtiel e Jehudiel. A tradição judaico-cristã acabou atribuindo a estas Potestades o governo dos 7 Planetas tradicionais, cuja ordem correcta é a seguinte:

Sol – Mikael

Lua – Gabriel

Marte – Samael (Baraquiel)

Mercúrio – Rafael

Júpiter – Sakiel (Sealtiel)

Vénus – Anael (Uriel)

Saturno – Kassiel (Jehudiel)

Os Anjos e Arcanjos, como as demais Potestades, participam do Mundo Espiritual e são intermediários entre o Divino e o Terreno, significando o termo latino angelorum, “anjo”, precisamente “mensageiro” e “enviado do Logos” ou Deus Supremo, neste caso, a Veneza, como se vê no frontispício da igreja do Anjo Rafael com este olhando protector um pescador, representando o povo marítimo veneziano, e ao lado um cão, símbolo do guia desta cidade pelo caminho certo e seguro da Iniciação Verdadeira na OBRA DO ETERNO, que é dizer, a TEURGIA.

 

 

 

 

 

 

 

Nuno Álvares Pereira, o Santo Guerreiro – Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Out 27 2009 

 

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Lisboa, 25.10.2009   

  

Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, Beato São Nuno de Santa Maria ou simplesmente Nun´Álvares (nascido em Cernache de Bonjardim, Sertã, em 24.6.1360, e falecido em 1.4.1431 no Convento do Carmo, Lisboa), foi um nobre e guerreiro português do século XIV que desempenhou um papel fundamental na crise de 1383-1385, onde Portugal jogou a sua independência contra Castela. Nuno Álvares Pereira foi também 2.º Conde de Arraiolos, 7.º Conde de Barcelos e 3.º Conde de Ourém, tendo chegado a Condestável do Exército Português, cargo que hoje equivale ao de Ministro da Defesa, e faleceu com fama de Santo da Ordem do Carmelo. Nuno Álvares Pereira foi um dos dez filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital com sede no Convento da Flor da Rosa, Crato, e de D. Íria Gonçalves do Carvalhal, filha de fidalgo. O jovem cresceu na casa do seu pai, na Flor da Rosa, onde viveu até aos 13 anos, tendo aprendido as artes militares e onde ganhou gosto pela leitura, sobretudo pelos livros de Cavalaria “onde a pureza era a virtude que tornara invencíveis os heróis da Távola Redonda”, e assim desejou para si “que a sua alma e corpo se conservassem imaculados”. Sonhou e confessou a sua mãe que também iria ser um Cavaleiro do Santo Graal, que O iria demandar, conquistar e depor no Altar da Pátria Lusitana. Isto confessou a sua mãe, que passou a chamá-lo de “o meu Galaaz”, este o herói da Távola Redonda que, segundo a narrativa, conseguiu apossar-se da Taça Sagrada, sabendo-se que Galaaz é apodo do próprio Cristo

Com essa idade de 13 anos entrou para a corte do rei do D. Fernando I, onde foi feito cavaleiro com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Aos 16 anos, em 15.8.1376, casou-se em Vila Nova da Rainha, Azambuja, com D. Leonor Alvim, fidalga do Minho que enviuvara muito cedo e não tinha filhos. O casamento fora arranjado pelo rei e por D. Álvaro Pereira, a contragosto do filho que não queria casar. Do matrimónio nasceram dois filhos que morreram durante o parto, e uma filha, Beatriz. A mãe não resistiu aos problemas do parto e morreu pouco tempo depois do nascimento da filha, em Janeiro de 1388. D. Nuno Álvares Pereira entregou esta aos cuidados da avó, D. Íria Gonçalves. D. Beatriz casou em 1.11.1401 no Paço de Frielas, Loures, com D. Afonso, filho bastardo de D. João I e 1.º Duque de Bragança, Casa esta que iria ter papel determinante em vários períodos da História de Portugal e mesmo do Brasil Império. 

Quando o rei D. Fernando I morreu em 1383, sem herdeiros a não ser a princesa D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela, D. Nuno Álvares foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões portuguesas de D. João, Mestre de Avis, à Coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de D. Pedro I de Portugal, D. João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda da independência nacional para Castela. Depois da primeira vitória militar de D. Nuno Álvares sobre os castelhanos na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, D. João de Avis nomeou-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém. 

A 6.4.1385 o Mestre de Avis é reconhecido pelas Cortes reunidas em Coimbra como D. João I, rei de Portugal. A resposta de Castela não se fez esperar e invadiu o País com um poderoso exército. A 14 de Agosto desse ano, as forças portuguesas enfrentaram as castelhanas em Aljubarrota. Apesar da desvantagem numérica de 1 português para 10 castelhanos, em menos de uma hora decidiu-se a vitória retumbante dos portugueses graças ao génio militar do Condestável, que desde então e para sempre é o General do Exército Português. 

A batalha de Aljubarrota marcou o fim definitivo da instabilidade política e a consolidação da independência nacional. Em 25.7.1415 D. Nuno Álvares Pereira integrou a armada de 200 navios da Expedição a Ceuta, Norte de África, tendo sido a primeira conquista da época dos Descobrimentos Marítimos, entendida como acto da reconquista cristã e acto de gesta missionária. Foi a última batalha do Condestável. Com 55 anos de idade e riquíssimo, distribuiu os seus bens pelos familiares e pela Ordem do Carmelo, e despojado das riquezas deste mundo, só com um humilde burel, entrou a professar como frade mendicante no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa. 

No exercício espiritual Frei Nuno de Santa Maria, nome que adoptara quando abraçou a vida religiosa, mostrou-se tão dedicado e bondoso para com todos que todos vinham comer do seu “caldeirão”, isto é, receber as suas esmolas, fossem por conselhos sábios e amoráveis, fossem por moedas, roupas ou comida que esmolara aos ricos para oferecer aos pobres. A sua fama de santo cresceu rapidamente, e ainda em vida atribuíram-lhe milagres. Havia quem dissesse que até ressuscitara mortos… 

Mas Frei D. Nuno não se despojou de tudo: conservou na sua pequena cela a sua espada e armadura. Abraçara a Religião mas não morrera a alma de leão devoto à Pátria. Há uma história fabulosa, invenção apologética do senso patriótico, sobre o embaixador de Castela que o terá visitado no Convento do Carmo e lhe perguntado o que faria se Castela invadisse novamente Portugal? Então o velho guerreiro levantou o hábito e deixou ver que por baixo trazia vestida a sua cota de malha, dizendo com firmeza: “Se el-rei de Castela mover guerra a Portugal, servirei ao mesmo tempo a religião que professo e a terra que me deu o ser”. 

Outra história fabulosa, situada no início da vida monástica de D. Nuno, foi a do boato de Ceuta estar prestes a apresada pelos mouros, e o velho guerreiro alquebrado querer embarcar na Expedição de socorro a Ceuta. Quando o tentaram dissuadir, pegou numa lança e atirou-a da varanda do Convento. A lança atravessou o vale em baixo e foi cravar-se numa porta do outro lado do Rossio, dizendo D. Nuno: “Em África a poderei meter, se tanto for mister”! Daqui nasceu a expressão “meter uma lança em África”, no sentido de se vencer uma grande dificuldade. 

Em 30 de Março de 1431, Sexta Feira da Paixão, o “Frade Santo”, como lhe chamavam, com 70 anos de idade tombou gravemente doente. Acudiram ao Carmo os mais importantes do Reino, incluindo D. João I e o príncipe herdeiro, D. Duarte. Ao meio-dia de 1 de Abril, Domingo de Páscoa, Frei D. Nuno morreu. O rei D. João I estava à sua cabeceira. 

O Povo de Portugal chorou o seu Santo Guerreiro, até em Castela o choraram, por seus dotes de pureza e justiça. Começaram as romarias piedosas ao Carmo, e todos queriam levar uma mão cheia de terra do túmulo do Santo Condestável, que assim ficou conhecido até hoje. Segundo a Crónica dos Carmelitas, essa terra milagrosa misturada com água e tomada naturalmente ou aplicada, operou 12 ressurreições, 24 curas de paralíticos, 21 curas de cegos, 21 curas de surdos ou mudos, 18 curas de doenças internas, 16 curas de doenças fatais, 10 recuperações de febres altas e derrame de sangue e 6 aparições do Grande Cavaleiro com graças espirituais. 

Os milagres atribuídos ao Santo Condestável prosseguiram pelos séculos seguintes, até que Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV, tendo consagrado o dia 6 de Novembro ao então Beato. O seu processo de canonização, iniciado em 1940, após várias interrupções, desfechou com D. Nuno Álvares Pereira sendo canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo Papa Bento XVI em Roma, às 9 horas e 33 minutos (hora de Portugal) de 26 de Abril de 2009. 

  

A “Espada Mágica” do Santo Condestável  

  

Desde a sua juventude que o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira era tremendamente influenciado pela Mística dos Cavaleiros da Távola Redonda e a sua Demanda do Santo Graal, símbolo perene de Iluminação na Graça do Espírito Santo incarnado na imagem ideal de Santa Maria Maior. 

Homem feito, ingressado na carreira das armas e já destacado como esforçado cavaleiro defensor do reino, procurou ter uma “espada mágica” como aquela que o rei Artur possuiu, uma nova caliburna ou excalibur que desta vez seria deste novo “Galaaz do Carmelo”. Pegou na sua velha espada e procurou Fernão Vaz, alfageme de Santarém, para que a corrigisse, e ele assim fez, dando-lhe têmpera e feição nova, nada cobrando ao Condestável pelo trabalho, dizendo, em guiso profético, que quando ele fosse Conde de Ourém lhe haveria de pagar, o que veio a acontecer, tendo D. Nuno feito grandes intercessões a favor desse alfageme, misto de ferreiro, alquimista e profeta.   

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Espada do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira no Museu Militar de Lisboa

 A espada é de lâmina direita e aguçada, e o punho em cobre, tendo também à roda em espiral fio de cobre, medindo na sua maior largura três polegadas, diminuindo sucessivamente até à ponta. Num dos lados da lâmina, onde também se reconhece o signo do corregedor – uma cruz e uma estrela – D. Nuno mandou gravou a seguinte inscrição: Excelsus super omnes gentes Dominicus. Na outra face está gravado o santo nome de Maria, e dentro de um círculo as palavras Dom Nuno Álvaro, vendo-se ainda uma contra-marca, com a cruz entrelaçada por flores. As aberturas/saliências na lâmina serviam, além aspecto decorativo, para tornar a espada mais leve, logo, mais fácil de manusear. Sugerem o formato de runas, com o sentido prático de levar as lâminas adversárias a encravarem-se nas mesmas, e com um golpe hábil prontamente o adversário era desarmado. 

Com essa excalibur ungida, erguida ao Céu evocando os seus Poderes, D. Nuno Álvares Pereira salvou a independência ameaçada de Portugal por Castela, e depois vira-a para baixo e fá-la Cruz, a qual abraça incondicionalmente na Fé do Carmelo, no todo sendo cavaleiro-monge, o paradigma perfeito da Linhagem Cavaleiresca ou Kshatriya sob o pendão da Mãe Divina de quem era Grão-Tributário. 

Pode-se ver a réplica exacta desta espada no claustro arruinado do Convento do Carmo (assim como à entrada da igreja do Santo Condestável, também em Lisboa, havendo outra igual na Sertã, por cima da porta lateral da capela de N.ª Sr.ª dos Remédios), mesmo que se diga que a peça original é a que está patente ao público no Museu Militar de Lisboa, junto a Santa Apolónia. 

  

A Porta Real do Carmo 

  

O Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo afronta o Monte do Castelo de S. Jorge em cuja encosta estavam o Paço Real e a Sé Catedral, estando permeio a ambos os Montes o campo do Rossio, chamado nos séculos XIV e XV de Valverde. Esta conjunção geográfica ficou assim por vontade de D. Nuno Álvares Pereira, que após abandonar a vida militar e entrado na religiosa mandou construir este convento em 1389, confirmando-se a teimosia com que quis fosse aqui a Casa principal do Carmelo em Lisboa, apesar das dificuldades técnicas em construí-la devido à consolidação da escarpa onde assentaram as fundações da cabeceira do templo. 

Aliás, no tempo do Santo Condestável chamava-se ao Monte do Carmo de lugar da Pedreira, habitado sobretudo por judeus, tendo ele insistido ter de ser aí o lugar do convento e igreja, e quando os seus alicerces cederam por duas vezes, D. Nuno jurou fazê-los de bronze caso voltassem a ruir. Para a terceira tentativa foram contratados os mestres canteiros, o mesmo que arquitectos, mais famosos de Lisboa: Afonso, Gonçalo e Rodrigo Eanes, que não consta que fossem parentes. Com eles foram contratados os mestres pedreiros Lourenço Gonçalves, Estevão Vasques, Lourenço Afonso e João Lourenço. Os servidores e amassadores de cal, tarefa especializada, foram os judeus Judas Acarron e Benjamim Zagas. Esta Maçonaria Operática, tendo deixado com fartura siglas e inscrições lapidares nas paredes do templo que ainda se podem ver, finalmente viu a sua empresa coroada de êxito. 

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O Convento do Carmo em Lisboa antes de 1755

Quando se venciam os percalços, novos surgiam, e assim, percalço sobre percalço, o templo foi se construindo até se tornar o mais notável edifício gótico da época. Porque D. Nuno escolheu este lugar quase impossível para se construir coisa alguma, alcantilado na Pedreira que se fez Carmo? Há a razão gnoseológica, atendendo que o Carmo, o Paço no Castelo e a Sé prefiguravam um triângulo, ficando o espaço do mesmo ocupado pelo campo de Valverde, nome que lhe foi aposto pelo próprio Condestável, decerto em memória da sua vitória retumbante (Outubro de 1385) na batalha do mesmo nome. 

Tanto que o Paço e este Convento ficavam defronte um ao outro, e quem vinha daquele entrava neste pela sua hoje quase esquecida ou ignorada porta real, gótica, lateral à entrada principal, razão de estar decorada com flores-de-lis, símbolo de realeza adoptado oficialmente por D. João I, o iniciador da Dinastia de Avis cujo paraninfo foi o Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, e como religioso, simplesmente Fr. Nuno de Santa Maria. 

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Porta Real do Convento do Carmo, Lisboa

Junto a esta entrada, pode igualmente observar-se pedras inscritas com legendas e desenhos de peixes, animais e aves, assim como parte da antiga escadaria que descia para o campo de Valverde a caminho do Paço, sobreviventes desconjuntados do terramoto de 1755 cujos sinais mais dramáticos dos seus efeitos na cidade vêem-se aqui. 

  

As relíquias do Santo Condestável 

  

Depois do terramoto de 1755, as poucas ossadas de D. Nuno Álvares Pereira que sobreviveram à catástrofe foram colocadas numa réplica em madeira do seu túmulo, em 21 de Março de 1768, onde ficaram até 14 de Março de 1856, quando foram removidas e postas numa urna forrada a veludo, em 9 de Março de 1895. Em 1912, foram depostas num relicário de prata e devotamente percorreram o país até que, cerca de 1967, roubaram as relíquias e nunca mais se recuperaram. 

Outros ossos do Santo e Guerreiro, que por cautela antecipada estavam guardados noutro lugar, substituíram os roubados e foram divididos em duas partes, uma destinada à veneração na capela da Ordem Terceira, no Largo do Carmo, ao lado das ruínas do convento, e outra para a igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, onde as ossadas ficaram numa urna debaixo do altar-mor. 

De facto, o terrível terramoto destruiu completamente os bairros do Carmo e da Trindade, hoje ligados pelo conhecido prolóquio cair o Carmo e a Trindade. O convento carmelita que D. Nuno Álvares Pereira aqui fundou foi arrasado pelo cataclismo, assim desaparecendo o seu túmulo, do qual só restam as ditas ossadas consideradas relíquias santas. 

A sepultura original, conforme Frei D. Nuno rogara como esmola pouco antes de falecer, era “uma mortalha e uma cova para o corpo”. Portanto, campa rasa simples e humilde. Mas algum tempo depois foi construído um túmulo condigno com a sua grande pessoa, inscrevendo-lhe o seguinte epitáfio: “Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a vida na Terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo”. 

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Réplica do túmulo de Nuno Álvares Pereira no Convento do Carmo, Lisboa

O túmulo estava junto ao altar-mor e continha um único corpo amortalhado, com uma espécie de gaveta isolada que protegia a cabeça, evitando o contacto desta com a terra e a cal. Este artefacto, caído em desuso cerca de um século antes da morte de D. Nuno Álvares Pereira, era igual àquele dos lendários cavaleiros da Távola Redonda cujos feitos o haviam inspirado tanto desde a infância. Aliás, a sua mãe, D. Irene, apelidava-o em pequeno de Galaaz, nome do mais puro dos cavaleiros da Távola do rei Artur Pendragon. O próprio povo, que rompia o chão da igreja para conseguir uma mão cheia de terra santa da sua sepultura miraculosa, considerava-o o último cavaleiro medieval, modelo de justiça e perfeição. 

  

A fachada apologética da igreja do Santo Condestável 

  

A fachada exterior da igreja do Santo Condestável apresenta no topo, sob a Cruz da Ordem de Avis, as Armas de Portugal coroadas com o Dragão dos Lusos, na forma clássica do mítico baphomet, o ídolo estranho atribuído aos antigos Templários. Mais abaixo, dos lados, Santa Maria com o Menino ao colo, num nicho cuja mísula é suportada por três cabeças de Anjos, aludindo à Trindade Divina. Nossa Senhora, Cordo Mariz ou “Coração de Mãe” de todo o Portugal, era da devoção maior do Santo Frei Nuno de Santa Maria do Carmelo, e por isso postou-se aqui a sua imagem com o salvífico escapulário carmelitano no peito, tendo o Menino ao lado. 

Noutro nicho, está S. Jorge erecto lanceando o dragão da iniquidade e da traição à Pátria que é tanto mística como geográfica, tendo sido o Condestável D. Nuno o primeiro a render o preito da sua devoção ao Santo Guerreiro, como Filho para Pai expressando na Terra ao Metraton do Céu, o mesmo Mikael ou S. Miguel Arcanjo incarnado como S. Jorge ou Akdorge, Padroeiro do Exército Português desde a sua vitória retumbante na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385. Repetem-se três cabeças de Anjos na mísula, expressando a Santíssima Trindade na Terra, enquanto na outra a expressam no Céu. 

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Fachada dianteira da igreja do Santo Condestável, Lisboa

Ao centro, sobre a entrada, está D. Nuno Álvares Pereira trajado de carmelita e adorado lateralmente por dois Anjos, um custodiando a Taça Eucarística do Graal e outro à Espada Mágica de Excalibur em cuja lâmina se enrosca uma serpente em ascensão. Aos pés do Santo Condestável, as Armas de Avis já gravadas na sua bandeira lábaro sagrado de Portugal, aliás, Porto-Graal

A igreja abriga as relíquias deste Santo Condestável, e o seu tesouro artístico são os dois vitrais de Almada Negreiros que iluminam os altares laterais, alusivos à devoção do Santo e Guerreiro por Cristo e sua Mãe, com figuras longas e em tons fortes. Estão moldados em janelas ogivais, repartidas por cruzes altas. 

Esta igreja do Santo Condestável, inaugurada em 14 de Agosto de 1951, situa-se em Lisboa entre o Mercado de Campo de Ourique e a Rua Saraiva de Carvalho, e pertence à série das “Novas Igrejas”, resultado do desenvolvimento peculiar do modernismo conciliado com os moldes góticos e manuelinos. Este templo “neogótico”, como é uso classificar-se, foi projectado em 1946 pelo arquitecto Vasco Regaleira (Vasco de Morais Palmeiro) que colaborou na Exposição do Mundo Português em 1940. 

  

Ordem de Santa Maria do Carmelo 

  

A Ordem do Carmo que originalmente se chamou Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, constituiu-se entre os anos 1206-1214 dum grupo de leigos latinos (eremitas penitentes, possivelmente ex-cruzados) liderados por um tal de B, posteriormente identificado como Brocardo, os quais viviam na região do Monte Carmelo, uma cadeia de colinas próxima à cidade de Haifa, antiga Porfíria, no actual Estado de Israel. 

A palavra Carmelo significa “jardim”. Nesse Monte se recolheram os eremitas cristãos seguindo a tradição bíblica do Profeta Elias que no passado remoto aí se estabelecera numa gruta, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Mais tarde, esses cristãos penitentes rogaram uma regra de vida a St.º Alberto, Patriarca de Jerusalém, que os atendeu e reuniu numa Ordem tipicamente eremítica e cristocêntrica, mas idealizada na Vida da Mãe de Deus. A Regra Carmelita foi aprovada pelo Papa Honório III em 1226, tendo a seguir os monges emigrado para o Ocidente europeu, onde iniciaram a propagação da Hipertúlia, ou seja, o culto e veneração a Nossa Senhora, desde logo se assumindo como a primeira Ordem religiosa Mariana ou Matrística da Europa. 

Nos inícios do século XIV os Carmelitas entraram em Portugal e estabeleceram-se em Moura, no Alentejo. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira simpatizou de imediato com eles por sua grande devoção à Virgem Maria, e mandou construir em Lisboa o Convento do Carmo para albergar os freires, tendo ele mesmo, nos anos finais da sua vida, ingressado aí, como freire penitente da Ordem Carmelita da Antiga Observância, que é o seu ramo mais antigo. 

Posteriormente, em 1593, formou-se a Ordem dos Carmelitas Descalços, resultado da reforma feita ao carisma carmelita elaborado por St.ª Teresa de Ávila e S. João da Cruz. Este ramo reparte-se em três diferentes tipos da família carmelitana: os padres e frades, as freiras de clausura, e os irmãos leigos. 

Também os carmelitas não escaparam a uma certa filiação à Tradição Hermética, como indiciam vários acontecimentos históricos: desapoiaram o Papa Clemente V (assassino moral da Ordem do Templo) e apoiaram a eleição de João XII, autor da Bula Sabatina, gozando da protecção da Ordem de S. João de Acre, vulgo Hospitalários; igualmente foram acusados de confundirem a Virgem Maria com Maria, a Egípcia, famosa por um processo alquímico ligado ao seu nome: o de destilar pelo fogo a água, ou seja, o conhecido “banho-maria”. 

Imagem 23Imagem 22 

“Procissão Triunfal”, Jardim Castro Guimarães, Cascais 

Ainda mais significativo: no extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade de Cascais havia dois enormes painéis de azulejos (desde 1925 patentes no Jardim Castro Guimarães dessa vila), um deles provando cabalmente a filiação hermética do Carmelo, quando retrata a Procissão Triunfal com a Virgem Maria em Glória (Shekinah) sentada no Carro ou Merkabah tendo adiante os Arcanjos S. Miguel e S. Gabriel, associados ao Sol e à Lua, e atrás o cortejo dos “Filhos de Maria”, ou seja, os Adeptos da Alquimia que é uma Ciência de Espírito Santo configurado na mesma Mãe de Deus. Todos esses Adeptos ligados à Tradição Espiritual Portuguesa dos quais se destacam: St.º António, St.ª Isabel de Portugal, St.ª Isabel da Hungria, St.º Alberto Magno, Raimundo Lúlio, Arnaldo de Vilanova, Escoto, etc. Por cima do conjunto vogam Anjos, cada qual com uma alfaia do Hermetismo Carmelitano cujas Armas, abaixo, selam a obra. 

  

Fernando Pessoa no encómio ao Santo Condestável 

  

Mensagem, Lisboa, Ática, 1934. 

   

Que auréola te cerca? 

É a espada que, volteando, 

Faz que o ar alto perca 

Seu azul negro e brando. 

  

Mas que espada é que, erguida, 

Faz esse halo no céu? 

É Excalibur, a ungida, 

Que o Rei Artur te deu. 

  

´Sperança consumada, 

S. Portugal em ser, 

 Ergue a luz da tua espada 

Para a estrada se ver. 

  

Créditos fotográficos: Autor e Paulo Andrade. 

  

  

  

  

  

  

  

    

Consagração da Lisboa Hermética – Hugo M. D. Martins Domingo, Out 4 2009 

1

A magia de Lisboa é um espírito infinito de experiência, revelação, mistério e iniciação. Toda a arquitectura expressa em Lisboa, mais especificamente na chamada Baixa Pombalina, é fruto de uma combinação perfeita das lendas, mitos, filosofias e tudo com muita beleza. Desde o Terreiro do Paço, com a estátua central de D. José I a cavalo “derrotando as ofiússas ou serpentes figurativas de dragões” (configuração do arquétipo São Jorge), à passagem pelo magnífico Arco “Iniciático” da Rua Augusta ilustrado com os seus Heróis nacionais, à transposição de toda a intersecção das ruas da Baixa como verdadeiras serpentes de Ouro e de Prata vigiadas por uma Águia altiva mas discreta, todos esses elementos completam este percurso único e transformador do ser humano… uma verdadeira Opus Magnum sob a regência tutelar das sete colinas sagradas da cidade, garante de uma Alquimia Mística no Laboratorium da capital do País.

Cidade Mui Nobre e Leal, palavras de D. João I sobre a nossa Lisboa que hoje estão expressas no brasão que caracteriza o símbolo da identidade comum da urbe, imposto na bandeira da mesma, dividida opostamente nos tons branco e negro, esvoaçando ao sabor do vento na haste disposta sobre o edifício do seu Município. É neste lugar que a nossa viagem inicia, desenvolverá e acabará, visto ser aqui que está o órgão político-social regente da cidade, assim mesmo reflectindo o seu espírito e vida própria. Adiante do Município abre-se o seu largo quadrado de proporções largas, a Praça do Município, completado ao centro por um belo, magnífico e até transcendente pelourinho. Aqui os imóveis absorvem a luz radiante penetrando a praça e, sob o seu granítico silêncio, ocultam inúmeros significados muito além do ruído e stress envolventes, mas que a calma e serenidade do observador curioso de toda a sua verdade desvela.

 

1. O pelourinho esotérico

 

Em Portugal os pelourinhos datam desde o século XII, e tinham como principal função a consagração política de um povoado, aldeia, vila ou cidade distinta através da sua implantação defronte à Câmara dos Vereadores, e a partir daí, com esse testemunho do poder político soberano, passava a funcionar legal ou legitimamente, na forma prevista nas Ordenações Portuguesas (Ordenações Afonsinas, Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas), estabelecendo e regulando o Poder Público, Administrativo, Legal e Jurisdicional.

Contudo, os pelourinhos, símbolos do Poder Legal estabelecido (Legislativo e Executivo), em nome do mesmo era assim que serviam para anunciar publicamente as sentenças finais dos julgamentos ditando castigos públicos, desde flagelamentos até enforcamentos, a criminosos assim expostos à vergonha pública, sendo amarrados a argolas e torturados ou mortos, conforme a gravidade do delito cometido.

Na generalidade, os pelourinhos localizavam-se defronte ao edifício da Câmara, contudo também tinham direito a ser seus donatários as Dioceses e os Cabidos dos principais Mosteiros, como prova e instrumento da Jurisdição Feudal 1, mesmo assim subordinada ao Poder Central da Coroa, que detinha a “palavra final” No antigo território ultramarino português, o símbolo do pelourinho também estava presente, representando, portanto, a administração pública lusitana regida pelas Ordenações 2.

A constituição básica dos pelourinhos apresenta sempre uma base com determinada forma geométrica (circular, quadrada ou até octogonal), na qual se ergue uma coluna ou fuste, terminando num capitel. Consoante a sua estrutura geométrica e estilo artístico, pode ter várias classificações: gaiola, roca pinha, extravagante, etc. 3

Com a ascensão do Liberalismo no século XVIII até meados do século XIX, fustigado pelos escritos de personalidades como John Locke e Adam Smith, cultivou-se a renovação da sociedade desse período para a democratização. A palavra liberal, etimologicamente oriunda do latim liber (“livre”, ou “não escravo”), era associada a essa outra de liberdade. Assim, os pelourinhos, simbólicos de pressuposta jurisdição feudal e de pressuposto absolutismo monárquico, rapidamente tornaram-se sinónimos abjectos de tirania, pelo que em 1834 foram destruídos pelos liberais 4. Contudo, facto interessante, é não se ter destruído no século XIX este pelourinho de Lisboa, enquanto outros pelourinhos de localidades importantes, como foi o caso do de Sintra (e neste caso só reconstituído em 1940 pelo escultor José da Fonseca), não sobreviveram, mas este da Capital do País (cujo primitivo manuelino não sobreviveu ao terramoto de 1755 mas serviu de modelo ao actual setecentista) tem-se mantido intacto, poupado à eliminação tanto pelos liberais quanto pela liberalidade republicana.

Com efeito, o pelourinho que está na Praça do Município, em Lisboa, é de construção mais recente (século XVIII), e em consequência do terramoto de 1755 foi reconstruído sob projecto do arquitecto Eugénio dos Santos, sendo o seu escultor Joaquim Machado. O primitivo, existente na antiga Praça do Pelourinho (localizada antes no que hoje constitui a Rua do Comércio, entre as Ruas dos Fanqueiros e da Madalena), onde funcionaram os serviços camarários até ao final do século XIX, foi destruído pelo supradito terramoto, sendo substituído e reposto na nova Praça do Pelourinho que em 1886, no Edital de 24 de Maio desse ano, viria a ser chamada de Praça do Município 5. Apresenta-se com 10 metros de altura, assenta numa base granítica em forma octogonal com cinco degraus com cantos de curva côncava. O seu fuste em espiral, definido por três hastes, também elas em forma octogonal de lados curvos e torcidas no sentido ascendente, rematam no capitel. Este é coroado pela esfera armilar de metal dourado, da autoria de Pêro Pinheiro, com 56 cm de diâmetro.

No entanto, ao analisarmos a constituição da praça quadrada à volta deste pelourinho, verificamos que a calçada aí existente apresenta sob determinada disposição geométrica um círculo que induz uma rotação em determinado sentido (esquerda para a direita). Este facto da “Quadratura do Círculo” certamente não terá sido disposto ao acaso, como igualmente as ligações veladas que o pelourinho apresenta com o próprio Município à sua frente, deixando-nos com a impressão clara de que ambos os imóveis estão «unidos» do ponto de vista arquitectónico e simbólico.

No que diz respeito ao círculo em si, parece um resíduo latente da Cosmologia Geocêntrica dominante ainda no século XVIII (nomeadamente assumida pela Maçonaria da época), a qual é expressa pelos cincos anéis da calçada que circundam a escultura vertical, tal como a disposição dos triângulos num só sentido dão a dinâmica do movimento da esquerda para a direita, dextroversum, como se fosse o Universo girando em torno da Terra, da Sfera Mundi, tal como o alemão Gregorius Anglus Sallwigt (ou George Von Weling) representou na sua obra Opus Magnum Cabalisticum nesse século.

No entanto esta praça não teve sempre a aparência que actualmente tem, inclusive a calçada hoje existente aí só foi colocada muito posteriormente à data 1755, cingindo-se a sua estrutura inicial (registada em fotos) apenas à delimitação de um círculo (noutros tempos decorado com plantas e flores) tendo no centro o pelourinho sobre base quadrada.

2.

A relação do pelourinho com o próprio Município parece ser bastante evidente, devido à relação de determinados elementos da fachada daquele com elementos deste. Refiro-me, especificamente, aos três rostos coroados no Município em sintonia como as três hastes ascendentes do fuste, tal como também as estrelas de oito pontas (acima de cada rosto) têm igual valor numérico nos oito lados da base do pelourinho e nos oito lados curvos de cada haste. Estabelecida a relação, resta agora saber e interpretar o significado específico de cada elemento, e, consequentemente, o significado geral do conjunto destes imóveis.

A escadaria octogonal expressa o octagrama ou estrela de oito pontas que é um símbolo de plenitude e regeneração, assim se a ligando a sistemas de oito extremidades sendo representativa, segundo a Filosofia Taoista da China, das oito possibilidades (Trigrama) de união entre os pares de opostos (Yin-Yang, Feminino-Masculino”), o que também me recorda o Ogdoad ou Panteão da Mitologia Egípcia no que respeita às oito divindades da sua Cosmogonia, as quais fundaram a cidade de Khumun (“A cidade dos oito deuses”) que tinha como Orago Thot (expressivo da Sabedoria Divina e do Conhecimento Humano), que na Cultura Grega seria posteriormente denominado Hermes (o “Mensageiro dos Deuses”), caracterizando então o nome de Hermópolis (“Cidade de Hermes”) 6. Também esta Capital olisiponense está consagrada a esse deus Mercúrio de função psicopompa ou medianeira, através do escultórico patente na sua Sede autárquica apresentando três rostos expressivos de Hermes Trimesgisto, o “Três vezes Grande” (no Passado, Presente e Futuro como Patrono do Hermetismo), acompanhados de estrelas de oito pontas e cada rosto encarando a Praça do Município, como declaração clara de também esta ser uma Hermópolis, uma “Cidade de Hermes”, uma verdadeira Lisboa Hermética.

Contudo, a estrela de oito pontas também se associa geometricamente à Cruz Templária, e a associação esotérica desta com a Alquimia faz-se evidente. A relação Alquimia entre os Templários foi um facto elucidado e dado ao conhecimento público em 1970 por Roger Caro, na sua obra Legende des Frères Aînes de la Rose-Croix (“Lenda dos Irmãos Primogénitos da Rosa-Cruz”), referindo a formação de uma nova Sociedade Iniciática oriunda dos Templários após o Concilio de Viena em 1312, designada FARC (Frère Aînes de la Rose-Croix), que utilizava os conhecimentos alquímicos que os Templários haviam adquirido na sua relação com outras culturas, nomeadamente a Muçulmana. Além disso, nos pressupostos Estatutos Secretos da Ordem do Templo, também pressupostamente escritos pelo Irmão Roncelinus no século XIII e encontrados pelo bispo alemão Friedrich Münster em 1780, a Alquimia tinha a referência seguinte: Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas Casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo. 7

3.

Neste sentido, o significado da Rosa na Cruz Templária a Cruz alude à Morte, associada ao Masculino, e a Rosa com as suas pétalas expressando o Feminino, naturalmente liga-se ao Nascimento, perfazendo no conjunto a Morte/Nascimento, e vice-versa, indo dar o significado de Re-nascimento ou Reencarnação 8. Assim, a Cruz Templária (ou Cruz de Cristo) está totalmente em sintonia com a linguagem alquímica da Grande Obra, pois é durante esta que ocorre a “morte do Rei”, dá-se o seu “renascimento” e por fim o “casamento” com a Rainha, a Núpcia Química. Além disso, não deixa de ser interessante que neste pelourinho de Lisboa o próprio fuste apresente um polígono de oito lados no nível de baixo (tendo outro igual no nível de cima, desde logo lembrando a célebre sentença de Hermes Trimegisto: O que está em cima é como o que está em baixo, para se cumprir o milagre da Unidade), no mesmo modelo da escada, e ao contarmos o número de passos que vão deste até ao início do vértice da escada, dão exactamente 8! Ora este facto parece comprovar a ligação do centro do fuste à periferia, desenhando perfeitamente a Cruz Templária que descrevemos anteriormente.

A partir desse ponto, temos a sua continuação no fuste (modelado em espiral, definido por três hastes com secção octogonal de lados curvos, distintas e torcidas) que é a representação da Via Alquímica com os seus três Princípios naturais – Enxofre, Mercúrio e Sal – a unificar as duas Forças Polares opostas (Ying-Yang) formando o Rebis, o Andrógino Alquímico como consumação da Núpcia Química (o já referido “casamento filosófico do Rei e da Rainha”) o que está representado no seu topo pela Esfera Armilar, símbolo de Hermes-Toth adoptado para Armas Manuelinas por ingerência do cabalista e conselheiro real Abraão Zacuto junto de D. Manuel I (século XV).

4.

O círculo, cuja hipótese já foi referida anteriormente, vinha a ser representação notável da Cosmologia Geocêntrica dominante na Maçonaria do século XVIII acabando por ser, talvez, uma resposta de repulsa contra o modelo Heliocêntrico adoptado pela Ciência encabeçada por Nicolau Copérnico, no século XVI. Além disso, o esquema que hoje está representado na calçada em redor do pelourinho, também faz lembrar um outro instrumento da ciência náutica marítima: a bússola! Reparemos que o número de divisões que existem no círculo é exactamente 32. Incluindo a escada octogonal cuja configuração geométrica vem a dar na Cruz Templária encimando o abacus ou báculo pastoral, e inclusive na Cruz da Ordem de Cristo, temos representadas as diferentes direcções da Rosa-dos-Ventos – os 4 pontos cardeais: Norte (0º do azimute cartográfico), Sul (180º), Este ou Leste (90º) e Oeste (270º); e também os chamados pontos colaterais: Nordeste (45º), Sudeste (135º), Noroeste (315º) e Sudoeste (225º); mais ainda os oito pontos chamados pontos subcolaterais: Nor-nordeste (22,5º), Lés-nordeste (67,5º), Lés-sudeste (112,5º), Su-sudeste (157,5º), Su-sudoeste (202,5º), Oés-sudoeste (247,5º), Oés-noroeste (292,5º) e Nor-noroeste (337,5º)). Por fim, a sombra do pelourinho funciona como a própria agulha da bússola que determinada hora do dia indica o Norte magnético, ou seja, a direcção para o Interior da Terra, para a AGHARTA.

A Esfera Armilar, na generalidade do conhecimento comum é tida como a representação do Mundo e alusão à Epopeia Marítima dos Descobrimentos, contudo, na Kaballah expressa a “Árvore Áurica da Vida” chamada Atziluth, e da perspectiva hermética é a representação exacta da unificação dos princípios opostos (Yin-Yang, Lua-Sol, Sal-Mercúrio, Kundalini-Fohat, etc.) que a Alquimia denomina de Rebis. Este assunto já foi analisado no meu estudo anterior, Opus Magnum Olisiponense, inclusive com a ilustração da imagem escultural da “Fonte bicéfala” manuelina existente no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, que mais uma vez reproduzo aqui.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Essa obra escultórica é talvez das mais reveladoras da Ciência Hermética perfilhada pelo rei D. Manuel I, tanto quanto a sua adopção da Esfera Armilar para signa pessoal e que se universalizou com o processo da Epopeia Marítima Portuguesa. No entanto, como é sabido e graças ao esforço anterior de D. Dinis (séculos XIII-XIV), os Descobrimentos Marítimos vieram a ser a continuação do grande Projecto Templário de a unificação do Ocidente com o Oriente, do qual a Ordem de Cristo deu seguimento com homens de rara craveira tanto em carácter como em cultura, perfilados no Panteão da Espiritualidade Lusa como distintos Iniciados nessa Ordem. Neste aspecto, a Esfera Armilar mostra-se representativa de um significado duplo: por um lado, o Mundo navegado pelos descobridores portugueses, a Epopeia Marítima, os Descobrimentos; por outro, a Unificação dos Opostos, Oriente-Ocidente, Rei-Rainha ou Enxofre-Mercúrio (na Alquimia ocidental), Yin-Yang (nos Trigramas chineses). Sendo assim, na reedificação do pelourinho da Praça do Município pelo arquitecto Eugénio dos Santos, houve o cuidado de conservar o aspecto hermético desse monumento manuelino, jóia preciosa do património arquitectónico português com a sua dupla interpretação exotérica (historiográfica) e esotérica (iniciática).

 

2. Fachada superior do Município

 

O edifício do Município de Lisboa foi inaugurado após o terramoto de 1755, com arquitectura idealizada pelo ilustre engenheiro Eugénio dos Santos de Carvalho mas que viria a ser dramaticamente destruída pelo incêndio de 1863. Eugénio dos Santos, verdadeiro génio da Arquitectura, foi convidado pelo Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, para integrar a equipa dirigida pelo engenheiro-mor do Reino, Manuel da Maia, para a reedificação da Lisboa destruída numa Nova Lisboa. Duramente criticado no seu tempo e admirado na actualidade, Eugénio dos Santos não resistiu à inveja e ataques constantes à sua obra pelos seus pares, e acabou por mergulhar numa depressão profunda que o acompanhou até à morte, ocorrida em 5 de Agosto de 1760 9.

O ano de 1865 seria o do começo da construção do novo edifício no mesmo local, estando sobre a direcção do arquitecto camarário Domingues Parente da Silva, responsável pela adição do remate da fachada do imóvel. Contudo, essa fachada havia já sido desenhada pelo magnífico escultor francês Anatole Célestin Calmels, responsável pelo trabalho realizado no Arco Triunfal da Rua Augusta, nos escultóricos da Glória coroando o Génio e o Valor. Seria através da decisão sábia do engenheiro Ressano Garcia, responsável pelos Serviços Técnicos da Câmara e arquitecto de inúmeras obras importantes na cidade, destacando-se a criação da linha férrea ligando Lisboa-Sintra, obra que planeou e seguiu de perto, que o remate da fachada do Município seria preservado no modelo desenhado por Calmels. A obra culminaria em 1880, mas não seria a última a ser realizada 10.

Posteriormente, em 1996, o Município seria outra vez vítima de um incêndio destruindo toda a obra arquitectónica que fora reposta no século XIX. Desta vez, a responsabilidade da sua recuperação seria entregue ao arquitecto Silva Dias, indo recuperar-se os andares superiores com a preocupação permanente de conservar o diálogo entre o património histórico e o arquitectónico, havendo também intervenção artística nos moldes da arquitectura moderna. Para esse projecto foram convidados os arquitectos João de Almeida, Manuel Tainha, Nuno Teotónio Pereira, professor Daciano Costa e vários artistas plásticos com o intuito de intervirem ao nível do exterior; Eduardo Nery ficou encarregue do arranjo de superfície da praça e Jorge Vieira com o das esculturas. Todo o seu trabalho foi no sentido de manter as obras escultóricas anteriores do francês Calmels e do projecto arquitectónico de Domingos Parente da Silva 11.

No que diz respeito a todo o significado da fachada do Município, um primeiro factor imediato prende-se obviamente com o sentido histórico da própria cidade de Lisboa, tal como com o próprio património histórico nacional. Contudo, não podemos esquecer que toda a arquitectura foi feita e recuperada com a finalidade de preservar o sentido da Lisboa reconstruída pós-1755, expressando assim o espírito do século XVIII. No entanto, esse século na História de Portugal também se caracterizou pelo espírito do Hermetismo, que se prolongou pela centúria seguinte e chegou às primeiras décadas do século XX. Com efeito, quando analisamos a Baixa Pombalina denotam-se em inúmeros elementos desta a presença do Hermetismo, sobretudo nos vectores da Cabala, Astrologia e Alquimia. A fachada do Município de Lisboa, segundo a minha interpretação, também não escapou a essa influência. Analisemos os factos.

De uma perspectiva mais imediata (até para os mais descrentes nestas matérias), a visão da fachada do Município pode ser vista como simples composição mitológica pretendendo outorgar determinados valores à Autarquia de Lisboa. Ao centro, as Armas da cidade acompanhadas, dos lados esquerdo e direito, das figuras alegóricas da Liberdade e do Amor à Pátria, respectivamente. As restantes figuras, expressam a Ciência, a Navegação, o Comércio, a Indústria e as Belas-Artes 12. No entanto, nesta análise horizontal e superficial vêm a ser discriminados elementos peculiares que alteram e bastante a análise superficial que se faça desta fachada. Há nela um abacus ou “bastão pastoral”, antigamente encimado pela Cruz dos Templários, do lado esquerdo, e do lado direito a figura de Hermes (o Mensageiro dos Deuses), acompanhado de três livros fechados e um pote, este também fechado e guardado por duas figuras míticas com uma inscrição particular: “ESCRUTÍNIO”. Façamos, então, a análise.

Iniciando no lado esquerdo da fachada superior, sobe a insígnia “DEUS e PÁTRIA” podemos verificar, através do símbolo da Cruz Templária como foi referida, a representação da Formação de Portugal; a construção da Identidade de Portugal através da alegoria do cavalo com a figura clássica em cima, e, por fim, a Expansão de Portugal como Império com a Esfera Armilar e o símbolo da Ordem de Cristo acompanhados de instrumentos de Náutica e parte do corpo de uma figura marinha (possivelmente um xarroco). A Formação do País e de Lisboa, pois, em grande parte foi graças à intervenção Templária como parte crucial na criação da sua Identidade, devido à derrota e expulsão dos mouros, e os que ficaram foram reduzidos às fronteiras das moiramas ou mourarias, espécies de guetos dentro das cidades, inclusive em Lisboa, e a Expansão deveu-se sobretudo à Navegação. Digamos que, deste lado da fachada, temos a História que caracterizou Portugal como País e Potência no Mundo, no fundo, a História conhecida dos Portugueses, a História Exotérica.

Do lado direito da fachada, temos o Portugal Esotérico, Oculto, Hermético retratado principalmente pela figura mitológica grega de Hermes com o seu caduceu (não deixa de ser interessante este símbolo repetir-se inúmeras vezes ao longo de toda a Lisboa…), acompanhado de três livros fechados (conhecimento esotérico), induzindo-nos ser a figura mítica de Hermes Trimesgisto, o “Três Vezes Grande”. Além disso, ele apresenta-se unido à deusa Atenas com o malho ou martelo (figurando o Trabalho ou Indústria), cruzando-se assim o Trabalho com o Hermetismo, ou seja, o Trabalho Hermético na prossecução daquele que os primitivos Monges Construtores realizavam na construção canónica dos templos medievais como verdadeiras operações alquímicas 13 e que mais tarde, perdendo-se o conhecimento operático, verteu-se no objectivo psicossocial da Maçonaria Especulativa: a lapidação da pedra bruta (Personalidade) em pedra cúbica pontiaguda (Individualidade). O mesmo para os Alquimistas, no seu trabalho exterior (matéria, metais) em conjunto e sincronismo com o trabalho interior (espiritual), com o supremo objectivo de obterem a Pedra Filosofal, derivada da verdadeira transmutação da matéria bruta ou imperfeita (corpo físico, consciência profana) em ouro espiritual (corpo iluminado, consciência iniciática), no fundo, sendo a transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, o que se congrega harmoniosamente com a regra beneditina: Ora et Labora.

Temos ainda as figuras mitológicas que dizem respeito à Agricultura e às Belas-Artes, que acabam por completar todo o trabalho hermético a que se propôs o verdadeiro Adepto, reflectindo-se numa verdadeira Agricultura Hermética 14 da qual o indivíduo realiza a colheita dos frutos que plantou, expressando-a pela cultura artística das Belas-Artes. Neste aspecto, nunca é demais referir o Pensamento Hermético que caracterizou um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, Fernando Pessoa.

O pote fechado guardado por duas figuras mitológicas com a palavra “ESCRUTÍNIO” inscrita nele, também se enquadra na feição esotérica desta fachada, pois retrata exactamente o labor necessário para aceder ao lado oculto do Conhecimento, ou seja, através de um escrutínio de eleição da Consciência Espiritual (exame feito criteriosamente e sem falsidades perante si mesma pela Consciência Humana).

Todo esse dualismo (exotérico e esotérico, desvelado e velado) é comprovado simbolicamente pelas duas figuras clássicas (já referidas como o Amor à Pátria e a Liberdade) junto ao Brasão da cidade, acabando por constituir, através da figura masculina desnuda, a História exotérica ou desvelada de Portugal e de Lisboa, enquanto a feminina, vestida ou coberta, expressa a História esotérica ou velada do País e desta sua Capital.

Dessa forma esses dois princípios opostos caracterizam perfeitamente o espírito e a tradição da Alquimia, ou seja, uma parte desvelada, histórica, e outra parte velada, operativa, juntas caracterizando o Corpus Hermeticum de Lisboa. Essas duas figuras clássicas, masculina e feminina, igualmente representam, à luz da prática alquímica, os princípios antagónicos, opostos ou contrários onde o Homem representa o Enxofre, o Princípio Activo, Fixo, Masculino, Solar, e a Mulher o Mercúrio, o Princípio Passivo, Volátil, Feminino e Lunar.

6.

Com tudo isso, perspectivo esta fachada da Autarquia de Lisboa como resumo de tudo aquilo que caracteriza a Lisboa esotérica, construída pós-terramoto 1755 pelo conjunto de mentes iluminadas na Geometria e Arquitectura cabalísticas que o Marquês de Pombal reuniu para este seu projecto já chamado Lisboa Pombalina. A cidade foi reconstruída sob o modelo do mundus, assim se estabelecendo a Lisboa quadrada tendo por centro ou omphalo o Rossio, onde está a estátua de D. Pedro IV, imperador da Nova Lusitânia, o Brasil, e que é o ponto de partida de expansão da cidade nas 4 direcções (assinaladas pelas estátuas da Prudência, Temperança, Força e Justiça na base do mesmo padrão monumental de D. Pedro IV que está no topo).

No entanto, Lisboa também foi reconstruída com a intenção velada, já vinda de D. João V, o Rei-Sol que recebeu o titulo de Fidelíssimo pelo seu contributo na fundação do Patriarcado de Lisboa mas que mais tarde lhe foi retirado, de tornar esta cidade o centro axial da Nova Jerusalém Terrestre erguida sobre dois Pólos ou duas Dioceses, uma Ocidental e outra Oriental (esta segunda subordinada à primeira, assim a projectando num Novo Ciclo, o do EX OCCIDENS LUX!), triangulando com a cúspide assinalada no Convento de Mafra, o Templo Lusitano vocacionado ao Tempo do V Império, assim mesmo expressando a Jerusalém Celeste.

Após o terramoto de 1755, a equipa de arquitectos liderada pelo húngaro Carlos Mardel estabeleceu a arquitectura de Lisboa nas linhas arquitectónicas da antiga Roma (que no período cristão tentou igualar-se à antiga Jerusalém), estabelecendo não 12 portas como esta tem e sim 12 bairros, e sacralizada por 7 colinas semelhantes às que Jerusalém apresenta. O Rossio é, pois, o ponto de partida da expansão pombalina e missão parúsica a que a cidade se propõe, com o seu centro ilustrado com a supradita estátua-padrão preenchida pelas 5 estátuas que também são, simbolicamente falando, figurações dos 4+1 Elementos subtis da Natureza [(Terra, Água, Fogo, Ar)+ÉTER] 15.

Quando olhamos para as 3 estrelas que se encontram acima das três cabeças (figurativas de Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande”), o resultado é imediato à presença do Hermetismo na cartografia de Lisboa, partindo do cálculo matemático da multiplicação de oito por três resultar vinte e quatro. Na perspectiva imediata, essa soma normal obviamente nada de transcendente indicará ao leitor comum, contudo, indica tudo que constituiu a coluna dorsal da Lisboa Sagrada, justificando o seu Corpus Hermeticum da seguinte forma:

7 Colinas + 12 Bairros + 5 Elementos = 24.

A lenda e o mito desta cidade ganham vida ao expressarem Lisboa como a “Terra da Deusa-Serpente”, Ofiússa, que Ulisses aqui encontrara e se apaixonara quando desembarcou aqui, ficando o povoado com o seu nome para sempre: Olisipo, Ulyssipona, Ulissebona, Lixbona, Lisabona, Lisboa. Também a decomposição de Lisboa em Lis+Boa ou Boa Lis, leva à interpretação esotérica da Flor-de-Lis como símbolo da Boa Lei, da Lei Suprema ou Pensamento Divino como Consciência Universal, plenamente desperta no Iniciado humano como parte integrante da Realeza Divina, pelo que essa flor símbolo da cidade está correlacionada ao significado da própria serpente: Iniciação e Conhecimento, os únicos elementos capazes de concorrer para a verdadeira Iluminação Interior do individuo ou indivíduos, que assim e aqui passam a constituir a expressão fidedigna da Consciência Universal em Lisboa, Capital do Quinto Império 16.

A visão micro-macrocósmica de Lisboa-Individuo está estabelecida nisso, e tal como o indivíduo apresenta na sua anatomia 24 vértebras expressas numa forma serpenteada (duas cifoses e duas lordoses), também a própria serpente ou “Deusa-Serpente” Ofiússa (simbólica de Kundalini, a Energia Serpentina provinda do Seio da Terra, do “Laboratório do Espírito Santo” ou Shamballah) é corpo, ou melhor, coluna de Lisboa caracterizada pelo número 24, estabelecendo-se a seguinte correspondência:

8.

Finalmente, tal como o centro ou omphalo onde a cidade se inicia e expande é definido por 5 estátuas, também a coluna vertical humana tem por base as 5 vértebras da zona lombar (L1 a L5), onde se inicia a ascensão da “Serpente” Kundalini ao longo de toda a coluna passando pelas 12 vértebras dorsais (12 bairros) e 7 vértebras cervicais (7 colinas) chegando finalmente ao cérebro, Iluminando-o, conferindo-lhe a Consciência Universal (Flor-de-Lis) que caracteriza a própria Lis Boa (Lisboa). É todo este trabalho que está esotericamente expresso nas Ruas da Baixa Pombalina, nomeadamente as Ruas do Ouro e da Prata tendo entre elas a Rua Augusta, compondo assim o símbolo do caduceu, estabelecendo-se a árvore gnoseológica da Baixa Pombalina da seguinte maneira 17:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central, SUSHUMNA, da Energia Vital ou PRANA. Sistema nervoso cérebro-espinhal, neutro ou andrógino). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito, PINGALA, da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo, IDA, da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão do sistema nervoso simpático, activo, a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto que reveste PINGALA, VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens comuns). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão do sistema nervoso vegetativo, passivo, a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto que reveste IDA, CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JIVATMÃS (Homens Perfeitos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Posto assim, depreende-se que realmente o espírito que assiste a toda a fachada do Município, tal como ao pelourinho na praça defronte, reflecte a Tradição Hermética que sempre existiu desde a mais tenra idade de Portugal e desta sua capital, e a qual se manifestou com grande intensidade nos séculos XVI, XVII e finalmente XVIII, aquando a edificação da Nova Lisboa teve lugar após o terramoto de 1755. Poderemos afirmar que todo este espaço acaba por caracterizar em síntese tudo aquilo que Lisboa representa, uma Lisboa conhecida e exotérica, e também uma Lisboa desconhecida e esotérica, iniciática reservada apenas a alguns.

Será a partir deste ponto que toda a Lisboa, desde o Terreiro do Paço até à Rotunda do Marquês de Pombal, se expressa como uma verdadeira Cidade Hermética com os seus segredos e mistérios dispostos estrategicamente nos mais diversos locais, geralmente passando desapercebidos ao lisboeta comum que percorre todo o seu corpo de uma forma dessacralizada e stressada. Cabe a cada um de nós percorrer com outra consciência, emoção e atitude, a capital que é não só centro do desenvolvimento económico e social do País, mas também e sobretudo centro singular e plural do desenvolvimento espiritual interior do indivíduo, do verdadeiro Filho de Lis Boa, sim, do Adepto da Boa Lis como Partícula Viva da Consciência Universal.

 

NOTAS

 

1) Teixeira Félix da Costa, Os pelourinhos: estudo histórico. Elvas, 1926.

2) Luís Chaves, Pelourinhos do ultramar português. Lisboa, Ag. Geral das Colónias, 1948.

3) Luís Chaves, Os pelourinhos portugueses. Gaia, Apolino, 1930.

4) Nuno Catarino Cardoso, Pelourinhos demolidos. Lisboa, N.C.C., 1935.

5) Robert Batty, Lisboa – a Praça do Pelourinho. Visual gráfico, S.1., s.n., 1963.

6) Ian Shaw e Robert Jameson, A Dictionary of Archaeology. Blackwell Publishers, 2002.

7) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

oito) J. E. Cirlot, A Dictionary of Symbols. Routledge, London, 2001.

9) Maria Oliveira, Morgado Ferrão de Leonor, Eugénio dos Santos e Carvalho: arquitecto e engenheiro militar, 1711-1760: cultura e prática de arquitectura. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, inst. acad. Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

10) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

11) Dados obtidos no site do Município: http://www.cm-lisboa.pt

12) Laborde Ferreira e V. M. Lopes Vieira. Estatuária de Lisboa, pág. 224. Ed. Língua Portuguesa, 1985.

13) Fulcanelli, Le Mystère des Cathedrales. Ed. Jean-Jacques Pauvert, Paris, 1964.

14) Vitor Manuel Adrião, Portugal Templário. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

15) Vitor Manuel Adrião, Lisboa Secreta. Via Occidentalis Editora Ltda, Lisboa, 2007.

16) Vitor Manuel Adrião, ob. cit.

17) Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita (no prelo). Edições Jonglez, Paris.

 

Créditos fotográficos: Autor e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

 

 

 

A Catedral do Graal Olisiponense – Paulo Andrade Quarta-feira, Set 9 2009 

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  A Sé Catedral de Santa Maria Maior, vulgo Sé Patriarcal de Lisboa

 

Construção paradigmática no contexto da evolução da arquitectura religiosa em Lisboa, a SÉ CATEDRAL DE LISBOA ou IGREJA DE SANTA MARIA MAIOR é uma fonte inesgotável de informações nos campos da Arte Arquitectónica e Pictórica e da Simbologia Esotérica, encerrando ao longo da sua longa existência várias lendas e mistérios. Neste trabalho tentaremos duma forma concisa e bem fundamentada tanto ao nível histórico, arquitectónico e artístico como também e sobretudo ao nível esotérico, baseados nas premissas que consideramos correctas deixadas por um dos Grandes Mestres do nosso tempo, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, e por um dos mais insignes representantes da OBRA DO ETERNO NA FACE DA TERRA alicerçada em Portugal pela COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA, esclarecer alguns desses mistérios que ao longo dos tempos vem ocupando o imaginário de Lisboa, nomeadamente o da passagem do SANTO GRAAL por esta Catedral.

A SÉ DE LISBOA está associada, desde o lançamento das suas primeiras fundações, a um vasto complexo histórico e cultural cuja evolução transparece nas suas componentes arquitectónicas, artísticas e vivenciais, ao que decerto não será alheio o facto de se tratar da Igreja Mãe da cidade de Lisboa, eixo fundamental no desenrolar do processo histórico da mesma e até de Portugal ou PORTO DO GRAAL.

Vitima de sucessivos cataclismos naturais, a SÉ DE LISBOA foi sendo objecto constante de reconstruções, enxertos, restauros e adaptações que enriqueceram e complexaram a sua história. A sua origem ainda está por resolver nos nossos dias, havendo uma única fonte do século XII, Osberno, que refere neste local estar implantada uma mesquita de cinco naves, sobre a qual D. AFONSO HENRIQUES mandaria erigir pouco antes de 1150 um templo cristão que viria a ser a SÉ DE LISBOA, portanto, coeva da conquista da cidade aos mouros em 1147. Apesar de serem poucas as provas sobre a antiguidade ante-árabe deste templo, mesmo assim regista-se o aparecimento de elementos do período visigóticos do período paleo-cristão, como por exemplo uma lápide engastada no flanco exterior norte da SÉ, esculpida com animais, concheados e tímpanos entre colunas espiraladas, o que pode levantar a hipótese da existência de um templo pré-românico anterior à dominação árabe. De facto, a SÉ parece erguer-se no lugar que foi o fórum romano da cidade de Olissipo. A plataforma a meia encosta, a proximidade do teatro romano imediatamente acima na vertente de Santiago, e a existência da antiga Porta de Ferro a poente na base da encosta, sensivelmente perto da igreja da Madalena no enfiamento da Rua da Sé, porta que provavelmente reaproveitou um arco triunfal de entrada no recinto cívico e sagrado do orbe latinizado, eis o que leva a esta dedução.

A construção da SÉ DE LISBOA deu-se depois da conquista da cidade aos mouros ou mauritanos ibéricos por D. AFONSO HENRIQUES, sendo que o seu traçado assume uma continuidade estilística e estrutural em relação ao modelo românico que havia sido realizado na SÉ DE COIMBRA. Obra inicial de FREI ROBERTO DE LISBOA, MESTRE DOS MONGES CONSTRUTORES, segundo o mesmo cronista inglês Osberno, logo aí podemos ver a excelsitude arquitectónica da GEOMETRIA SAGRADA com que regulou este espaço, iniciado no século XII (pouco depois de 1147) seguindo o estilo românico e culminado no gótico, deixando nas pedras ancestrais o testemunho simbológico fortemente ligado à Tradição Primordial, à Ciência Iniciática dos Mistérios, no fundo, à Realização Espiritual do Ser humano não só em aparência mas, sobretudo, em essência.

Todo o lugar onde se reúnem pessoas em busca de algo Divino que transcende o espaço físico, é considerado espaço sagrado. Mas é também através do espaço físico que nos conectamos com a Divindade, na beleza e no silêncio dos templos. Ao homem desejoso de habitar a “Morada dos Deuses” é revelado um espaço pluridimensional. No espaço consagrado a vida da visão clássica ou mundana logo se extingue, dando ao Sagrado, ao Templo do Divino, à Caverna dos Mistérios, ao insondável e misterioso, enfim, ao espaço primevo além daquilo que se pode ver e tocar. A SÉ CATEDRAL DE LISBOA, assim como a maioria das catedrais góticas, foi construída de maneira a que o espectador dirija seu olhar para o alto, na busca do “muito mais alto” espaço que converge para o alvo principal através dos arcos, considerados “caminhos para Deus”, das abóbadas, o “contacto directo com o Criador”, e rosáceas com desenhos semelhantes às mandalas (círculos mágicos do Tempo). No fundo, é a GEOMETRIA DIVINA manifestada na GEOMETRIA FÍSICA do Espaço concepcionada GEOMETRIA SAGRADA.

Passaremos agora à descrição deste espaço sagrado em sua nomenclatura e simbologia, tentando fazê-lo não através da letra que mata, mas através do espírito que vivifica, parafraseando o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA.

 

A IGREJA

 

A fachada principal da SÉ DE LISBOA é constituída por um corpo central flanqueado por duas torres amuralhadas de secção quadrada e faces lisas; o corpo central ostenta uma rosácea ornamentada por belo vitral executado na Fábrica Ricardo Leone. Esta rosácea dá exteriormente para o terraço sob o qual abre-se o arco de ingresso ao portal românico, constituído por 4 arquivoltas incidindo em 8 capitéis de decoração antropomórfica, animal e vegetal. Presentes os números 4 (o Quaternário da Matéria ou a própria MATER RHEA, a MÃE TERRA em cujo seio materno vivem os Seres Realizados espiritualmente) e 8 (o Número Crístico, a Oitava Coisa, a essência e síntese do 7 como, por exemplo, a oitava maior das 7 notas musicais, para todos os efeitos, expressando o Infinito (∞), a Eternidade e igualmente ao SOL CENTRAL OCULTO); 4 mais 8 são 12, aqui, neste Espaço Cristóforo, 12 GOROS, 12 Cavaleiros, 12 Apóstolos, 12 Signos como obra de causalidade e não de casualidade, assunto que desenvolveremos mais à frente.

Voltando à descrição que estávamos fazendo, no pórtico de entrada destaca-se o capitel com a figura alada do Arcanjo SÃO MIGUEL empunhando a sua espada flamejante com que derrota aos pés o DRAGÃO da heresia, havendo ao lado outro capitel com três figuras em relevo, possivelmente os 3 MÁRTIRES DE LISBOA martirizados no sítio da antiga praia de Santos, VERÍSSIMO, MÁXIMA E RUFINA, cujo culto foi iniciado pela filha de D. Afonso Henriques. Outro capitel apresenta a luta entre dois cavaleiros, um montando um LEÃO e outro montando um TOURO, representando a luta moral e teológica entre cristãos (o cavaleiro barbado e o LEÃO associado à LUZ, ao SOL, a CRISTO…) e mouros (o cavaleiro e o TOURO entendido como um resquício pagão de carácter LUNAR). Podemos também entender esta luta como a expressão dum ciclo cósmico do SOL e da LUA expressando a essência da Vida, ou o OURO e a PRATA, comunhão dos opostos que se complementam qual Andrógino alquímico, REI e RAINHA eternamente unidos… O traçado do templo, primitivamente em cruz latina, apresenta 3 naves de 6 tramos, sendo a nave central mais elevada com abóbada de berço, e as naves laterais cobertas com abóbadas de aresta. O pavimento da igreja é de pedra apresentando lajes sepulcrais ao longo das naves.

São Miguel derrotando o Dragão São Miguel derrotando o Dragão
Os dois cavaleiros num dos capitéis Os dois cavaleiros num dos capitéis

 Quem entra no templo tem do lado lado esquerdo, engastada no muro da torre norte, a capela baptismal, possivelmente franciscana, onde é dito que SANTO ANTÓNIO DE LISBOA foi baptizado em 1195. A capela está decorada com azulejos representando o próprio SANTO ANTÓNIO Na pregação aos peixes, isto é, aos cátaros do Languedoc. A meio do transepto, no cruzeiro, eleva-se uma cúpula octogonal em abóbada de cantaria com 8 nervuras e um florão central. A capela-mor é construção posterior a 1755, sendo que os túmulos de D. AFONSO IV e D. BEATRIZ, o altar-mor e os órgãos são igualmente da época da reconstrução pós-terramoto de 1755. O retábulo apresentando-se no topo do altar-mor representa a ASSUNÇÃO, da autoria de José Inácio Sampaio, equivalendo à ASCENSÃO, à Sexta Iniciação Planetária como SWAN, SOHAN ou CHOAN, o Senhor dirigente de um dos 7 RAIOS do PRAMANTHA.

Santo António pregando aos peixes Santo António pregando aos peixes

 

CAPELA DE SÃO BARTOLOMEU

 

Com a porta de acesso no primeiro tramo da nave lateral Norte e ocupando a extensão de dois tramos do corpo da igreja, encontra-se a capela de SÃO BARTOLOMEU, edificada na primeira metade de século XIV, cuja estrutura é declaradamente de estilo gótico. A evocação de SÃO BARTOLOMEU explica-se devido ao nome do seu fundador BARTOLOMEU DE JOANES, rico mercador de Lisboa, contemporâneo do rei D. DINIS, o qual lhe concedeu o espaço para implantação desta capela onde ficariam os seus restos mortais. O túmulo do fundador com estátua jacente, encontra-se à entrada da capela, sendo formado por uma arca de pedra em cujos topos e face lateral se revela o brasão de BARTOLOMEU DE JOANES composto por uma banda de 5 VIEIRAS – sendo que a vieira sempre surgiu associada ao PEREGRINO DA VIDA e, em particular, à Rota Jacobeia dos devotos de SÃO TIAGO peregrinando até à sua CATEDRAL DE SANTIAGO DE COMPOSTELA – e 6 FLORES-DE-LIS, 3 de cada lado da banda. Sobre a FLOR-DE-LIS e todo o seu simbolismo associado, faremos um estudo detalhado mais à frente neste trabalho. A estátua jacente é vestida por duas túnicas, espada colocada lateralmente, constituindo obra notável da escultura funerária medieval. Sobre a banqueta gótica do altar agrupam-se 8 quadros que constituem o políptico quinhentista consagrado a SÃO BARTOLOMEU, representando o seu martírio. Outro elemento notável é o presépio barroco, autoria de MACHADO DE CASTRO, que apresenta admiráveis pormenores na composição das figuras e no seu movimento no quadro da natividade.

 

CAMARIM DO PATRIARCA

 

Com entrada a partir do braço norte do transepto encontra-se o camarim do Patriarca, construção dos finais do século XVII, cujo principal interesse reside na constituição do seu altar ornamentado por belíssima talha dourada da época barroca, assente sobre um rico painel de mármores florentinos em diversas tonalidades, exemplar único no conjunto da SÉ.

 

SACRISTIA E CASA DO CAPÍTULO

 

O edifício anexado à fachada sul é constituído pela sacristia no andar inferior construído no século XVII e pela Casa do Capítulo no andar superior, edificada posteriormente durante o reinado de D. JOÃO V. A sacristia ocupa uma extensa sala cuja entrada encontra-se no último tramo da nave lateral sul, sendo de mármore de várias tonalidades. Do lado sul, entre as 4 janelas existentes, podem-se observar 3 nichos que abrigam as estátuas em madeira pintada de branco de SANTA ISABEL, SANTO ANTÓNIO e SÃO DÂMASO. Do lado fronteiro também existem 3 nichos com as imagens de SANTA ENGRÁCIA, SÃO JOÃO DE DEUS e SÃO VERÍSSIMO. No andar superior está situada a Casa do Capítulo, de concepção joanina, constituída de três salas que hoje comportam diversos objectos relacionados com o culto, como peças litúrgicas, relicários e paramentaria e que no seu conjunto constitui o TESOURO DA SÉ, cujo valor histórico e artístico é inestimável.

 

CHAROLA

 

Circundando o altar-mor e com entrada a partir dos braços orientais do transepto, está o deambulatório estreito e elevado que dá acesso a 10 capelas estrategicamente colocadas, expressando as 10 SEFIROTES do Universo Divino na representação da ÁRVORE DA VIDA cabalística (SÃO VICENTE, SÃO SEBASTIÃO, NOSSA SENHORA da PIEDADE, SÃO COSME E SÃO DAMIÃO, NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO ou de SANTO ILDEFONSO, SANTA MARIA MAIOR, SANTA ANA, NOSSA SENHORA DA PENHA DE FRANÇA e SANTISSIMA TRINDADE, havendo ainda a décima (ou a primeira, como KETHER ou “Coroa” de todas outras 9 SEFIROTES): a do SANTÍSSIMO SACRAMENTO, setecentista onde se admira belíssimas imagens, um magnifico candelabro e uma pintura de Pedro Alexandrino da “Última Ceia”). Este conjunto autónomo que forma a charola foi edificado dentro do estilo gótico durante o reinado de AFONSO IV. Merecem especial atenção as áreas tumulares de LOPO FERNANDES PACHECO e sua mulher, D. MARIA VILALOBOS (na capela de SÃO COSME e SÃO DAMIÃO), bem como a pequena arca tumular de uma infanta (na capela de SANTA ANA). À semelhança do túmulo de BARTOLOMEU DE JOANES, tratam-se de exemplos do que existe de mais emblemático na escultura trecentista portuguesa. De referir que a representação patente nesta charola de SANTA MARIA MAIOR, o Orago da SÉ, a Rainha dos Anjos ou a Nossa Senhora da Pombinha, qual Pomba do ESPÍRITO SANTO, é uma réplica, pois a original desapareceu com o terramoto de 1755.

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 Santa Maria Maior, Orago da Sé Catedral de Lisboa, numa das capelas da charola

 

CLAUSTRO

 

Com acesso a partir de entre duas capelas da charola, o claustro da SÉ, vítima de diversas mutilações ao longo dos séculos, possui várias capelas circundantes (SANTO ESTEVÃO, SÃO GERVÁSIO, NOSSA SENHORA DA PIEDADE DA TERRA SOLTA ou ANTIGA IRMANDADE DA MISERICÓRDIA, SÃO MIGUEL E ALMAS, SANTO ALEIXO, NOSSA SENHORA DA TOCHA, SANTO ANTÓNIO DE PÁDUA, SENHOR JESUS DA BOA SENTENÇA, NOSSA SENHORA DE BELÉM, SÃO LOURENÇO e SÃO JOÃO EVANGELISTA). Iniciada a sua construção no reinado de D. DINIS, no despontar do século dos claustros góticos, na zona oriental é de destacar a primitiva CAPELA DA MISERICÓRDIA, onde se encontram alguns monumentos tumulares destacando-se, no centro da referida capela, os túmulos com estátua jacente de D. MARGARIDA ALBERNAZ e de um bispo, que não se sabe ser D. SOEIRO VIEGAS. Igualmente noutras arcas e tampas tumulares se poderão detectar alguns pormenores de interesse artístico, como a figura gótica gravada na lápide tumular de MARTIM VICENTE. Todo o conjunto do claustro caracteriza-se pela abundância e qualidade de vestígios arquitectónicos e escultóricos, desde elementos do período paleo-cristão às esculturas de Teixeira Lopes (uma Pietá e uma NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO).

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Nossa Senhora da Assunção na capela da Misericórdia

A epigrafia também tem aqui o seu lugar de destaque, aguardando no local a honra devida ao trabalho incansável de Cordeiro de Sousa. Resta ainda referir a belíssima grade de ferro forjado, exemplo único do período de transição do romano-gótico com alusões ao Calvário, podendo observar-se do lado esquerdo um SOL, símbolo da Iluminação Espiritual obtida através da união alquímica do Homem e da Mulher, bem representados abaixo por uma LANÇA, símbolo masculino, e por uma TAÇA, símbolo feminino. Do lado direito da grade pode observar-se um DELTA TEÚRGICO, representação das várias Trindades das diversas Teogonias, em particular da cristã, como PAI, MÃE e FILHO, assim mesmo sendo as 3 HIPÓSTASES do LOGOS ÚNICO CRIADOR, ou seja, o DIVINO THEOTRIM, a Trindade Suprema de onde tudo advém do Céu à Terra, Triângulo Resplandecente tendo no centro o OLHO QUE TUDO VÊ, expressivo de DEUS UNO-TRINO. Para chegar a Ele, tem-se abaixo a SCALAE COELI, a Escada do Céu, marcando a assunção à Divindade, a esse mesmo Céu, após vencer o Calvário terreno dotado de inteira certeza interior como autêntica Coluna de Fé.

Sol, lança e taça Sol, lança e taça
Escada do Céu e Coluna da Fé Escada do Céu e Coluna da Fé

Mais adiante, num capitel, pode ver-se DUAS AVES BEBENDO DE UMA TAÇA, figuração evidente do SANTO GRAAL, da Taça Sagrada de quem as aves, simbólicas dos Anjos, são mensageiras do Verbo Divino que a mesma encerra como SONIDO ETERNO, assim reflectindo a FALA DOS PÁSSAROS ou ANJOS, a mesma VOZ DE SENZAR, FILIA VOCIS ou CÂNTICO DO SILÊNCIO porque BÚDHICA, ao mesmo tempo alimentando-se do SANGUE REAL de todos os MESSIAS ou AVATARAS que desde a Raça da ATLÂNTIDA vêm compassiva e ciclicamente em auxílio da Humanidade impúbere, SANGUE REAL esse contido no SANTO GRAAL, o Saint Vaisel, de que bebem os Príncipes ou Principais de Linhagem Eleita ou a Elite da Divindade à dianteira dos destinos humanos, auxiliando na sua evolução.

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As duas Aves bebendo da Taça ou Graal

Também neste claustro pode observar-se uma coluna gótica onde várias figuras esculpidas ascendem em espiral da base até ao topo, representando a assunção das almas da Terra ao Céu, correndo sempre o perigo de se perderem no Inferno ou estagnarem no Purgatório, ainda que o seu destino último seja a assunção ao Paraíso, onde moram as Almas Superadas, ilustração sugerindo claramente ter-se inspirado na Divina Comédia de Dante.

Coluna das Almas Coluna das Almas

Podem ainda ser observados vários PENTALFAS, alguns deles formados pela configuração de 5 corações entrelaçados, simbolizando que é a partir do Coração, logo, da devoção iluminada, aliado ao Quinto Princípio, o Mental Superior, que se poderá chegar à Realização verdadeira do Homem Integral, do Homem em Perfeito Equilíbrio, o JIVATMÃ. Igualmente podem observar-se HEXALFAS, PEDRAS TUMULARES TEMPLÁRIAS, ANJOS e AVES FANTÀSTICAS do bestiário alquímico.

Pentalfa formado por 5 corações Pentalfa formado por 5 corações

As escavações arqueológicas no jardim do claustro, iniciadas em 1990, puseram a descoberto uma série de estruturas de diferentes épocas enquadráveis entre o século VI a. C. e o século XIV d. C., comprovada pela existência dum aterro onde se encontrou grande quantidade de cerâmica de influência oriental, nomeadamente fenícia. A ocupação romana remonta ao século I d.C. e está demonstrada pela construção de uma calçada e de um esgoto para onde convergiam as canalizações das lojas que ladeavam a via de acesso ao Teatro. Os testemunhos muçulmanos correspondem à cerâmica de uso doméstico encontrada no jardim.

Na SÉ encontram-se desde o século XII os despojos do mártir SÃO VICENTE, padroeiro mor de Lisboa, que numa BARCA ou ARCA foram transportados desde o Promontório Sacro ou de SAGRES, acompanhados de 2 CORVOS como fiéis e atentos guardiães, até esta SÉ CATEDRAL, dizendo as lendas que os descendentes dos 2 corvos originais viviam nos claustros da Catedral, sendo que até há uns tempos atrás era possível observar o esvoaçar dum desses corvos dentro da SÉ CATEDRAL de Lisboa, que surge assim como um complemento essencial da Geografia Sagrada Portuguesa que engloba o Cabo de São Vicente e o Promontório de Sagres, donde provêm as relíquias vicentinas, funcionando como Axis Mundi e um dos meridianos gnoseológicos portugueses.

As Armas da cidade registam o transporte pelas águas daquele santo mártir viajando numa BARCA ou ARCA, expressiva da mesma AGHARTA, protegido por 2 CORVOS, como foi referido anteriormente, sendo o próprio corvo considerado ave oracular desde a Proto-História. Os corvos, simbolicamente, são as aves detentoras da Sabedoria Divina que auguram o Passado e o Futuro, como esses do deus nórdico Odin, os corvos Ugim e Tumim, a Memória e o Espírito, pousados em seus ombros grasnando-lhe segredos aos ouvidos sobre o ido e o porvir. O corvo negro é também associado à dissolução ou nigredo, uma das fases da Obra Alquímica.

Os corvos na barca guardando os despojos de São Vicente Os corvos na barca guardando os despojos de São Vicente

A odisseia dos pressupostos despojos do mártir SÃO VICENTE de Sagres a Lisboa, até a SÉ CATEDRAL, não deixa de se ligar ao Itinerário do SANTO GRAAL, ao mistério da sua marcha pelos Postos ou Centros Representativos dos SISTEMAS GEOGRÁFICOS do Mundo, consubstanciado nessa mesma Jóia rara que é a Taça Sagrada emblemática do Corpo de ESPÍRITO SANTO, expressivo do MENTAL SUPERIOR correlacionado ao Mistério da Renovação da Aliança ou União da Humanidade com a Divindade, cujo fito último é o da transformação da Vida-Energia em Vida-Consciência, do JIVA em JIVATMÃ, consequentemente, a ver com o Mistério da Ressurreição Espiritual depois da Redenção Humana.

Após a Tragédia do Gólgota e o fracasso da tentativa em fazer de Roma o Centro do Quinto Império ou 5.º Sistema de Evolução Universal, a Taça do SANTO GRAAL foi recolhida ao Oriente onde peregrinou por 7 Templos, de certa forma assinaladas nas 7 Igrejas do Apocalipse de São João. No ano 985 da nossa Era, aconteceu no Tibete a queda espiritual e humana dos (discípulos dos) BHANTE-JAULS ou Mestres Perfeitos no materialismo mais insano, perdendo a consciência da sua Divindade e estatuto Iniciático, eles que tinham a custódia da Santa Taça. Assim, ela foi daí retirada e levada para o Médio e Extremo Ocidente, circulando através dum roteiro iniciático previamente demarcado por 7 Igrejas do Ocidente. Uma dessas Catedrais Graalísticas foi exactamente a SÉ CATEDRAL DE LISBOA, o “TEMPLO DA LUZ” ou de “AS TRÊS LUZES”, precisamente a quarta dentre as sete. Na guarda da Taça Sagrada ficaram 12 GOROS ou Sacerdotes, e é curioso também ter havido 12 Apóstolos de Jesus Cristo e 12 Cavaleiros da Távola Redonda acompanhando o Rei Artur, como fiéis dignitários e guardiões da Taça Sagrada os quais, no caso da SÉ Olisiponense, eram Preclaros Membros da secretíssima ORDEM DE MARIZ, zeladora dos destinos de PORTUGAL ou PORTO-GRAAL desde as suas origens remotas. É igualmente relevante que nas cercanias da SÉ se encontre uma antiga taberna, hoje restaurante típico, com um PENTALFA na sua portaria qual ESTRELA DA SÉ, sendo precisamente aí que em tempos não muito afastados, diz-se, chegaram a reunir-se alguns MESTRES e INICIADOS da nossa História Oculta. Podemos ainda referir que sempre que a Taça Sagrada era retirada definitivamente da Catedral em que estava, para prosseguir o seu itinerário, ficava uma sua réplica ou “duplo” pela qual se mantinha a ligação vibratória à original, sendo que esta terá passado por LISBOA Y SINTRA (L.Y.S.) entre o ano 985 e os finais do século XIV, e após rumado para o Extremo Ocidente nas caravelas de Colombo e Cabral, nos séculos XV e XVI.

"Estrela da Sé", a taberna do Pentalfa “Estrela da Sé”, a taberna do Pentalfa

 

As 7 Catedrais Graalísticas do Ocidente

 

1.ª) Abadia de Westminster, “O Templo da Justiça”, Londres, Inglaterra.

2.ª) Santa Maria Maggiore, “O Templo do Anjo Paciente”, Roma, Itália.

3.ª) Catedral do Precioso Sangue, “O Templo da Ressurreição”, Bruges, Bélgica.

4.ª) Catedral de Santa Maria Maior, “O Templo da Luz”, Lisboa, Portugal.

5.ª) Catedral de Washington, “O Templo da Penitência”, Washington, E.U.A.

6.ª) Catedral do México, “O Templo Bipartido”, Cidade do México, México.

7.ª) Basílica do Salvador, “O Trono de Deus”, S. Salvador da Bahia, Brasil.

Como referimos anteriormente, ao 7 segue-se o 8, a Oitava Coisa, o SOL OCULTO, a Essência e Síntese, neste caso, como não podia deixar de ser, também existe uma oitava “Catedral”: o TEMPLO DE MAITREYA, em São Lourenço de Minas Gerais, de onde promana o EX OCCIDENS LUX, ocultando e mantendo o MISTÉRIO DO SANTO GRAAL.

A demanda e conquista do SANTO GRAAL é, pois, uma representação exterior da demanda e conquista da própria Consciência Superior do Homem, do seu Eu Interno celebrado na Eucaristia ou Eu-Crístico, o supremo estado de Consciência no qual o Homem e a Divindade se tornam UM, na razão do AT NIAT NIATAT. É na Taça Sagrada que são feitas as mais sublimes fusões alquímicas, extraindo das mesmas o “Elixir da Longa Vida” que proporciona aos que dele bebem, devidamente preparados, o sentido de Eternidade. O GRAAL é simultaneamente uma TAÇA – ligada à parte Emocional, ao sentir e intuir; um LIVRO – correlacionado ao desenvolvimento do Mental através do conhecimento e, sobretudo, da sua “quintessência”, a Sabedoria; e uma PEDRA – a parte Física, o Altar do Templo, a Montanha Sagrada. No fundo, simboliza o desenvolvimento e evolução do nosso Templo Interior através do CONHECIMENTO aliado à INTUIÇÃO, à verdadeira SABEDORIA, a SOFIA dos gnósticos.

Adentrando os mistérios desta Catedral Mater de Lisboa, fala-se igualmente duma ligação subterrânea entre a SÉ, o CASTELO DE SÂO JORGE e o CONVENTO DO CARMO, curiosamente lugares tradicionais onde a FLOR-DE-LIS faz-se presente de forma visível e invisível, a ponto de dizer-se à boca fechada que “uma maldição terrível cairá sobre o curioso que ousar afrontar os mistérios desses trilhos, pois não se entra em casa alheia sem ser convidado”. Podendo ser sibilinas estas palavras ao profano e curioso, elas decerto não o serão para o INICIADO VERDADEIRO que tenha coração para sentir, olhos para ver e ouvidos para entender.

Os Mistérios Vitriólicos da Sé de Lisboa Os Mistérios Vitriólicos da Sé de Lisboa

FLOR-DE-LIS que marca a sua presença visível num umbral da porta lateral que dá para a Rua da Sé (PORTA SANTA). A FLOR-DE-LIS é símbolo do GOVERNO OCULTO DO MUNDO, da acção da mesma AGHARTA na e para a Face da Terra, transparecendo a Consciência Universal. Também é associada à Realeza, aqui não tanto a profana mas sobretudo a Divina promanada do Seio da Terra, a de MELKI-TSEDEK, o Rei do Mundo, na expressão do Nobre Sangue Azul que mais não é que o aspecto psicofísico e transcendental da ligação ao Segundo Logos, cuja qualidade é RAJAS possuída da cor AZUL do céu característica da Alma, brilhando internamente o amarelo ouro de SATVA como Espírito Iluminado. Sendo assim, quem tem o Sangue Azul Real é só o INICIADO VERDADEIRO, na consecução da TRANSFORMAÇÃO, SUPERAÇÃO e METÁSTASE Avatárica, manifestada na ESCOLA, TEATRO E TEMPLO da Vida, sendo estas duas tríades análogas às três pétalas da FLOR-DE-LIS ou LOTUS SAGRADO DE AGHARTA, na vivencia diária do BEM, do BOM e do BELO, enfim, a verdadeira EUBIOSE. Na referida PORTA SANTA, é também possível observar um ALFA e ÔMEGA entrelaçados, qual Princípio e Fim que nunca o são, pois só o Eterno Presente existe na consciência dos VERDADEIROS INICIADOS.

A flor-de-lis no umbral da Porta Santa A flor-de-lis no umbral da Porta Santa

Outros mistérios mais recentes estão ligados à OBRA DO ETERNO NA FACE DA TERRA, como o episódio trágico do acidente de Lisboa dos Gémeos Espirituais HENRIQUE e HELENA, sucedido na tarde de 27 de Julho de 1899 no cruzamento da Rua Augusta com a Rua da Conceição, provocado pela Linha Negra mas que redundou numa contrariedade para esta por tal acidente acabar originando beneficamente um “Saque contra o Futuro” da Humanidade e a sua Salvação precoce.

Nesse acidente que vitimou HELENA “IRACY” GONÇALVES DA SILVA NEVES, o Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, logo após o desastre e na ministração dos primeiros e urgentíssimos socorros, doou o seu sangue a HELENA num dos recantos da SÉ, para onde entretanto foram levados, auxiliado pelo médico de família e amigo do BARÃO HENRIQUE ÁLVARES ANTUNES DA SILVA NEVES, Grão-Mestre da ORDEM DE MARIZ, tendo os ADEPTOS criado uma MAYA-VADA ou “ilusão óptica” de forma a esconder dos olhares mais indiscreto o que realmente se estava a passar no local. Vendo que era impossível salvar a jovem gravemente ferida, o BARÃO retirou-se com o jovem HENRIQUE para sua residência nas cercanias da SÉ, onde vivia (curioso haver uma rua com o nome RUA DO BARÃO – de Alvito, ou alvo como as NEVES… – nas traseiras da SÉ onde, por causalidade e não casualidade, está o Palacete que foi seu), e HELENA terá sido conduzida ao interior da Terra por uma embocadura oculta, invisível aos olhares profanos, dentro da SÉ CATEDRAL, em direcção a SINTRA onde muito de Excelso aconteceu mas pouco podendo ser contado neste trabalho, pois tratou-se OBRA de ADEPTOS. Ressalve-se que, apesar do acidente de Lisboa, HENRIQUE E HELENA conseguiriam cumprir a sua MISSÃO AVATÁRICA na Face da Terra em prol da Evolução da Humanidade, em especial dos MUNINDRAS, os seus discípulos devotados, entre os quais se considera o autor das linhas deste trabalho.

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Depois desta dissertação, pensamos ter demonstrado que a CATEDRAL DE SANTA MARIA MAIOR DE LISBOA não fica a dever nada em Tradição, História, Arte, Arquitectura e Esoterismo às grandes catedrais europeias como CHARTRES, NOTRE-DAME, COMPOSTELA, ROMA, etc., sendo o ex-libris do património olisiponense, pomo da devoção e encontro consigo mesmos de todos os lisboetas em particular e dos portugueses em geral, os filhos do QUINTO IMPÉRIO. Império este não mera quimera ou devaneio, mas sim a implantação da JERUSALÉM CELESTE na Face da Terra com começo em cada um de nós, os LUSITANOS, habitantes do PORTO DO GRAAL, encetando quanto antes tal demanda supra-sagrada para que possamos despertar o nosso CRISTO INTERNO, possibilitando assim o Advento de (E)MANUEL GONÇALO BUDHA, isto é, CHENRAZI AKTALAYA MAITREYA, o CRISTO UNIVERSAL, o Senhor dos 3 Mundos – o Celeste, o Terrestre e o Humano; o Redentor da Humanidade e Patrono dessa mesma JERUSALÉM CELESTE ou QUINTO IMPÉRIO DO ESPÍRITO SANTO, na consecução da SINARQUIA, modelo de governação universal em harmonia com o Todo e com todos promanado de AGHARTA. 

Podemos concluir que a SÉ CATEDRAL de Lisboa como TEMPLO DA LUZ, mais do que Catedral é PORTAL de entrada às augustas entranhas da Mãe Terra, logo de nós mesmos e onde vibra brilhante como Consciência Suprema a TAÇA do SANTO GRAAL, receptáculo sacrossanto que um e todos devemos encher com o AMOR e a SABEDORIA, tornando-nos digno dela e logo sendo unos com a ESSÊNCIA ÚNICA da CRIAÇÃO DIVINA, assim despertando a LUZ do nosso SOL INTERIOR.

Terminamos este trabalho com uma citação do Professor HENRIQUE JOSÉ DE SOUZA, que demonstra bem quanto referimos atrás:

– O Mestre mostra o Caminho, e o discípulo segue-o sozinho até encontrar novamente o Mestre mas, desta vez, dentro de si.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Monografias da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, por Vitor Manuel Adrião. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

Portugal, os Mestres e a Iniciação, por Vitor Manuel Adrião. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2008.

Conversas Makáricas – Volume I. Edição privada da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

Guia de Lisboa Insólita (no prelo), por Vitor Manuel Adrião. Edições Jonglez, Paris.

Igreja de Santa Maria Maior, Sé de Lisboa. Instituto Português do Património Cultural, Editorial Teorema, Lisboa, 1986.

As mais belas Igrejas de Portugal, por Júlio Gil e Nuno Calvet. Editorial Verbo, 1989.

Enciclopédia dos lugares mágicos de Portugal, por Paulo Pereira. Edição do Jornal “Público”, 2006.  

Dicionário ilustrado de Símbolos, por Hans Biederman. Editora Melhoramentos, 1993.

 

Créditos fotográficos: Paulo Andrade.

 

 

 

 

 

 

 

                      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

  

Cynthia Semper Fidelis! Ex Occidens Lux! – Vitor Manuel Adrião Domingo, Ago 30 2009 

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 Sintra, 22.08.2009

 

Sobe da Terra ao Céu um frémito d’esperança,

Baixa do Céu à Terra um hálito d´amor!

Guerra Junqueiro

 

Alguém perguntou ao Professor Henrique José de Souza, por volta de 1959 ou 60, sobre a Missão de Portugal e o derradeiro destino dos Portugueses, pergunta já várias vezes feita em diferentes ocasiões, e invariavelmente o rosto do Mestre abriu-se num sorriso rasgado repleto de luz, sim, luz bem visível a todos numa benéfica auréola de glória:

Tudo o que acontece em Portugal reflecte-se aqui no Brasil, na Obra, e vice-versa. Toda a nossa Obra tem a ver com Portugal, e assim a Minha pessoa. Foi até no “Salão Portugal”, em Salvador, na Bahia, que cortei os meus longos cabelos quando criança… para desgosto de minha mãe.

E disse mais, nos finais de 1962, numa carta que endereçou a antigos condiscípulos portugueses:

A Teosofia, no Brasil e em Portugal, corresponde a duas Ramas da mesma Árvore, que devem desenvolver-se em harmónico equilíbrio, como os braços de uma Balança, na qual o Fiel é a Grande Fraternidade Branca vibrando no peito do Monarca Universal, de cujo centro mesmo irradiam para os quatro direcções os Quatro Animais da Esfinge, expressão ideoplástica da Suprema Hierarquia Assúrica. Eu estou em Verdade e Espírito nessas plagas (Portugal), origem da Obra, porque aí sou exaltado com fé e amor. Eu sempre estou onde Me amam e com aqueles que crêem em Mim…

Por seu lado, D. Helena Jefferson de Souza, companheira de Missão do Professor Henrique José de Souza, assim se expressou numa carta dirigida aos condiscípulos portugueses, emitida da cidade de São Paulo em 4.12.1967:

Aí está a Serra de Sintra – ondulada pelos ventos refrescantes do Oceano Atlântico. Este mar que ladeia pelo lado do Ocidente, une-nos com laços fraternais e espirituais, pois naquele Sacrossanto Monte, a 28 de Setembro de 1800, dealbava-se a aurora de um Novo Mundo.

Naquele instante histórico, portador de melhores dias para o Mundo, Portugal despontou de Luz, chamando para si as Bênçãos do Eterno, já que no glorioso momento o Profeta da Galileia e a sua Compassiva Mãe apresentaram, a este mesmo Mundo, as preciosas Gemas enxertadas na Coroa do Buda Celestial.

Perante a História da Evolução Terrestre, perenemente o destino de Portugal fez brilhar a lâmpada da chama clara, inspirando novos desígnios na elaboração e construção do QUINTO IMPÉRIO. Tenha-se em conta o evento de 27 de Julho de 1899, na Capital lisboeta, nessa Bela ou Boa Flor-de-Lis, que na excelsa motivação ornamentava subjectivamente a Praça dos Arcos. Aquela data marcou, de forma indelével, no Ouro e na Prata dos 23 Arcos, como prova indubitável, a Grande Missão de Portugal diante do Mundo.

Na razão do sucesso, pela essência do êxito, no meio de lágrimas, surgiu a gloriosa sentença do Eterno: “No entanto desta Mulher nascerá o Meu Filho”. E realmente cumpriu-se a sagrada profecia. Não só ressurgiu o “Monarca dos Três Logos”, o Senhor Maitreya, mas com Ele os Sete Dhyanis ou Príncipes da Sua Excelsa Corte.

Trago em Minha destra o fanal do Amor Universal. Por isso já disse o Menino Deus, no Templo subterrâneo do Caijah: “Com a Sabedoria do Pai e o Amor da Mãe se firmará no Filho a Omnipotência do Eterno”.

Com esses testemunhos escritos pelos primeiríssimos e principais Actores da Peça mais que Iniciática, HENRIQUE e HELENA no papel de ULISSES e ULISSIPA, em boa verdade desde a sua primeira hora o Novo Ciclo Avatárico da Obra do Eterno na Face da Terra, com centro irradiador na figura magistral do próprio Henrique José de Souza (1883-1963), tem como Apta, Presépio, Berço ou “Casa de Deus” da sua aparição e acção este mesmo Portugal, antes, PORTO-GRAAL.

Em Julho-Agosto de 1899, na primavera dos seus 16 anos de idade os dois jovens enamorados, Henrique José de Souza e Helena “Iracy Gonçalves da Silva Neves, provindos de São Salvador da Bahia para Lisboa integrados numa Companhia Teatral Infantil, dirigida por um casal lusitano dos mais insignes, os Barões Henrique e Helena da Silva Neves, realizaram um périplo iniciático no País, desde Lisboa-Sintra a Pombal de Ansiães, em Trás-os-Montes, conduzidos pelas mãos vigorosas e protectoras dos “Maiores da Tradição” (AVARAT) que na velhinha Lusitânia mantêm viva a “chama clara” da sua Espiritualidade, agindo de forma secreta, sim, contudo sensível a tudo e a todos, matematicamente harmónica numa justa e perfeita Ordem (MARIZ).

Durante os 17 dias da sua estadia em Portugal, Henrique e Helena foram primeiro a São Lourenço dos Ansiães, junto ao Rio Tua, nas montanhas transmontanas, como se estas fossem a reprodução aqui das montanhas da Mongólia Interior do Traixu-Lama, Chefe Supremo da Grande Confraria Branca. Foram de comboio até ao Porto, donde prosseguiram até Ansiães pela linha ferroviária do Tua, inaugurada no final de 1887. Foi breve a sua estadia aí, um dia e uma noite. De regresso a Lisboa, vão a Sintra e visitam o Castelo dos Mouros, a Cruz Alta… indo até São Lourenço das Azenhas do Mar, para que o Mistério ficasse completo.

Por fim, na Lua Nova de 27 de Julho de 1899, 5.ª feira, cerca das 15 horas da tarde no cruzamento da Rua Augusta com a da Conceição, em Lisboa, a caleche que transportava os jovens Henrique e Helena, vinda do Alto de Santa Catarina para a Residência do Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, junto à Sé Patriarcal, repentinamente foi interceptada por uma quadrilha de cinco malfeitores, antes, magos negros (configurando o pentagrama invertido…), que assustou os cavalos e fez a carruagem voltar-se. Helena sucumbiu sob os rodados do carro e os cascos das bestas, mas Henrique, apesar de algumas escoriações ligeiras, sobreviveu.

Ela, de imediato foi levada pelos Adeptos presentes para um recanto da Sé Catedral próxima, onde lhe ministraram os socorros urgentes, mas como não dava sinal de vida abriram o alçapão que aí está, próximo do altar-mor, e desceram com o corpo inerte ao Seio da Terra, ao Seio de Sintra.

Ele, Henrique, só muito mais tarde soube do destino da sua bem-amada, e enquanto não embarcou, a fim de prosseguir viagem para o Oriente, foi levado, à guisa de conforto, à “Estrela da Sé”, que era a taberna do Barão, e aí pôde saborear várias especialidades: tâmaras (mandadas vir do Oriente pelo mesmo Barão, que era armador e fretador marítimo), iguarias portuguesas e provar os famosos vinhos do Porto e da Madeira… Finalmente, na tarde de 7 de Agosto de 1899 deu-se o embarque do jovem, acompanhado de distinta comitiva de Adeptos, a caminho do Cairo, Egipto, com destino certo a Srinagar, Norte da Índia.

Sobre a TRAGÉDIA DA RUA AUGUSTA ocorrida consigo, o Venerável Mestre JHS deixou escrito na sua Carta-Revelação de 25.7.1961, O estado de Consciência da Era de Maitreya, in Livro da Reconstrução do Pramantha do Ciclo de Aquarius:

(…) com Ela aconteceu em Lisboa, na Rua Augusta, ou Sushumna, com as suas duas Ruas Ida e Pingala, que são as do Ouro e da Prata ou no sentido do que foi dito, a da Prata e a do Ouro, em lateralidade. E Eu tive que dar o meu sangue pelos dois braços ou lados, Ouro e Prata, Pingala e Ida, por Ela, na Sé Patriarcal, que inscreve no seu frontispício os dois HH dos nossos nomes. E depois acabei realizando uma espécie de “Ritual Eucarístico” numa taverna bem em frente ao lugar da Rua Augusta, onde se deu o acidente. (…) Como se vê, o pivô da nossa Obra começa na Serra de Sintra (…).

A “Taberna do Barão” junto à Sé Patriarcal de Lisboa A “Taberna do Barão” junto à Sé Patriarcal de Lisboa

Quanto às razões iniciáticas para a mesma Tragédia, o Mestre discrimina-as na Carta-Revelação de 28.1.1953, Sintra e seus Mistérios (para ser lido com os Olhos do Espírito), inserta no Livro Chuva de Estrelas – A.

Tem-se, pois, a Viagem Avatárica do Adolescente das 16 Primaveras (número cabalístico do KUMARA, o “Eterno Adolescente” ou “Eterno Virgem”) com três etapas iniciáticas bem demarcadas, duas em solo Luso ou Assúrico, sim, o da “Terra dos Filhos da Luz” (Luxcitânia), para que resultasse a terceira derradeira:

LISBOA          – VIA MARTIRIAL             =  MORTE FÍSICA (TAMAS).

ANSIÃES        – VIA PURGATORIAL        =  PURIFICAÇÃO ANÍMICA (RAJAS).

SRINAGAR    – VIA INTEGRACIONAL      =  RESSURREIÇÃO ESPIRITUAL (SATVA).

Esses “Inferno, Purgatório e Céu” estão consentâneos com a formação gnoseológica da Quinta Rama da Excelsa Fraternidade Branca, como seja a Soberana ORDEM DE MARIZ, cujo desenvolvimento escatológico se fez mais sensível nos lugares seguintes do País:

NORTE – ANSIÃES – FORMAÇÃO (TAMAS) = Conde D. Henrique e a Ordem Franca de AVARAT; D. Afonso Henriques e a Ordem Lusa de MARIZ (século XII).

CENTRO – SINTRA – ORGANIZAÇÃO (RAJAS) = Ordens de AVIS e do TEMPLO, com as cores verde e vermelha de FOHAT e KUNDALINI, servindo de “Escudo Defensivos” à Ordem de MARIZ.

SUL – SAGRES – EXPANSÃO (SATVA) = Infante Henrique de Sagres e a Diáspora Marítima sob o Pendão Espiritual de MARIZ.

Motivo mais que suficiente para o saudoso Amigo Paulo Machado Albernaz, preclaro Discípulo de JHS, escrever-me (São Paulo, 2.8.2000) o seguinte:

Por esta razão a Península Ibérica tornou-se a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Naquela mesma ocasião foi fundada a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Bem mais tarde surgiria aquele príncipe de origem francesa, D. Afonso Henriques, que libertaria uma pequena parte da Península, fundando o pequeno mas glorioso Reino de Porto-Calens, hoje, Portugal. Em São Lourenço dos Anciães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores Verde e Vermelho, que mais tarde seriam usadas no pendão português até aos dias de hoje.

Essas palavras preciosas reproduzem quase textualmente aquelas outras sábias da Coluna J do Venerável Mestre JHS, António Castaño Ferreira, proferidas na cidade de São Paulo em 7.6.1952:

Tornou-se a Península Ibérica a verdadeira Iniciadora do Ocidente, portadora dos Mistérios. Foi fundada então a Ordem de Avarat (que quer dizer: “A Tradição dos Nossos Maiores”). Mais tarde (…) em São Lourenço dos Anciães, funda-se a prodigiosa Ordem de Mariz, que como sabemos usava as famosas cores Vermelho e Verde (…). Este pequeno Centro deu origem às grandes navegações e, consequentemente, às grandes descobertas. Foi então que D. Henrique fundou em Sagres a sua famosa Escola de Navegação, donde sairiam os bravos marujos que descobririam para o mundo terras até então desconhecidas. D. Henrique era o Chefe da Ordem de Mariz, que tinha por sinal secreto AVI-MAR (AVE MARIS) que pronunciava pondo a mão sobre o coração, gesto tão nosso conhecido. Preparou-se em seguida, em 1500, a descoberta da América.

Disse-me ainda Paulo Albernaz, dessa feita em carta datada 28.12.1999:

Não resta a menor dúvida que o Arcano 17 está estreitamente ligado à Nação Portuguesa, cuja extensão não deixa de ser o Brasil! “As Estrelas”guiaram os intrépidos navegantes, que chegaram à “Nova Terra” e colonizaram o Brasil, dando início à Glória da Sub-Raça Latina, representada por Portugal, Espanha e antigas colónias, pois serão o Berço do Avatara.

Com um preito de saudade apertando o coração, lembro aqui as preciosíssimas palavras que Roberto Lucíola, fidelíssimo Discípulo de JHS, me enviou de São Lourenço, em 27.5.2002:

Residir numa Região “Jina” como Sintra não deixa de ser um privilégio e, acima de tudo, indica desfrutar de um bom Karma. Como sabemos, Sintra é o Centro de Poder Espiritual da Europa, pois aí está localizado um “Posto Representativo” presidido por um Excelso Dhyani-Kumara, responsável pela Tónica da Literatura. Por aí se pode aquilatar o potencial de Conhecimento Humano que Portugal encerra em seu seio.

Todos os sete “Postos Representativos” espalhados pelo Mundo encerram em si um grande potencial da mais alta vibração de Energia Espiritual, no sentido iniciático. São, pois, Centros Irradiadores das mais sublimes Forças. Sob a égide espiritual de Sintra, estão sete importantes capitais europeias, tais como: Roma, Londres, Bruxelas, Paris, Madrid, Copenhaga, Berlim… Estas capitais estão na órbita portuguesa segundo nos ensinam os mais sagrados e misteriosos Ensinamentos Ocultos. Não esquecer que cada “Posto Representativo” abriga em seu seio uma determinada Ordem Secreta composta por um Dirigente, que é o próprio Kumara e mais 111 Adeptos, totalizando o número cabalístico 777, ou seja: 111 x 7 = 777.

O Infante D. Henrique de Sagres foi uma expressão da Divindade encarnada entre os homens para implantar uma nova etapa na Civilização. Só este facto é suficiente para glorificar a sua Pátria e ser motivo de orgulho pertencer a uma Região escolhida por Deus para firmar a Sua Obra. Outrossim, coisa que muita gente ignora, o “Império Lusitano” não foi fruto de impulsos expansionistas ou obra do acaso, como querem os materialistas que ignoram os Desígnios de Deus. O “Império Lusitano” foi uma imposição da Lei Divina que a tudo preside. Assim sendo, ele jamais foi destruído, devido às suas origens.

Na realidade, o “Império Lusitano” é o “Império da Luz”, ou seja, da Luz Espiritual, e como tal é eterno. Esse “Império da Luz” foi recolhido aos Mundos Interditos do Interior da Terra para emergir em tempo oportuno, ele jamais foi destruído, porque o que é sagrado não pode ser destruído pela maldade humana. Os Preclaros Adeptos todos pertencentes à Linhagem do Planetário da Ronda, ou sejam, os componentes da Hierarquia dos Assuras, ao longo da História fizeram diversas tentativas para implantar na Face da Terra a Sinarquia Universal, esse “Quinto Império Encoberto” de que nos fala Fernando Pessoa.

Não sofrendo de qualquer crise de etnia xenófoba, somente o Povo Português tinha condições para dar origem a uma Nova Raça que fosse o fruto das experiências e dos sofrimentos por que já passou toda a Humanidade na sua longa caminhada em busca do seu destino, que é o retorno ao Espírito Santo, segundo as várias “Promessas” feitas por todos os Avataras que a este Mundo vieram.

Se lançarmos um olhar nas páginas da História Oculta da Humanidade, verificaremos que as Forças Obscuras, que sempre dão combate à Luz, tudo fizeram para impedir que os desideratos da Lei se cumprissem, mas sempre foram vencidas, porque a derrota dos Lusitanos seria a derrota da própria Divindade, coisa que é inconcebível e inteiramente impossível de acontecer. As Forças Obscuras foram sempre vencidas pelas Forças do Espírito Santo.

Muito embora termos tido por estas bandas (Brasil) nenhum “Condestável”… os Céus nunca nos abandonaram. Temos a certeza que o Império Eubiótico ou Sinárquico, mais dias menos dias, será reimplantado, pois as “Sementes”nunca morreram e estão bem vivas, e na Hora aprazada florescerão como Lei bem certa. Porque contra os Desígnios da Lei não há força que resista.

Posso citar ainda António Carlos Boin, que nos idos anos 70 e 80 do século passado exerceu o cargo de Secretário de Instrução em diversos Departamentos Eubióticos (Maria da Fé, São Paulo e Santo André). Além da correspondência que trocámos, certa vez e em conversa telefónica com o finado Amigo, a dado passo ele adiantou-me que “as cores verde e vermelha da Ordem dos Tributários são herança e reprodução directas das iguais da Ordem de Mariz, expressivas de Deus Pai-Mãe, as quais, ao nível imediato, unem Portugal e Brasil”.

Numa Carta-Revelação de JHS escrita em São Lourenço datada 16.2.1963 (Arcano XVI – A Revolta no Trono, Antiga Casa de Deus, in Livro Vitória dos Bhante-Yaul), o Mestre refere que “S. Lourenço dos Anciães ligava-se outrora, subterraneamente, com o Mundo de Duat”, e aplica a seguinte dicotomia aparentemente inconciliável: por uma parte diz – “A Ordem de Mariz não se dissolveu, e sim bifurcou-se exotericamente nas de Avis e de Cristo”; e por outra parte – “A Ordem de Mariz não existe mais”!

Pois sim, é a mais pura verdade: “a Ordem de Mariz não existe mais”… em actividade franca ou aberta à Face da Terra. Isso acabou no reinado de D. João I, e depois disso o seu primeiro eco exotérico ou público foi a Escola Náutica de Sagres. Como todas as seis restantes Fraternidades de Adeptos (sendo as Ramas da Árvore dos Kumaras no todo, ou Grande Fraternidade Branca), está cerrada para o século ou ciclo profano, repito, praticamente desde os finais de D. João I, o “Mestre Perfeito”, e o desaparecimento do Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, antiga reencarnação do próprio Barão Henrique Álvaro Antunes da Silva Neves, de nome esotérico MALAQUIAS, Dharani de 1.ª Classe, Grão-Chefe Temporal da Ordem de Mariz.

Desde o século XV para cá, essa Soberana Confraternidade só age franca ou abertamente em Baixo, nos Mundos de Badagas e de Duat, ou então, de maneira discretíssima, junto de raríssimos homens rigorosamente seleccionados com Missão Divina sobre a Terra, tal qual agiu como Encoberta ou Encapuçada através das Ordens de AVIS (FOHAT) e de CRISTO (KUNDALINI), respectivamente, possuidoras das cores mores VERDE e VERMELHO, cuja fusão cromática dá o PÚRPURA de KALA-SHISTA ou SISHITA, KURAT-AVARAT, a mesma SINTRA como 5.º Posto Representativo dos Marizes, Mouros, Moryas, Marus

SERRA À NOITE 2 006

Omnipresença Jina na Serra Sagrada de Sintra

A ver com a foto jina acima, flagrante tirado por Munindra português da COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA, bem se ajusta a quadra do poema de Nunes Claro, poeta de Sintra:

Quem quer que sejas tu que neste abrigo

Vieste em hora mansa hoje parar,

Feliz, vens encontrar aqui contigo

Os tesouros que andaste a procurar.

O Venerável Mestre JHS (Henrique José de Souza) repetia amiúde que “não dava nada de bandeja”, logo, como Supremo Iniciador que era, falava e escrevia por anagramas e subentendidos para que o discípulo decifrasse e se tornasse, finalmente, um Iluminado, um Integrado na Sabedoria do Deus AKBEL. Com essa sua citada por último, igualmente milhares de frases, parágrafos inteiros espalhados por todos os seus Livros de Revelações, são verdadeiras mayas e métodos de Verdadeira Iniciação Mental, logo, Espiritual. Bem parece que raros as dobram, perpassam, vencem de vez por todas!…

Servindo-me da mecânica sideral, planetária e natural da YOGA DA ARANHA, dada pelo Rei de Agharta, BAAL-BEY, à nossa Obra em 28 de Janeiro de 1941, transpô-la-ei para a estrutura escatológica da Hierarquia Oculta de Sintra:

ABSOLUTO – Sideral (Constelação): SIRIUS (KALIBA, em aghartino).

Sirius, segundo Roberto Lucíola (in Caderno “Fiat Lux” n.º 18, Fevereiro de 1999 – Sistemas Geográficos), integra “as sete Constelações Primordiais, relacionadas às sete Montanhas Sagradas, que, por sua vez, demarcam na Face da Terra um Sistema Geográfico, onde as Mónadas atingem o seu máximo de desenvolvimento, pois é nesses locais sagrados onde também se faz presente a manifestação humanizada da Divindade através do Avatara do Ciclo e da sua Corte ou Hierarquia.

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Castelo dos Mouros, Sintra, Portugal

“Cada uma das Montanhas Sagradas preside a um Ciclo Evolucional, onde determinados Seres de Hierarquia elevada se concentram, a fim de realizar um trabalho de natureza oculta obedecendo aos ditames da Lei. Em geral, funcionam sete Centros Iniciáticos de altíssimo potencial orbitando em volta de uma Oitava Montanha que expressa a própria Lei. Actualmente, o fenómeno repete-se. As pessoas ligados a esse Mistério estão se encaminhando para a Oitava Montanha Moreb que é a síntese e que expressa os esforços e experiências das sete Montanhas que já cumpriram o seu papel na História Oculta da Humanidade.

“A Montanha Moreb, na região de São Lourenço no Sul do Estado de Minas Gerais, Brasil, tem o significado de A Montanha que Ouve, e é a última Montanha do Ciclo Ariano. Ela acumula em seu seio os valores e as glórias das sete que a antecederam. Todos os valores do Passado ecoarão por Moreb. Será o Sinal dos Tempos. Sobre o assunto, assim se expressou JHS:

“Todas as glórias das Montanhas falarão por Moreb. É o Sinal da Consolidação. Depois, quando o Ciclo Ariano estiver completo, um Portal abrir-se-á, através de um vulcão no Monte Moreb. Formar-se-á em São Lourenço um dos mais famosos vulcões do Mundo, cujas lavas acumuladas formarão a mais alta montanha do Globo Terráqueo.”

PAI – Planetária (Planeta): JÚPITER (JEVADAK, em aghartino).

Sobre o que diz D. Helena Jefferson de Souza na sua carta Aos queridos Filhos de Sintra (São Lourenço, 28.1.1977): “O nome dessa Augusta Ordem (de Mariz) tem, por origem, Mórias, Mouros, Marús, e as suas insígnias (cruz e fita) eram nas cores verde e encarnado (…). Ambas essas cores, se fundidas, dão o PÚRPURA do 5.º Posto Representativo”. Isto na sequência do Professor Henrique José de Souza ter dado JÚPITER como Planeta regente do 5.º Posto de Sintra, no Livro da Pedra (Carta-Revelação de 3.7.1950 – Dedicado aos Excelsos Dhyanis).

O Arcanjo, ou melhor, o Dhyani-Kumara relacionado a JÚPITER é SAKIEL (SAQUIEL), observado como um imenso Sol Púrpura por detrás de uma Montanha, segundo a sua visualização tradicional dada por AKBEL.

MÃE – Natural (Elemento): ÉTER (AKASHA, em sânscrito, MASH-MASK, em aghartino).

Animando o 5.º CHAKRA LARINGEO, trata-se da QUINTESSÊNCIA ou 5.º Elemento afim à natureza do Luzeiro Feminino ALLAMIRAH (“Olhar Celeste”) que tem por Centro de Irradiação o 5.º Globo Flogístico VÉNUS (planeta feminino por excelência). Sobre isto mesmo, D. Helena Jefferson de Souza em carta dirigida aos condiscípulos portugueses, datada de 4.12.1967, proferiu quando então lhes deu o Ritual da Quinta Essência Divina: “Mentalizar uma cortina ou cascata de águas AZUIS de permeio a doiradas estrelas descendo ou projectando-se sobre todos os presentes. Este Ritual propiciará, no decorrer da persistência ritualística, a, digamos assim, objectivação da QUINTA ESSÊNCIA DIVINA, agindo como uma Bênção dos Céus e equilíbrio para todos. Devido às actuais condições em que vive o Mundo, necessitamos de acção, coordenando-se, dessa forma, a actividade mística com a vontade sábia”.

FILHO – Sideral, Planetário, Natural: ARABEL (AKBELOY, em aghartino).

Segundo o Venerável Mestre JHS (in Livro do Colóquio Amoroso, 1956), trata-se do “5.º Senhor do Lampadário Celeste, ARABEL, o Deus da Ara, do Altar, ou do Fogo, como Senhor do Quinto Sistema”. Este Excelso Luzeiro em cuja fronte tremeluz o TETRAGRAMATON, tem como veículo físico o 5.º Globo em formação, VÉNUS, e na Terra, no Sistema Geográfico Internacional, manifesta-se pelos 7 Dhyanis-Kumaras dos quais o 5.º de SINTRA, repito, é SAKIEL, Raio Espiritual de JÚPITER, feito assim aspecto inferior de ARABEL ou veículo da Sua manifestação universal, dando como resultante da união de MANAS (Vénus) com ATMÃ (Júpiter) a:

GERAÇÃO – Em Cima, no meio e em Baixo, ou Face da Terra, Duat e Agharta.

Esta Geração, Progénie ou Corte Iluminada aqui, em SINTRA, é dirigida por SAKIEL e constitui-se de 111 Adeptos Independentes, dos quais dois são o Filho (DHYANI-BUDHA) e a MÃE (DHYANI-BUDHAI), Dirigentes temporais do Posto para o espiritual, o Pai, o DHYANI-KUMARA.

Como Ambos, BUDHA-BUDHAI, têm as suas Colunas Vivas, uma encarrega-se dos Ritos da Ordem Interna desse Posto, dessa Embocadura, pelo que é o Chefe Espiritual ou Grão-Sacerdote da mesma, enquanto a outra Coluna exerce as funções Administrativas da mesma Ordem, logo, sendo o seu Grão-Chefe Temporal. Quem é este? Precisamente o Barão HENRIQUE DA SILVA NEVES, de nome esotérico MALAQUIAS.

Quem foi ou é o Barão Henrique da Silva Neves?

Muito poderia dizer a respeito, mas prefiro reter-me ao que escreveu o Professor Henrique José de Souza sobre o aspecto exotérico ou público do Venerável Adepto (in Teatro São João, revista “O Luzeiro”, n.os 13/14, Junho-Julho 1953):

Por lei de Causalidade, tanto o pai de JHS como o Venerável Ser que fazia parte da comitiva que o acompanhou ao Norte da Índia (também chamado Henrique Antunes da Silva Neves, e sua esposa, Helena A. Da Silva Neves, os mesmos nomes dos Dois Dirigentes da Missão Y), eram armadores. O primeiro possuía DOZE navios (algo assim como os 12 Signos do Zodíaco, os 12 Cavaleiros da Távola Redonda, os 12 Pares de França, os 12 Apóstolos, etc., etc.), inclusive um de nome “Rio Real”, que “tendo sido salvo de uma grande tempestade, o seu comandante prometeu ao Senhor do Bonfim uma miniatura do barco”, etc., como se pode comprovar na “Sala dos Milagres” dessa mesma igreja, na capital baiana. Quanto ao Venerável Ancião – que, diga-se de passagem, “foi um dos grandes amigos do pai do autor deste estudo” – possuía, por sua vez, DEZ navios, dentre eles, o de nome “DRAGÃO”… e com os quais fazia o transporte de mercadorias de Lisboa para GOA, e vice-versa. Em tal lugar, a família possuía uma valiosa mansão, onde estivemos hospedados. E na hora da partida, a sua esposa, “a santa mulher com porte de rainha”, com as faces banhadas em lágrimas, dizia adeus com o seu lenço de linho… postada à beira do cais…

No seu Livro das Vidas – O Mistério da Árvore Genealógica dos Kabires, datado de 1933, o Venerável Mestre JHS dá o Barão Henrique S. Neves como o 6.º Sub-Aspecto do 1.º Aspecto da Linha dos Cabayus ou dos Moryas. Diz:

6.º: HENRIQUE ANTUNES DA SILVA NEVES, português ilustre, que viveu muito tempo em Goa. Era amicíssimo do Mestre ABRAXIS (Jean Feliciani Domiciani), proveniente de Lorenzo e Lorenza, de quem o mesmo era filho, com mais outros 6, que figuram como 2.os Aspectos de todas as Linhas. De seu nome nos servimos quando nos hospedámos no Hotel Globo, em 1914, quando para aqui viemos do Norte: Henrique Antunes da Silva. Fizemo-lo por motivos ocultos, pois não tínhamos necessidade de viajar a descoberto, mas INCÓGNITO. Além disso, tal Ser foi um Pai que encontrámos outrora, quando fomos à Índia às ocultas, ou fugido de nosso lar. Em sua casa estivemos hospedado juntamente com Abraxis, que nos honrava com a sua presença e nos conduziu ao Norte da Índia, donde viemos recambiado, depois de nossa missão. H. A. da Silva Neves era versado em várias línguas, inclusive indianas, e muito mais em Filosofia. O seu filho, António Neves, foi representante de “DHÂRAN” em Calcutá.

Com efeito, António da Silva Neves, o “Antonino”, representou o Professor Henrique José de Souza, a Sociedade “Dhâranâ” e a revista “Dhâranâ” na Índia, como facilmente pode verificar-se na lista de colaboradores e correspondentes nos seus primeiros números, tendo o próprio Paulo Machado Albernaz, quando foi redactor-chefe de “Dhâranâ” nas décadas de 50 a 70 do século passado, despachado regularmente por via correio números da revista para o endereço do filho do Barão, cujos remetente e destinatário eram inicialmente os seguintes: “De: Sociedade Dhâranâ – Budismo-Maçonaria – Niterói – Rio de Janeiro. Para: Senhor Antonino Neves – Caixa Postal 600 – Calcutá – Índia”.

Segundo as informações disponibilizadas pelo Venerável Mestre JHS nos seus Livros de Revelações, os Barões da Silva Neves haviam sido em vidas anteriores ele o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (posteriormente, Tomé de Souza, 1.º Governador Geral do Brasil), e ela a Rainha Santa Isabel. Isto mesmo está escrito na Carta-Revelação de 4.1.1952 pertencente ao Livro dos Makaras. Diz:

Todos já conhecem quem foi o Condestável na sua vida anterior… do mesmo modo que na seguinte, Tomé de Souza. E a seguir, o Barão Henrique Antunes da Silva Neves.

Noutra parte da mesma Carta-Revelação:

D. Nuno Álvares Pereira, tal como a Rainha Isabel, nunca deixaram de existir. As suas mortes são misteriosas… mesmo que ficassem os cadáveres, em ossos ou cinzas… para tradição das suas vidas, na História de Portugal. No entanto, mudaram de corpos. Essa esteira luminosa que mais parece a da Via Láctea… veio ter ao Brasil.

Reitera o Mestre reitera na Carta-Revelação de 20.1.1952 pertencente ao mesmo Livro:

Os Barões da Silva Neves não saíram apenas da Essência Espiritual do Condestável e da Rainha Isabel, a Santa, mas também dos seus corpos imortais, pouco importando o que deles fala a História Portuguesa, a Época, etc. (…) O meu pai e o meu avô eram amigos e parentes dos Barões da Silva Neves; por sinal que o meu pai foi armador, e ele também. Além de pertencerem a diversas Ordens de Cavalaria, etc.

Quanto à vida anterior do Barão como o “Santo e Guerreiro”, D. Nuno Patricial (Condestável) e D. Nuno Eclesial (Monge), sim, Avatara do próprio AKDORGE ou “Homem da Couraço ou Manto Vermelho” (MARTE) que lhe terá aparecido pouco antes da Batalha de Aljubarrota, o Mestre JHS diz ainda na Carta-Revelação de 4.1.1952:

Todos os países do Mundo possuem a sua História. A verdade, porém, é que depois do Ramo Racial Greco-Latino, que inclui Celtas, Galos (inclusive a França), etc., nenhum se compara a Portugal ou PORTO GALO, Gaulês, etc., para cujo lugar, por ser litoral e outras razões, o Manu UR-GARDAN, “o Homem do ÉDEN ou JARDIM DE FOGO”, conduziu o seu POVO, imitado por NUN´ÁLVARES, porque… aqueles que se antepuseram aos seus passos foram derrotados, foram aniquilados, sofreram a MORTE, porque, de direito e de facto, “o Manu é Senhor de Vida e de Morte, não só sobre o seu Povo como do Mundo inteiro”, cujos seres, por sua vez, são frutos, sazonados ou não, dos Manus anteriores, todos Eles, por sua vez, nascendo do Manu Primordial.

Pois sim, avançando no tempo tem-se que após o Acidente de Lisboa, na Rua Augusta, ocorrido com os Gémeos Espirituais HENRIQUE-HELENA, alguns anos depois o Insigne Casal de Barões desfez-se dos seus negócios e bens em Lisboa e Goa (nesta última residindo na Rua Espelho de Flores, depois só Rua das Flores, n.º 19, junto ao Largo da Igreja de São Lourenço, a caminho do Forte dos Três Reis Magos) e foi fixar residência no Brasil, em São Salvador da Bahia, ou melhor, na Ilha de Itaparica fronteira à cidade, no sítio de Caixa-Pregos junto à estrada levando à igreja de São Lourenço.

Sentindo grande afecto por Henrique José de Souza, e talvez ainda coagidos pela tragédia ocorrida em Lisboa, não querendo que se repetisse alguma mais, estes seus Paraninfos ou “Barões Assinalados”, parafraseando Camões, fizeram de Itaparica a sua nova morada, onde passaram a viver de maneira mais humilde ou recatada, discreta. Acerca da instalação dos Barões em Itaparica, o Mestre JHS escreveu na sua Carta-Revelação de 11.9.1941:

Como Refugium Peccatorum, não quer dizer que seja “lugar de castigo”. Puro engano! Mas antes de purgação, de elevação, de destruição de erros ou karma, como o próprio Henrique da Silva Neves (o Santo Condestável) e Helena da Silva Neves (a Rainha Santa Isabel – Ísis Babel ou Abel, etc.) se ocultarem até hoje, cercados da sua Corte, alguns Adeptos que auxiliaram, como Eles, os primeiros dias dos Gémeos, quando ambos tinham 15 para 16 anos de idade material ou humana. Assumiram conscientemente a responsabilidade indo PURGAR-SE na referida Ilha, desde que não podiam fazê-lo em Shamballah, nem mesmo na Agharta… S. Salvador fica fronteiriça, e passa por ser a terra natal de ambos os Gémeos Espirituais, Henrique e Helena como Eles, os dois prodigiosos Seres.

Na Bahia, o Casal de Barões esteve ligado ao negócio das águas abastecedoras de São Salvador, e nesta mesma cidade, na Casa do Paço do Saldanha, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz que haviam acompanhado o seu Chefe, costumavam reunir-se.

De Itaparica o Casal mudou-se para Teresópolis, em 24.12.1941, e finalmente, no início de 1944, para a região de Minas Gerais do Sul, onde passou a residir nas proximidades da cidade de São Lourenço, e aí costumava encontrar-se assiduamente com o Professor Henrique José de Souza. Diz-se até que a arquitectura e acústica do Templo da S.T.B. nessa cidade, inaugurado em 24 de Fevereiro de 1949, haviam sido sugeridos pelo Barão ao Professor…

Bastante idosos, no final das suas vidas terrenas e num época em que o Professor H.J.S. e a sua Obra eram severamente atacados pelas Forças Sinistras da Involução ameaçando gravemente a sua continuidade na Face da Terra, os Barões da Silva Neves, juntamente com o seu sempre fiel Mordomo José Ramayana, luso-goês então também já muito idoso, em 20 de Novembro de 1944 decidiram oferecer em holocausto as dádivas das suas vidas em troca da sobrevivência na Face da Terra de Henrique José de Souza, da sua Instituição e Obra. Estes Insignes Yokanans Arautos foram então recolhidos ao Interior da Terra, à Capital do Mundo de Badagas, MEKATULAN, localizada sob a cidade de São Lourenço (MG), e voluntariamente sujeitaram-se ao Ritual Jina de DJINA-MASDHAR, o mesmo Joanino da “Degola da Cabeça” ou do “Holocausto do Inocente”, igualmente chamado “Derrame do Sangue Real” que até a MAÇONARIA ADONHIRAMITA reproduz simbolicamente em seu seio, no simbolismo ritualístico do MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BAPTISTA. Isto equivale ao sacrifício voluntário na Cruz (4.ª Iniciação Real do Arhat) a favor da Ressurreição (5.ª Iniciação Real do Asheka), o que implica o sentimento doloroso do holocausto auto-imposto a favor da sobrevivência de algo ou alguma coisa, neste caso, repito, tendo como fito a salvação terrena ou humana da própria OBRA DO ETERNO NA FACE DA TERRA, cuja expressão máxima era o próprio JHS.

Muito frequentemente o sentido da “cabeça decapitada” não representa tanto um martírio individual e mais uma “decapitação” simbólica do Chefe visível de determinada Ordem que, apesar de ter perdido quem a conduzia exterior ou publicamente, prossegue firme no Ideal que aquele havia plantado. Realmente, desde 20.12.1944 que os Barões da Silva Neves deixaram para sempre a Face da Terra, mas a Ordem de Mariz prossegue a sua semeadura através da Ordem do Santo Graal e de quantos participam da Diáspora Espiritual a favor da Parúsia, do Advento do Cristo Universal.

A relação do Professor Henrique José de Souza com a Ordem de Mariz foi profícua e estreita ao longo de toda a sua vida. Chegou até a receber da mesma um estojo com o Pano de cores verde e vermelha envolvendo a Cruz da Ordem, pela época do Sacrifício dos Barões, altura em que o Barão Henrique Neves ofereceu ao Venerável Mestre a sua Comenda.

No dia 14.3.1955, às 17 horas, o Discípulo Carlos Lucas de Souza foi chamado à Vila Helena, em São Lourenço (MG), onde foi designado “REPRESENTANTE DO EXCELSO AKDORGE” e agraciado pelo Mestre JHS com a mesma Grande Comenda que pertencera ao Barão Henrique da Silva Neves, o símbolo ligado ao Dragão de Ouro (Satva, Espiritual, Solar, a própria Grande Loja Branca), e isto pelo valoroso trabalho do Discípulo em prol da construção da Obra, solenidade a que estiveram presentes aos Irmãos Cavaleiros de Akdorge, entre os quais, Itagiba e Sebastião Vieira Vidal.

A relíquia sagrada acabou guardada, por familiar de Carlos Lucas de Souza, numa caixa de sapatos a qual, desgraçadamente, veio a perder-se arrastada pelas enxurradas que no ano 2000 assolaram a cidade de São Lourenço…

Estojo enviado pela Ordem de Mariz ao Professor Henrique José de Souza Estojo enviado pela Ordem de Mariz ao Professor Henrique José de Souza

De 20.12.1044 em diante, os Espíritos, as Essências Imortais dos Barões Henrique e Helena da Silva Neves passaram a vibrar em dois outros Seres, com 10 anos de idade, chamados MÁRIO LÚCIO e MARIA LÚCIA. Nascidos em 13 de Maio de 1934, tiveram como Pais Espirituais HELENA IRACY (1.º Corpo) e KRIVATZA (Jesus, Avatara de AKDORGE), mas cujos Pais efectivos, carnais, foram os Adeptos HEINRICH GORDON SCHMIDT e HELEN GORDON SCHMIDT, pertencentes ao Sistema Geográfico de EL MORO, E.U.A.

Como cada YOKANAN possui três nomes diversos de acordo com a sua localização, como revelou JHS na sua Carta-Revelação de 17.1.1951, tem-se que os mesmos Seres são:

MÁRIO LÚCIO e MARIA LÚCIA     –          EL MORO (CIMARRON)

HÉLIO e SELENE (BUDA-BUDAI)   –          BAIRRO CARIOCA (SÃO LOURENÇO)

HERMES e JEFFERSON               –          MEKATULAN (BADAGAS)

Com isso ligam-se às “misteriosos crianças” do Bairro Carioca de São Lourenço, com os mesmos nomes dos filhos físicos do Casal Henrique José de Souza e Helena Jefferson de Souza, facto sobre que diz o Venerável Mestre JHS na sua Carta-Revelação de 25.1.1952, pertencente ao Livro dos Makaras:

“Não devemos esquecer que há muitos anos foi anunciado: que dois Seres seriam Professores de Hélio e Selene. Tal Hélio era bem outro, do mesmo modo que Selene, como prova em tais corpos estarem hoje avatarizados os Barões da Silva Neves, tendo por Coluna Central, como já antes a tivera, um YOKANAN de elevada Estirpe”… KAFARNAUM, o 8.º Chefe da Linha dos 7 Yokanans principais.

Tendo sido as Colunas Vivas “emprestadas” a AKDORGE no Ocidente, de 1850 a 1944, desta data em diante perfiladas Colunas Vivas de AKGORGE, Irmão Gémeo daquele, teve-se no “Barão Yokanan” o exercício do Trabalho a ver com o 5.º Senhor ARABEL e a 5.ª Raça-Mãe Ariana, e na “Baronesa Sibila” a consecução do Labor relacionado ao 4.º Senhor ATLASBEL e a 4.ª Raça-Mãe Atlante, anunciados pelos do Grande Adepto seu Filho LEONEL; ambos juntos operando para o 6.º Senhor AKBEL e a 6.ª Raça-Mãe Crística, Cristina ou BIMÂNICA, acção anunciada pela Linha do Chefe dos Yokanans, KAFARNAUM, das formas mais diversas até hoje mesmo.

Os esquemas seguintes certamente darão uma noção mais clara desse metabolismo, dessa transformação e acção que faz parte da dinâmica permanente do Mundo dos Jinas ou Adeptos Perfeitos, exercendo a sua influência constante na humana, mortal e insípida pequenez de quem vive e só na Face da Terra.

Antes 1944:

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Pós 1944:

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Assim se cumpriu a Profecia de Sintra, ou seja aquela que fala da trasladação dos Valores espirituais do Oriente para o Ocidente, aqui reproduzida na versão latina e respectiva tradução portuguesa:

 

Volventur saxa litteris et ordine rectis

Cum videris Oriens, Occidentis opes

Ganges Indus Tagus erit mirabile visu

Merces commutabit sua uturque sibi.

 

Patente me farei aos do Ocidente

Quando a porta se abrir lá no Oriente.

Será coisa pasmosa quando o Indo

Quando o Ganges trocar, segundo vejo,

Os seus efeitos (espirituais) com o Tejo.

 

Sobre o que adianta o Mestre JHS no seu Livro do Graal (Carta-Revelação de 19.5.1950):

Não é de estranhar, pois, que na SERRA DE SINTRA, ao lado daquela profecia que fala da nossa Obra, de modo indirecto, mas para ser revelada por quem foi, embora que os lusitanos mais cultos a conheçam (inclusive através de Cintra Pinturesca), dizia, ao lado daquela famosa profecia também ali esteja mais esta: “Aqui neste lugar as ÁGUAS pariram dos VENTOS”.

Ar e Água, Vayu e Apas, Mental e Emocional, Homem e Mulher, Ulisses e Ulissipa, Henrique e Helena, juntos no mais perfeito dos Androginismos, aqui mesmo, na Montanha Sagrada dos Mouros, Moryas ou Marizes, para não dizer Marus e Marutas ou “Forças Vivas do Rei do Mundo”. Sim, aqui mesmo onde o Quinto Senhor ARABEL cada vez mais se integra no seu Retro-Trono, Shamballah, pois que a Terra já passou a metade do Quarto Sistema de Evolução Universal, motivo do Futuro manifestar-se cada vez mais na Hora Presente.

As razões apresentadas não são, de maneira alguma, voluntariosas ao sabor de alguma e pessoal apetência inflamada “patrioteira”, não, pois é o próprio Mestre JHS quem positivamente reitera o facto na sua Carta-Revelação de 2.5.1958, Duas e Três Tragédias, senão mais, in Livro do Ciclo de Aquarius:

O Quinto Sistema será naquele Lugar, isto é, em Portugal, na Serra de Sintra, onde a sibila estampou o mistério do Futuro, o mistério do QUINTO IMPÉRIO, também cantado pelo poeta lusitano, que fala de um só Altar, de um só Cálice de Ouro que há-de luzir. Portugal, Arquivo das Raças de Elite, principalmente a Greco-Romana, não podia deixar de ser o QUINTO SISTEMA.

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“Um só Altar e um só Cálice de Ouro”, sim, o do Templo de Maitreya onde JHS elevou o Santo Graal, gesto sacrossanto assinalando a elevação do próprio Mundo ao Deus Único e Verdadeiro

 Como o Sistema Geográfico do Roncador, Estado do Mato Grosso, Norte do Brasil, está igualmente para o Futuro Quinto Sistema ou Império Universal, como revelou o próprio Mestre, então, ter-se-á a SINTRA do Presente como o Núcleo Interno da XAVANTINA do Futuro. E assim as dicotomias aparentes se consolidam, se desvanecem…

Para isso concorrem as sete substâncias ou princípios naturais (tatvas) de que se compõe o SISTEMA GEOGRÁFICO SINTRIANO, à guisa da “Serpente Irisiforme” desde o Seio da Terra vomitando à Face da mesma as chamas púrpuras de KUNDALINI, o “Fogo Criador do Espírito Santo” que aqui é OMNIPRESENTE, por este Santo Vau ou “Escoadouro” como CHAKRA LARÍNGEO DO MUNDO, sobre o que diz o Professor Henrique José de Souza na sua Carta-Revelação de 28.4.1958 (in Livro do Ciclo de Aquarius):

Quando o Bodhisattva (JEFFERSUS), em 1800, realiza o Avatara dos Gémeos no alto da Serra de Sintra, razão porque até hoje semelhante lugar se chama o “PICO DO GRAAL”. E isto diz tudo, em relação ao Graal em nosso Templo. A Serra de Sintra também é formada de sete substâncias. Lá nasceu a Obra no Avatara de (Setembro de) 1800.

Com essas sete substâncias naturais se compõem as 7 Vestes do Luzeiro em Projecção (Ishvara) através do respectivo Planetário de Projecção (Kumara), que no mapa gnoseológico da Montanha Sagrada de Sintra localizam-se nos pontos seguintes, reproduzindo na Face da Terra, como Sistema Geográfico, um Sistema Planetário sideral:

MULADAK – CASTELO DOS MOUROS – PRITIVI (TERRA) – FÍSICO – SOL

ISADAK – SANTA EUFÊMIA – APAS (ÁGUA) – ETÉRICO – LUA

SAMADAK – SÃO MARTINHO – TEJAS (FOGO) – EMOCIONAL – MARTE

SATADAK – SÃO SATURNINO – VAYU (AR) – MENTAL INFERIOR – SATURNO

ANADAK – LAGOA AZUL – AKASHA (ÉTER) – MENTAL SUPERIOR – VÉNUS

REIFADAK – SETEAIS – ANUPADAKA (SUBATÓMICO) – INTUICIONAL – MERCÚRIO

JEVADAK – PARQUE DA PENA – ADI (ATÓMICO) – ESPIRITUAL – JÚPITER

Como Oitava Coisa ou Substância Síntese (MAHA-TATVA) participando da Substância Universal (SVABHÂVAT ou SINDAK, em sânscrito e aghartino), ela é representada pela própria ADITI, “Mãe dos Deuses”, figurada na SENHORA DO Ó na QUINTA DA TRINDADE (THEOTRIM), expressiva dos Três Logos em Acção.

A capela e a imagem de mármore em tamanho natural da Senhora do Ó na Quinta da Trindade desapareceram faz alguns anos, contudo, conservo o seu testemunho em fotos raras fazendo parte do meu espólio pessoal. Vale também a reposição da Cruz Alta, no alto do Parque da Pena (o mesmo Pico do Graal), em parte devido aos meus constantes protestos públicos. E faço votos que com os mesmos constantes protestos seja finalmente reconstruído o Chalet da Condessa d´Edla, no mesmo Parque, e nele se instale um Museu dedicado à Condessa morganática desta Serra Sagrada e a qual foi quase Rainha de Portugal.

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Nossa Senhora do Ó da Quinta da Trindade, Sintra

O profícuo Sebastião Vieira Vidal, falecido, antigo Mordomo do Templo de São Lourenço e quase coevo do início da Obra de JHS no século XX, deixou escrito na Aula n.º 9 da sua Série Juventude, composta nos inícios dos anos 70 da centúria:

Chegamos ao Quinto Posto Representativo, situado na Serra de Sintra, Portugal. É dirigido pelo Quinto Dhyani Jina ou Budha, EDUARDO JOSÉ BRASIL DE SOUZA. O Chefe da Ordem de Mariz que lhe dá cobertura tem o privilegiado nome de MALAQUIAS. É responsável pela cobertura espiritual de todas as criaturas humanas que foram julgadas boas no último Julgamento da Humanidade (1956) e que residem ou vivem na Europa.

Este Posto Representativo está muito ligado aos mistérios da nossa Obra, posto que está localizado no interior da Serra de Sintra onde esteve por muito tempo o Quinto Bodhisattva, o Cristo, com a Sua Excelsa Contraparte, Moriah. Estiveram, também, no mesmo Local, em 1899, os Corpos dos Gémeos Espirituais, após o Acidente de Lisboa, verificado à Rua Augusta em 27 de Julho de 1899. Estiveram nessa Serra Sagrada os Kumaras Dhyananda e Sanat-Sujat, mantendo a vida dos Corpos dos Gémeos Espirituais, quando tinham 16 Primaveras.

Na Serra de Sintra, internamente, funciona algo como sendo a Obra no seu aspecto universal, oculto, real. Os Augustos Seres que vivem no seu interior estão para os Irmãos de Portugal assim como nós, em São Lourenço, estamos para o interior da Montanha Moreb. Eles não podem entrar em contacto com os Irmãos da Instituição da Face da Terra, por estarem num estágio evolucional bem mais alto, e não seriam entendidos pelos componentes da Instituição, antes, talvez, mal-entendidos… O corpo emocional dos Munindras não está preparado para receber certos impactos vibratórios. A sensibilidade Deles é muito refinada e a acção directa, por parte Deles, na Obra, consideram como sendo um desprestígio para o nosso Mestre e para a nossa Grã-Mestrina. Eles apenas instruem, pela Inspiração, os componentes da Instituição, porque a Realização pertence aos da Face da Terra.

Os Irmãos de Portugal reverenciando a Serra de Sintra, estão reverenciando a Agharta, ao Mundo de Duat e ao Mundo dos Jinas ou Badagas, posto que naquela Serra esteve durante algum tempo a Verdadeira Taça do Santo Graal, com o Santo Sangue. Os Gémeos Espirituais, quando crianças, em 1800, foram apresentados ao Mundo através desse Quinto Posto Representativo. Estiveram presentes ao acto: o Bodhisattva Jeffersus, Moriah, o Dhyani-Kumara Gabriel, Ralph Moore e vários Membros da Ordem do Dragão de Ouro.

Para se sentir os valores desse Posto Representativo, dirigido pelo Príncipe EDUARDO JOSÉ BRASIL DE SOUZA, basta ouvir o “Hino ao Amor” da autoria do Intérprete do Som, com a respectiva letra. Assim Portugal se uniu ao Brasil.

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 Serra Sagrada de Sintra

Na noite de 24 para 25 de Fevereiro de 2009, recebi a informação de que os Gémeos Espirituais HENRIQUE e HELENA iriam deslocar-se de SHAMBALLAH para o interior da Embocadura de SINTRA, no Mundo de BADAGAS, onde ficariam até 8 de Julho do ano corrente, regressando, logo após as Celebrações dos Dhyanis-Budhas do Novo Pramantha (os Filhos de Akbel, as “Embocaduras do Corpo do Pai”), ao “Pombal das Aves Celestes”, o Laboratório do Espírito Santo – SHAMBALLAH. E que durante esse prazo iria registar-se uma série de acontecimentos visíveis e sensíveis que afectariam beneficamente a Obra do Eterno e, por extensão, ao próprio Mundo.

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Os Gémeos Espirituais Henrique e Helena

 Fiquei para ver e não esperei muito… Logo no dia 26 desse mês participei num jantar-debate sobre a “Espiritualidade de Sintra”, num restaurante na mesma vila (“D. Pipas”, cujo dono pouco faltou para ver alguns bebendo não pelo copo mas pela pipa…), onde, como convidado principal, sofri um embate brutal com as forças da oposição à Boa Lei da Evolução. Casa cheia, não havendo lugar para mais gente, muitos ficando à porta, eis que o cenário público estava montado para certos intelectuais da “praça pública” exibirem vaidosa e pomposamente os seus dotes intelectuais de materialistas de “cana-rachada”, perdão, kama-manásicos, vomitando com a sua boca podre o fel da iniquidade: de forma boçal começaram por ofender o Nome de Deus, desceram ao “paranóico” Henrique José de Souza, até chegar ao sábio mas “alucinado” Vitor Adrião. Quando tocaram no Bom Nome do Professor, achei que já bastava de impropérios, levantei-me, interrompi-os e calei-os, com palavras suasórias mas vigorosas. A vasta assistência, cuja maioria não me conhecia, deu-me inteira razão. Nesse embate e desbarate dos magos negros que são todos eles, servindo-se do Mental para rebaixar a Condição Humana, ainda tive tempo para referir que o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, no fim do século XIV, viveu em Sintra e restaurou o Castelo dos Mouros… o que é muito significativo, para nós os da Obra do Eterno.

Dando como encerrado esse episódio turbulento, no sábado seguinte (dia 28) realizou-se no Santuário AKDORGE de Portugal o Ritual da Yoga Universal, e foi quando informei os mais próximos de mim sobre a vinda dos Gémeos Espirituais de Shamballah para Sintra.

No dia 5 de Março realizei uma palestra-debate no Teatro Confluência, na Cidadela de Cascais, dirigida pela poetisa Helena Torrado e o actor Ricardo Carriço. Tema escolhido no memento pelos organizadores: “Cascais – Sintra e os Mundos Subterrâneos”. Mais uma vez, a Lei de Causalidade manifestava-se em plena acção, sim, porque os promotores do evento nada sabem destes Mistérios, como ignoram que essa actividade pública após foi rematada em Templo com o Ritual Yoga de Akbel.

Depois disso, houve admissão de membros de ambos os sexos à COMUNIDADE TEÚRGICA PORTUGUESA.

Completamente alheio ao que se desenrolava no escrínio da Obra dos Deuses em Portugal, ainda assim o filho primogénito do Professor Henrique José de Souza, sr. Hélio Jefferson de Souza, “veio atrás…”, isto é, visitou o nosso País de 11 a 19 de Abril, deslocando-se às cidades de Lisboa e Porto acompanhado de uma comitiva brasileira, onde se reuniram com vários dos seus antigos confrades portugueses. Tendo feito o que queria fazer, o sr. Hélio regressou ao Brasil sem ter ido a Sintra.

No mesmo mês de Abril do ano corrente, no dia 25 com a Lua Nova no signo do Touro, realizou-se novo Ritual da Yoga Universal no Templo dos Teúrgicos Portugueses, em homenagem ao Dharani MALAQUIAS na pessoa do Barão HENRIQUE ÁLVARO ANTUNES DA SILVA NEVES, Grão-Chefe Temporal da ORDEM DE MARIZ, reencarnação de D. NUNO ÁLVARES PEREIRA. Logo no dia seguinte, dia do Sol, domingo, 26, marcando o Matra-Akasha 19.006, o Papa Bento XVI, em Roma, elevou Nuno Álvares Pereira a Santo da Igreja, como se esta vassalasse o “Cavaleiro do Santo Graal” desde cedo apodado de Galaaz, apodo arturiano do próprio Cristo.

Após, no dia 30 de Abril realizei a primeira conferência pública mundial (tive o cuidado de informar-me com antecedência do facto) dedicada ao Santo Condestável: “Nuno Álvares Pereira – Santo e Guerreiro”. Foi efectuada na Galeria Matos Ferreira, em Lisboa, próxima do Palácio onde Cagliostro se hospedou no século XVIII, junto à Rua da Rosa, no Bairro Alto. A casa encheu-se de gente, e numa das fotografias tiradas no evento aparece uma significativa mão etérica sobre o piano que estava à minha direita. Mão protectora, mão inspiradora, mão abençoando de ALGUÉM pertencente ao Mundo dos Jinas ou dos Imortais, sobre o piano que é o mais iniciático dos instrumentos musicais, sim, exprimindo a execução da MÚSICA DAS ESFERAS em forma de ODISSONAI, que se cantou a 9 de Maio pela Lua Cheia desse mês de MAYA, MARIA ou MORIAH, a Excelsa Mãe Divina.

Nesse mesmo mês de Maio dei início ao Curso “Portugalidade e Tradição”, na Academia de Letras e Artes em Cascais, tendo a 24, domingo, dirigido uma visita de estudo ao Mosteiro da Batalha e ao Campo de Aljubarrota, ainda dedicada ao Santo Condestável, empresa organizada pela Galeria Matos Ferreira. Aí, no campo onde se deu a Batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), junto à Capela de São Jorge reuni os presentes e desferi, num discurso breve mas certeiro, um golpe forte nas mayas que muitos carregavam consigo (e ainda carregam…) tomando “a nuvem por Juno”, causa principal das suas inúmeras preocupações e doenças.

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Fenómeno do Mundo Jina: a mão etérica sobre o piano dirigida ao autor deste estudo

Finalmente, na primeira semana de Julho, em Homenagem aos 7+1 Dhyanis-Budhas, realizou-se no Templo Português, em uníssono com o Templo Sedote, em Baixo, o Ritual Nobre do ODISSONAI, tendo correspondido ao 5.º Dhyani, 5 de Julho, o domingo, dia do SOL. À meia-noite de 4.ª feira, dia de MERCÚRIO e de AGHARTA, 8 de Julho, número cabalístico dos GÉMEOS ESPIRITUAIS, estes deixaram SINTRA de regresso a SHAMBALLAH, enquanto na Face da Terra, no Templo, se procedia à YOGA DO MUNINDRA, ou seja, aquela legada por AKBEL.

Ainda neste ano de 2009, nos dias 3 e 4 de Agosto, desloquei-me com a minha esposa a São Lourenço de Ansiães, em Trás-os-Montes, por ambos querermos rematar a homenagem à Vinda dos Gémeos Espirituais aí mesmo, nesse Lugar de Purgação ou Purificação.

Sobre esta aldeia transmontana, o Professor Henrique José de Souza escreveu no seu artigo Cagliostro e São Germano (in revista “Dhâranâ”, n.º 110, Outubro a Dezembro de 1941, Ano XVI):

Tal Ordem (de Avis), entretanto, servia de escudo (ou “cobertura exterior”, Círculo de Resistência, etc.) a uma outra intitulada “Ordem de Mariz”, pouco importa que a História a desconheça por completo. Os seus raros filiados espalhavam-se por toda a parte do mundo, como “Membros do Culto de Melquisedec”, sendo que o nome “Mariz”, que aliás inúmeras famílias nobres de Portugal o possuíram, tem por origem: Morias, Mouros, Marus, etc., etc. Os mais Antigos se reuniam nas proximidades de certo lugar, que ainda hoje traz o nome de “S. Lourenço dos Anciães”.

No distrito de Bragança, e concelho de Anciães, fica a 6 quilómetros desta vila a aldeia de Pombal, distando 104 quilómetros para NE de Braga e 360 para N de Lisboa. No fundo de extenso “monte”, descendo para o rio Tua, brotam aí duas nascentes num local denominado S. Lourenço, por se achar o tanque que as recebe construído em uma casa que, em outros tempos, foi a capela dedicada ao referido santo… Tão modesto balneário foi mandado construir, em 1730, pelo padre António de Seixas, talvez membro da referida Ordem… Uma das nascentes é muito abundante, e ambas são conhecidas pelos nomes: Pombal dos Anciães, S. Lourenço e Caldas dos Anciães. Outrora, porém, ninguém sabe a razão, chamavam-se, às duas Fontes, Henrique e Helena… A água jorrava por duas bocas, representadas por dois golfinhos. E por cima, Castor e Pollux.

Volvendo a S. Lourenço dos Anciães, era aí, como se disse, onde se reuniam, em tempos mui distantes de hoje, os Preclaros Membros da Ordem de Mariz. Santos e Sábios Homens, muito influíram na grandeza do velho PORTUGAL, e também na do BRASIL.

A Ordem de Mariz tinha as suas insígnias (cruz e fita) Verde e Vermelho, isto é, o verde que veio a usar depois a de Aviz, e o Vermelho da de Cristo. Interessante que são as mesmas cores da respeitável Bandeira de Portugal… Mistério! Embora arrisquemos a dizer que “felizes daqueles que se acham sob a referida Protecção do Governo Oculto do Mundo”! Nessas condições, até hoje: PORTUGAL E BRASIL.

Todos que estão nas fileiras da Obra do Venerável Mestre JHS deveriam, ao menos uma vez na vida, visitar Pombal de Ansiães e a próxima Fonte Santa (Termas) de S. Lourenço. Todos que não são da Obra também a deverão visitar, pois a aldeia é hospitaleira e tem muito e variado para oferecer aos visitantes, desde os passeios culturais aos concertos musicais e à gastronomia regional. Só dessa maneira Pombal de Ansiães será arrancada ao seu “eterno mal”, que é o de todo o País interior: o isolamento, ainda mais dificultado pelos meios de acesso, já de si parcos e pobres. Os últimos acidentes, resultando mortais, na linha ferroviário do Rio Tua, a mais bela da Península Ibérica, senão da Europa, não se deve aos carris mas aos bizarros e desequilibrados “metros de superfície” (!!!). Sugiro voltar-se aos comboios a vapor, mais afins à paisagística local e mais atractivos para o turismo em geral, principalmente o termal e ecológico.

O autor nas Termas de São Lourenço dos Ansiães, 3.7.2009 O autor nas Termas de São Lourenço dos Ansiães, 3.7.2009

Foi precisamente o muitíssimo abandonado lugar da Fonte Santa o primeiro que visitámos. Junto à arruinada “Casa da Acácia” (flor simbólica da Iniciação na Maçonaria Tradicional) que funcionou como hotel rural e pertenceu à família do dr. João Carlos Noronha, está a humilde capelinha de S. Lourenço, mandada faz por algum pároco de pressuposta descendência brasileira (muitas famílias brasileiras, ou luso-brasileiras, procuraram refúgio em Pombal de Ansiães nos fins do século XIX e aí construíram as suas moradias, algumas delas sumptuosas mas bem enquadradas na paisagem local) a pedido, talvez, dos fiéis que então procuravam ser baptizados aí com a água da Fonte de S. Lourenço.

Por cima da ombreira de entrada na capelinha está uma inscrição muitíssimo mal realçada a negro por alguém recente, rezando o seguinte que até hoje ninguém conseguiu traduzir, conforme me informaram:

“Mandou-a fazer o vigário da freguesia José da Liocida (Leôncida) Neves no ano de 1839.”

O vigário José Neves seria, possivelmente, parente do Barão Henrique da Silva Neves.

Entrada da capela de S. Lourenço das Termas de Ansiães Entrada da capela de S. Lourenço das Termas de Ansiães

Mais uma vez deixei-me absorver pelo odor e fumo intenso das águas sulfurosas, vulcânicas, correndo constantes e abundantes dentro da Fonte Santa, edifício piramidal encimado exteriormente por uma cruz a qual, se perspectivada na base do mesmo, apontando ao Seio Assúrico da Terra, dá precisamente o símbolo alquímico do Enxofre Filosófico.

Este é lugar de purgação, de purificação psicofísica a que foram sujeitos os Gémeos Espirituais em 1899, pouco antes da Tragédia na Rua Augusta. Aliás, tudo neste lugar de Pombal de Ansiães (os Anciães da Ave do Espírito Santo fundadores da Portugalidade Iniciática, ao início com residência nas proximidades, no castelo templário de S. Salvador do Mundo, tanto podendo ser o Cristo como o Quinto Luzeiro agindo por Ele quanto, ainda, a corporificação operática de Ambos na Soberana Ordem de Mariz, tendo como “Círculo de Resistência” externo a Ordem do Templo) tem a ver com a provação e a purgação corporal e anímica.

Esse facto regista-se não só nas águas sulfúricas como dentro da igreja de S. Lourenço, na aldeia de Pombal, onde está a interessante pintura do “Painel das Almas do Purgatório”, com legendas, uma delas mostrando as almas castigadas implacavelmente pelo “bicho da consciência”…

No tecto de madeira, ao centro, a pintura extraordinária do busto de S. Lourenço sobre a menorah, o candelabro de 7 bocas acesas. Sendo Lourenço um Santo Graalístico Solar, luminário, expressa então o “Senhor da Luz” incarnado no Cavaleiro da Couraça ou Manto Vermelho que é o próprio AKDORGE, expressão fidedigna de ARABEL no topo do Candelabro Celeste (cujas borlas pendentes da figura formam um triângulo representativo da Tríade Superior, Flogística, em formação), ou seja, o das 7 Lampadários ou Luzeiros de que ARABEL é o primeiro aqui, na Lux-Citânia ou “Terra de Luz”, sim, a Luz Lúcida promanada do Seio da Terra desde o Quinto Posto Mundial em SINTRA. Arabel, Samael, Sintra… tudo se enquadra, desde que se saiba fazê-lo à luz da Tradição da Obra do Eterno.

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O Cavaleiro do Manto Vermelho na igreja de Pombal de Ansiães

Por baixo da pintura dentro dum caixilho oval, inscreveu-se uma legenda latina alusiva ao martírio de S. Lourenço numa grelha incandescente:

“Adhaes it animà mea post te, quia caro mea igne cremàta est prote, Deus meus.”

Tradução:

“Acolhe a minha alma em ti, porque a minha carne queimada é destruída, meu Deus.”

O simbolismo e significado esotérico da ilustração, extraordinária e raríssima no género, já foi motivo de desenvolvimento no meu livro A Ordem de Mariz (Portugal e o Futuro), dado à estampa pela Editorial Angelorum Novalis em Maio de 2006, com algumas imprecisões cronológicas e epigráficas agora rectificadas aqui.

No chão da igreja estão alguns túmulos junto ao arco triunfal que abre para o altar-mor, cujas tampas inscrevem e só uma misteriosa letra aghartina, usada tanto para designar o signo de AQUARIUS como, sobretudo, o de MAKARA. É caso para perguntar: quem são esses Makaras que escolheram este templo para sua morada eterna?

Túmulos misteriosos na igreja de Pombal de Ansiães Túmulos misteriosos na igreja de Pombal de Ansiães

No exterior da igreja, tem-se no topo da parede traseira, entre a cruz e a rosa, a inscrição seguinte: “”Esta obra mandou fazer o reverendo António de Seixas 1750”. O padre António de Seixas está retratado sobre o andro antes da assembleia, por debaixo do coro, mas o seu rosto foi raspado, apagado de maneira parecendo-me muito propositada. Bem parece que, realmente, os “Encobertos” não gostam de desvelar-se…

Pouco depois do nosso regresso de Pombal de Anciães, deu-se o notável fenómeno astronómico das Lágrimas de S. Lourenço virem beijar a Terra, ou seja, uma Chuva de Estrelas enviadas da Constelação de Perseu, figura sideral do próprio Akdorge, como consta no Livro Síntese de JHS. Mais uma vez, a Lei de Causalidade em plena acção.

Para encerrar este estudo dedicado à Excelsa Mãe Divina incarnada na Ordem que A representa como Espírito Santo na Terra, respigo alguns trechos da carta de D. Helena Jefferson de Souza, escrita em São Lourenço (MG) em 28.1.1977, dirigida Aos queridos Filhos de Sintra:

Felicito a todos por tão feliz empreendimento, que vem provar o entusiasmo e amor de vocês pela nossa Obra, a qual teve o seu ponto de apoio, para chegar ao Brasil, aí em Portugal, ou, mais precisamente, em Sintra, que Lhe deu grande cobertura espiritual, com o vigoroso impacto dos Gémeos Espirituais pelos Braços poderosos do 5.º Bodhisattwa. Notem bem: o 5.º Bodhisattwa no 5.º Posto Representativo. Não é admirável? É tema de meditação.

No Presente trabalhamos para o Futuro. E já que tenho falado tanto em 5.º Princípio, 5.º Sistema, não será demais lembrar que o número 5, ou melhor, o Arcano 5 é a chave numérica do Pentagrama Sagrado, o qual deu origem à forma do corpo humano. A criatura humana, de braços e pernas abertos, é uma Estrela de Cinco Pontas. É o ser da 4.ª Hierarquia com a possibilidade de alcançar o 5.º Princípio Cósmico. Será o Sistema Endócrino que formará a estrutura humana do 5.º Sistema, como, hoje, o Cérebro-Espinal o é do 4.º Sistema. Adianto-lhes que jã existem Seres que são frascos humanos que abrigam a Quinta Essência Divina, que desceu dos Céus como Hálito de Deus. Estes são os Orientadores da Humanidade. Ai dela se não existissem esses suportes físicos, garantindo-lhe a possibilidade de evoluir.

Para terminar, um conselho que há tempos dei no Templo: “Sem o Amor Universal nós não podemos trabalhar pela Obra. Tem que haver “esta unidade”. Nós somos “um” aqui dentro; o nosso pensamento tem que ser uníssono, o corpo tem que ser “um”. Então, se Eu sofro, todos sofrem comigo, se o meu Filho sofre, todos sofrem com Ele; se o meu Irmão sofre, todos sofrem com Ele. Tem que existir essa “Unidade Absoluta” aqui dentro”.

 

AT NIAT NIATAT

 (Um por Todos e Todos por Um)

 BIJAM

 

Créditos fotográficos: Arquivo do Autor e Arquivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sintra, Serra Sagrada – Vitor Manuel Adrião Terça-feira, Jul 28 2009 

Castelo dos Mouros - Sintra

A poucos quilómetros da actual capital do País levanta-se e distende-se aquela lomba serrana que o mito e a tradição aureolou de mistério desde a mais profunda noite dos tempos, também e muito justamente considerada a mais bela Serra de Portugal: Sintra.

As suas penhas verdejantes, os seus ares salutíferos, as suas fontes e cascatas de águas laxativas cercadas de arvoredo luxuriante, fizeram dela o oásis do Romantismo do século XIX cujo ideal naturalista e realista veio a adentrar o século XX.

Mas Sintra, hoje Património Universal da Humanidade, é muito mais que vila romântica e retiro burguês da elite social de Oitocentos. O seu historial é vastíssimo, os seus segredos esfíngicos muito mais e onde a utopia se confunde harmoniosamente com o realismo historiográfico, antropológico e etnológico, não esquecendo o filológico.

A raiz toponímica desta idílica estância estremenha é várias vezes milenar. O célebre geógrafo Edrisi, que viveu no século XII, chama-lhe Xentra e Sentra, termos arábico e moçarábico. Chamava-se antes, em celta, Chyntia ou Cyntia, vulgarizando-se no século XVII a grafia Cintra. E ainda hoje ela se impõe no presente modo de escrever, como se quis a partir dos anos 30/40 do século XX: Sintra.

No século VI a. C., segundo Schülten, o Promontório do Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa e terminação da aresta montanhosa de Sintra, chamava-se, no périplo Marselhês utilizado por Rufo Festo Avieno, em sua Ora Marítima, no século IV da era cristã, Promontório de Ofiússa, esta última palavra significando “serpente”, portanto, “Promontório da Serpente”. Ptolomeu denomina-a “Serra da Lua” e ao seu extremo cabo-mar “Promontório da Lua”, “Cabo da Lua” ou Cabum Lunarum.

Isso é muito interessante porque o mesmo Festo Avieno, na sua obra citada, informa que Ofiússa era o nome de um povo habitando o périplo Ulissiponense descendente de um outro chamado Oestrymnia, ambos adoradores da Serpente e antediluvianos. Ora Ofiússa significa Serpens ou Serpente, e neste contexto antediluviano ou atlante, segundo Manuel Joaquim Gandra (in O Eterno Feminino no Aro de Mafra, edição da Câmara Municipal de Mafra, Setembro de 1994), ele dá a justificativa geológica para a origem atlante do Cabum Lunarum de Sintra, informando que esta avançava muitas centenas de km para Sudoeste, sofreu grande afundamento, originando-se com ele o actual estuário do Tejo, o qual antes (Miocénico) desembocava com o Sado num extenso delta comum, que abrangeria a região desde Ferreira do Alentejo a Alenquer.

Nos tempos da Invasão Romana da Península Ibérica, Sintra estava compreendida no chamado Promontório Ulissiponense, também conhecido por Magno, Sacro e Artabro.

À Lua os gregos deram o nome de Selene, voz cogneta da portuguesa serena. Deste vocábulo se formou a palavra serenata que é, como se sabe, o cântico proferido ao luar.

 A pouca distância do convento de St.º António dos Capuchos, em plena Serra, outrora existiu uma ermida chamada Milides, termo corrompido Melides, de que ainda restam as ruínas. Acontece que a palavra Milides é o equivalente fonético do grego Milithes, derivação do apodo Militha dado à deusa lunar grega Athenas, aquela que Homero qualificou de “Olhos de Mocho”.

 Sintra ou Cyntia é, pois, o nome da Deusa Lua em seu aspecto tríplice: Helena a Lua Espiritual, acima de Selene a Lua Psíquica e esta sobre Diana, Perséfona ou Hécate, a Lua Física, Infernal, Inferior, Interior ou Subterrânea.

Com efeito Cyntia era o nome grego da deusa Artemis ou Artemísia a quem os romanos chamaram de Diana, a mais pura e casta das deusas irmã gémea de Apolo, o Sol, filhos de Zeus e Latona, mas cuja origem mitológica está na Kinthya celta, vulgarizada Cyntia. É a divindade lunar protectora da Natureza, musa inesgotável dos artistas e a primeira das ninfas sua rainha.

Ermida da Senhora de Melides, Colares Ermida da Senhora de Melides, Colares

Já Pinho Leal (in Portugal Antigo e Moderno, vol. II, pp. 301 e segs., Lisboa, 1877), é mais conciso ao referir esta toponímia: «A origem do nome veio de um templo erguido uns 308 anos antes de Cristo, por Gregos, Galo-celtas e Túrdulos, dedicado à Lua. Os Celtas chamavam a Lua de “Cynthia” e quando os Árabes dominaram a região, por não pronunciarem o “s”, chamavam o local de “Chintra” ou “Zintira”».

Se os antigos grafavam o nome desta vila com a inicial S, é porque esta letra designa a Sabedoria, a Serpente, o serpentear selenita em torno do Sol. Fernando Pessoa, em seu tratado O Caminho da Serpente, atribui a esta o Ouroborus – a Realização da Grande Obra Alquímica. E se grafada com C representa a Casa, o crescente elevado ou sal lunar sublimado (o nitro alquímico… representado em Caijah). E se com X é a condensação, o aprisionamento ou condensação do Verbo na sua própria Carne ou Matéria. Daí a origem do termo greco-latino Mater-Rhea, Mãe-Terra ou Matéria, iconograficamente sempre representada pela Virgem Anima-Mundi, vulgarmente da Concepção ou Conceição, primitivamente a Senhora do Ó, que se via na quinta da Trindade e se vê num altar lateral da capela de Santa Eufêmia da Serra.

Quanto ao topónimo actual Sintra, divide-se em Sin e Tar, termos aglutinantes turânicos significando, respectivamente, “Lua” e “Monte”. O turânico Sin foi adoptado pelos Caldeus e Hebreus para designar a Lua, e Tar o local elevado do seu culto, como sucede com o onomástico Sinai, este também presente na quinta da Penha Verde, na capela de Santa Catarina do Monte Sinai.

De acordo com a língua Tupi, a maior nação indígena do Brasil, a palavra Sintra também está inserida nela, como: Sy-nh-atyara. Decompõe-se e traduz-se da seguinte maneira: Sy = Lua, mais nh, igual à partícula de ligação, mais atyara, igual a Monte, Elevação. Portanto, Sy-nh-atyara igual a Sintra, o mesmo que “Monte da Lua”, correspondendo ao Selene Oros de Ptolomeu e ao Mons Lunae dos Latinos (cf. Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987).

Pormenor curioso esse da existência de uma palavra tão semelhante e com o mesmo sentido entre culturas tão distintas e tão distantes. Um dado novo, susceptível de interesse no destrinçar de uma outra meada que dá pelo nome de Atlântida!… E mesmo certas tradições afirmam que em tempos hoje cobertos pela poeira dos milénios, Portugal e Brasil integravam-se num mesmo Continente em pleno Período Terciário, durante o Mioceno e boa parte do Plioceno.

Por sua feição serpentária notadamente ctónica, cedo a Serra de Sintra foi associada a portal para os Infernos ou Inferiores Lugares, por místicos e positivistas. No caso destes abundam as citações à ocacidade da Serra, desde o século XVII até aos anos 60 do século XX, aquando o Serviço Geológico Nacional elaborou um mapa geomagnético da Península Ibérica. Aqui são encontradas três zonas como locais de maior magnetismo – as chamadas anomalias no campo magnético –, baseadas na natureza dos minérios existentes. Além do Promontório de Sagres e do périplo alentejano do Megalitismo, é identificada Sintra e toda a zona arredor. Já Helena Abreu, especialista em magnetismo do Instituto de Meteorologia, não deixa de afirmar: «Sintra é um antigo vulcão e por isso é natural que seja um grande maciço magnético».  

Junto ao Castelo dos Mouros, no Pico da Serra (para não dizer Pico do Graal…), e só para dar um exemplo, existem dois locais que fazem sonhar com o Reino Subterrâneo de Sintra ligado ao mistério de Agharta. São uma espécie de respiradouros nos quais os jardineiros deitam toneladas de folhas durante os trabalhos de limpeza no início da Primavera. Quando se chega ao fim do Verão, vai-se a ver e não está lá nada…

Como fui eu quem iniciou em 1978 o Ciclo Taumaturgico de Sintra para Aquarius – 2005, e como tudo quanto tenho transmitido pela comunicação social nos últimos dois decénios e alguns anos não tem passado de excertos ou fragmentos soltos de um Saber Iniciático indo à Raiz do Mundo, considero-me, portanto, com idoneidade espiritual e humana suficiente para afirmar a certos «sábios da Grécia» que tudo sabem menos ter algum sentimento nobre pelo seu próximo: tudo o que fazem hoje em dia, inventando tratandices sobre conjecturas tartufas, vale menos que nada! E só não é nada porque prolifera na fantasia inflamada dos vários impúberes psíquicos de diversas idades. Não saem do mesmo sítio, ainda que fantasiem ter ido muito longe… Sobre isso e em relação a Iniciações Crípticas, confiadas ao segredo de suas trevas, fala-nos Sinésio (De Providentia, 11, 4): «O incognoscível (agnosia) é um carácter venerável para as téletés, e por esse motivo os Mistérios são confiados à noite e cavernas inacessíveis são construídas para tal ocasião, em cujo lugar sabem esconder a Divina e Indizível Acção.» 1

Portal secreto oculto entre fragas da Serra de Sintra Portal secreto oculto entre fragas da Serra de Sintra

Terá sido nesta lomba serrana, na realidade uma Montanha «lombada» se recorrer à ancestralidade de sua Primi-História, que se originou a Demanda do Santo Graal – la Quête du Saint Graal –, primeiro Arábica e depois Astur e Bretã, como Cálice de Vida, e Sintra, na fisionomia geográfica de Portugal, está no lugar do nariz que é o canal respiratório da Nação, centro fundamental do quinto elemento ou Alento Vital (Akasha ou Éter) cuja dinâmica activa a biorrítmica do País vivificando-o e, por anexo, à Europa inteira.

Ainda que a Tradição do Santo Sangue tenha se propagado de Sintra a toda a Europa, ainda assim ela é Tradição Universal inerente às mais consignadas correntes tradicionais que têm brilhado na Civilização. No que toca a Portugal, devo dizer que o Pensamento heterodoxo inserto no tema da “Fede Santa” e da “Cavalaria Espiritual” exerceu um papel preponderante e determinante, durante a Idade Média e inícios da Renascença, na mentalidade nobiliárquica da Monarquia Lusitana.

O Mito escatológico do Santo Graal corria a jorros no ideário espiritual da Idade Média galaico-portuguesa. Apesar da lenda Arturiana só tomar forma literária nos fins do século XII com a actividade poética de Chrétien de Troyes, antes disso ela já se havia espalhado pela Europa devido à acção dos bardos itinerantes 2, cujo ponto de partida não é exactamente a Bretanha mas, antes, a Estremadura ibérica 3.

Através da História e das Confraternidades abertas ou cerradas que a fizeram, chegou até hoje um vasto legado patrimonial cujo simbolismo reverte à representação e desígnio da oculta e iniciática Missão Universal da bela e barda Montanha Sagrada de Sintra. E “Sagrada” porque sacralizada pela Tradição Iniciática das Idades e pelos Homens Representativos da mesma que sulcaram os milénios feitos de séculos!… Seguindo alguns dos trilhos serranos desta nossa Cyntia irei, pois, cumprir uma breve retrospectiva de alguns dos principais monumentos que a adornam de maneira verdadeiramente singular.

PAÇO REAL – Situado no centro da vila, remonta ao século XII e sendo todo o rés-do-chão abobadado da autoria dos Templários que aí estiveram juntamente com o Grão-Mestre Provincial da Ordem, Gualdim Pais, que, passe a curiosidade, diz-se ter sido sagrado Cavaleiro pelo próprio Rei D. Afonso Henriques em pleno campo de lide, em Ourique do Alentejo.

Os Templários tiveram casas em Sintra, com sede nas Murtas, tendo ocupado todo o espaço onde hoje se encontra o Hotel Central e o Café Paris, conforme registra o documento de 1157 da doação por D. Afonso Henriques e sua mulher, D. Mafalda, a Gualdim Pais, 6.º Grão-Mestre da Ordem do Templo (1159-1195), de umas “bonas casas in villa de Cintra”, fronteiras ao Paço do Wali árabe (terá sido da fachada do palácio medieval que o primitivo brasão de Sintra foi arrancado e levado para figurar na fachada da igreja da Misericórdia, onde mais tarde Joaquim Fontes repararia nele), isto é, no Chão de Oliva, além do terreno desenvolvido no sopé do morro do Castelo (hoje freguesia de Santa Maria e que na ocasião era habitada por trinta moradores, aos quais o nosso primeiro monarca deu a 1.ª Carta de Foral de Sintra, isto em 1154), bem como umas fazendas nos arredores da vila, tudo isso integrado na “baylia” pretensa a “comendadoria” de Santa Maria de Sintra (cf. Francisco Costa, O Paço Real de Sintra. Novos Subsídios para a sua História. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1980. E também a obra anterior do mesmo autor e pela mesma editora municipal, O Foral de Sintra (1154). Sua Originalidade e Sua Expressão Comunitária, 1976).

Ora, descendo quatro pisos no Café Paris e uns bons oito metros abaixo do nível do solo, depara-se com uma sala em abóbada de berço e ao fundo uma galeria subterrânea que parte em direcção ao Palácio Real. Essa passagem prolonga-se para norte, sob a praça da vila, de onde se bifurca duas vezes, regressando em direcção ao Hotel Central: ainda hoje se repara no muro da actual Rua dos Arcos (outrora Travessa dos Fornos) a abertura de uma chaminé de ventilação, cuja profundidade se pode sondar facilmente.

A citada sala subterrânea, suportada por colunas delgadas, sugere-me a estrutura de um primitivo templo de traça bizantina, portanto um hipogeo, obra dos Templários, e a passagem subterrânea lembra-me os estatutos secretos do Mestre Roncelin para os Irmãos do Templo, datados de 1240, especificamente a recomendação nos artigos 7 e 19: «Tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados… É interdito, nas casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo».

Recentemente descobriram-se nas proximidades, no espaço do “Café da Avó”, novas galerias subterrâneas adentrando o ventre da Serra, possivelmente também obra dos Templários, notícia dada pelo jornal O Público em 2004 graças à primazia da excelentíssima e valorosa Amiga de Sintra, Sr.ª D. Adriana Jones.

Sobre o tema da sala e galeria subterrâneas dos Templários em Sintra, aconselho a leitura das obras seguintes: O Paço Real de Sintra (Novos Subsídios para a sua História), por Francisco Costa. Edição da Câmara Municipal de Sintra, 1980; e o estudo do espeleólogo Augusto Morgado, publicado no jornal Época, 12 de Agosto de 1972.

Quanto ao 1.º andar e restante edifício do Paço Real, foi acrescentado pelos Freires da Ordem de Cristo, reinando D. Dinis, que depois cederiam o imóvel à nossa Rainha Santa Isabel. Para essas primeiras grandes obras foram envolvidos os serviços de “mouros forros de Colares”, beneficiados com a regalia de pagarem apenas um quarto e não metade dos frutos colhidos, sob condição de prestarem a anûduva ou “renovação de castelos”. Contudo, será D. João I, o “Mestre Perfeito”, a oficializá-lo Paço Real, mesmo já sendo facto assumido folgar-se em Sintra desde a 1.ª Dinastia.

As chaminés singulares deste edifício, cónicas invertidas, tornadas ex-libris turístico da vila, representam esotericamente a “visão oculta”, vislumbrando de cima a baixo, e também a letra-mãe hebraica Mem, a raiz fonética feminina criadora representada no Arcano XIII do Tarot Sacerdotal: A Grande Mãe. Além dessas duas enormes chaminés existe uma terceira, mais pequena, hoje servindo de pombal. E não é a pomba a representação zoomórfica da Mãe Divina, do Espírito Santo cujo Centro Deográfico se quer em Sintra? Isto leva-me ao seguinte:

Sendo a Mãe Divina também Celeste e Humana, encontro essa trilogia feminina no Arqueómetro (isto é, Arke ou Arche-Matra, “Medida do Arqueu ou Assura”) do Marquês Saint-Yves d’Alveydre, em algumas relações filológicas a ver com o nome arábico de Sintra, ou melhor, Xentra, mas aí em termos védicos:

XENTRA = Lugar Sagrado

XETRIN  = Alma

XEMA    = Salvação

O que vale decompor a sigla S.I.N.T.R.A. na significativa frase iniciática: SERVIÇO INTENSO NO TRABALHO (DE) REDENÇÃO (DA) ALMA… de natureza feminina, tanto universal quanto individual. Isto transporta-me, uma vez mais, ao valor cabalístico da letra M.

Decerto residirá nisso o fundamento arquetipal do sentido divino da Monarquia Portuguesa, noção de alto relevo imperando no reinado de D. Manuel I, ele mesmo renovador dos arquétipos nacionais, o que se repara particularmente nos Paços Joaninos deste Palácio, por aqui deixar marcada indelevelmente a evolução total do Manuelino, que é um estilo arquitectónico de “passagem”, isto é, de portas e janelas.

QUINTA DA TRINDADE – Inicialmente bailio da Ordem do Templo (abarcando o espaço próximo de S. Miguel, St.ª Maria e S. Pedro, Orago de Sintra), aí se estabeleceu a paróquia mais rica do concelho. Fundada por Afonso Henriques foi o último bastião Templário serrano, até que se tornou o Convento da Trindade no século XIV doado por D. Afonso IV à Ordem de Cristo que, por sua vez, legou-o aos frades Trinitários, da Regra de S. Bento, tendo encerrado a sua actividade nos meados do século XIX, em 1834, com a dissolução das Ordens religiosas. A pouca distância encontra-se a…

IGREJA DE SANTA MARIA – De fundação atribuída ao nosso primeiro rei, devia ser então uma modestíssima ermida, mas cerca de cem anos após fundada um dos priores, Martim Dade, mandou demolir o edifício substituindo-o por outro de grande fábrica e de notáveis primores arquitectónicos, que chegou sem grandes danos ao terceiro quartel do século XVIII. Traçada em estilo neogótico, notabilíssima é a sua pia baptismal, de concha irregularmente polilobada, assente em dois troncos entrelaçados, que se atribui a mestre Nicolau de Chanterenne, o mesmo que criou o pórtico ocidental do Mosteiro de Belém, Lisboa: o pórtico de St.ª Maria da Anunciação. Desse mestre é também obra o retábulo em alabastro do altar-mor da capela de N.ª Sr.ª da Penha, no Convento depois Palácio do mesmo nome, no topo desta Serra Sagrada.

SANTA EUFÊMIA – Considerado o lugar pré-histórico onde nasceu Sintra, aí se situou o famoso e lendário Templo da Lua, do qual ainda havia em pé várias colunas no século XIX, como se verifica em célebre gravura a carvão então desenhada. Hoje, em toda a volta da capela românica de Santa Eufêmia avistam-se os seus destroços carcomidos e desfigurados pelos milénios. Lugar milagreiro, pode-se ainda avistar a sua fonte gradeada cujas águas eram tidas por santas, curativas de moléstias várias. Do ancestral culto selenita-matriártico aqui efectuado, o próprio nome grego Eufêmia é disso prova a favor ao decompor-se em Eu+Fêmea, ou seja, a “Boa Fêmea”, a “Boa Mulher”, a “Boa Mãe” (aliás, bem assinalada na sua congénere superior aí cultuada em altar à esquerda do seu: Nossa Senhora do Ó), associando-se com isso a uma daquelas nephil (plural, nefilim) de que fala a Bíblia. O termo hebraico nephil procede da dicção assírio-caldaica nab-ilu, à letra: a “deusa” (ilu) das “águas” (nabi).

Quanto à explicação teosófica para as aparições angelicais de Santa Eufêmia no lugar, em verdade, trata-se das projecções luminosas do Deva ou Anjo da Serra: Ab-Sin, “Luz da Lua”, tendo a ver com a religião natural de natureza matriártica do sítio, de cujas águas irrompeu a primitiva civilização castreja de Cyntia.

PENHA VERDE – Doada por D. Manuel I ao famoso vice-rei da Índia, D. João de Castro, esta Quinta adorna-se de uma riqueza histórico-artística ímpar na Serra de Sintra. Nela se acham duas fontes, a de St.ª Cruz e a do Corvo (com azulejos policrómicos e uma estátua de Neptuno), e três capelas, uma, a de S. Pedro ou S. Brás, com embrechados de conchas, nas paredes da qual estavam penduradas uma pele de jacaré e outra de jibóia, havendo também um osso que o físico-mor de D. João V concordou ser dum gigante humano: teria dois palmos e meio de comprimento e grossura correspondente ao seu comprimento, de acordo com as informações do Visconde de Juromenha (vd. bibliografia no final). Ainda segundo este autor, o edifício central da Quinta foi obra de duas criadas (ou monjas serviçais…) do bispo D. Francisco de Castro.

A segunda capela é a de São João Baptista, com azulejos policrómicos do século XVII descrevendo o martírio do Anunciador. Por debaixo desta ermida, dentro da mata chamada de S. João, há uma gruta natural entre penedos, para a qual se desce por uns degraus e na qual cabem dez a doze pessoas sentadas.

Finalmente, a capelinha redonda, votiva, construída no cimo do Monte das Alvíssaras em 1688 por ordem do bispo D. Francisco de Castro, que a dedicou a St.ª Maria de Sião e St.ª Catarina em memória de D. João de Castro ter-se consagrado, no Médio-Oriente, à mesma St.ª Catarina do Monte Sinai, o que me reporta às relações secretas deste com a não menos secreta Ordem do Monte Sinai, cujo convento no monte desse nome em Jerusalém deve a sua origem aos contributos decisivos dos Infantes D. Pedro e D. Henrique da “Ínclita Geração”.

Reza a tradição toda lendária da Penha Verde que Inês de Castro nasceu aí e na capela de S. João contraiu, mais tarde, matrimónio secreto com o Infante D. Pedro, futuro rei, e ela rainha coroada depois de morta, o que já não é lenda!…

Nesta propriedade existem duas estelas com caracteres sânscritos, a mais pequena trazida do Templo de Elefanta, ilha na baía de Bombaim, na Índia, afamada pelos seus templos e hipogeus maravilhosos, e que narra uma doação feita pelo rei Aparadityadeva (que significa “Outro Sol”), da dinastia de Silahara, no reino de Konkana, de uma área considerável de terreno ao seu vassalo Mahalla, que, por sua vez, ficaria com a obrigação de aplicar parte das rendas na manutenção dum templo local consagrado ao Deus Sol Aditya ou Surya. Quanto à estela maior, dedicada à Lua e ao Deus Shiva, teria pertencido ao famoso pagode de Somnath-Patane, no Kathiawar, próximo de Diu.

É por aí, junto às estelas, que se sobe para o Monte Sinai (termo hebraico de raiz Sin, “Lua”) ou das Alvíssaras, em cujo terreiro, diz a tradição do sítio, foi armado cavaleiro o sebástico D. Álvaro de Castro por Estevão da Gama, em 1541. Em volta deste pátio ainda se vêem os restos da ermida-habitação do navegador e guerreiro das partes do Oriente, 4.º Vice-Rei da Índia, depois anacoreta da Serra de Sintra, D. João de Castro.

A Família Castro de Sintra sempre esteve rodeada de mistérios e de prodígios semelhantes aos mais altos eventos das Escrituras. Aqui, nesta maravilhosa Quinta, ainda hoje “inexplicáveis” fenómenos Jinas a vêm protegendo da cobiça e da profanação do vulgo!…

St.ª Catarina, padroeira desta Família e provençal patrona dos Cátaros ou “Puros”, os Kátter, iconograficamente segura a Roda da Lei e a Âncora da Vida. Arrisco um pouco mais: os Castros de Sintra, que eram Cátaros de formação (a que se ligam os Costos ou Costas), desde sempre foram protegidos pelas “Forças Ocultas do Rei do Mundo”, isto é, pela secretíssima Ordem de Mariz, conforme indica sibilinamente a ornamentação dos túmulos de D. João de Castro e esposa, depositados na igreja do ex-Convento de S. Domingos de Benfica, encimando cada qual três penas dentro de uma coroa. Penha, Pena, Ave, Avis, Maris… Abaixo, suportando as urnas, três elefantes para cada uma delas. O elefante, além de representar o Oriente e a sua Tradição, também designa inconograficamente o Filho do Deus Shiva: Ganesha, afinal, o patrono da Sabedoria Divina, que é dizer, Teosofia.

CONVENTO DOS CAPUCHOS – Verdadeira recolecta de Homens-Jinas ou “Padres do Deserto” (detentores da Tradição Sacerdotal vivendo em reserva), encravada entre a face da Terra e as suas entranhas sibilinas, toda ela escavada na rocha pura e escondida pela vegetação imensa, foi fundada por D. Álvaro de Castro em 1560, reinando D. Sebastião, e nela viveram em absoluta reclusão perpétua doze espirituais frades Capuchinhos, assumidos cenobitas voluntários transformando o sítio num cenóbio singular. Num dos recantos da propriedade encontra-se a gruta de Frei Honório, que viveu isolado naquele pequeno buraco 30 anos, vindo a falecer aos 90. Frei Honório é a personificação do “Homem-Serpente” ou Hommo Teluricus (Naga, em sânscrito, Naha, em hebraico) que, no dizer de Lorde George Byron, “a fim de ganhar o Céu fez da Terra um longo inferno”. Ainda hoje se diz que “quem pretender penetrar o mistério do convento tem primeiro de morrer”, tradição oral atestada pelas duas estátuas semi-enterradas de dois monges capuchinhos, um subindo e outro descendo, dentro do Convento, assim como pela própria imagem na pequena capela do “Senhor Supliciado”, esculpida em mármore branco, no espaço florestal da cerca, postada junto ao caminho acidentado, de subida serpenteante tal qual uma Scalae Coeli, uma “Escada do Céu”.

Dedicado o Convento de Santa Cruz da Cortiça a Santo António, veja-se, agora, o significado etimológico do nome do Orago: António é um nome teóforo tendo por arquétipo aquele teónimo que no Antigo Egipto designava o Primogénito Divino saindo das Águas Primordiais da Génese, organizando a Vida ao mesmo tempo que engendrava todas as formas viventes. Trata-se de Atu-Unu, à letra: Atu = Senhor, Unu = Primogénito. É referência à Obra Divina do Segundo Logos no acto de manifestar-se no Terceiro, isto é, o Espírito revestindo-se da Matéria, da Forma.

As múltiplas transformações operadas no protótipo atuunu em consequência dos milénios decorridos e do espaço de evolução filológica conformada à fonética, são ilustradas através destes exemplos: Atuunu, Aton, Athon, Adon, Adam (em hebraico, “Homem”), Adonis, Âtuniu, Antuniu e finalmente o latino Antonius, donde o português António.

O Cristianismo recebeu essa velha crença pagã da génese aquática de António, como deus marinho, tendo naturalmente de fazer-se entender pelos peixes, e daí a conhecida lenda da “pregação de St.º António aos peixes”. O camítico Atunu desenvolveu também os ictiónimos atum (português), afun (espanhol), thunnos (grego e latim), tunny (inglês), thon (francês), etc. Atunu teve por companheira Atunina, que em português se fonetizou Atoninha ou simplesmente Toninha.

Logo, António encerra o sentido mítico-filológico de “Astro do Deus Altíssimo”, ou, o que é o mesmo, de “Terra de Aton ou Aton-Ra”, o Rei-Sol da teofania egípcia, antropomorfizado em Akenaton. Assim sendo, o Convento de Santo António dos Capuchos é “Terra Sagrada, de Luz”, pequena Lusitânia de ascetas resguardados pelas imponentes penhas beijadas pelo perfume de suas espirituais disciplinas. Talvez por isso, quando D. Filipe II o visitou ter afirmado que possuía nos seus dilatados reinos o convento mais rico e o convento mais pobre de quantos haviam sobre a Terra: o mais rico era o Escurial; o mais pobre este singelo Eremitério dos Capuchinhos, tão escondido e tão espiritual numa prega discreta da Serra de Sintra.

Também chamado de Santa Cruz ou da Cortiça, como disse mais atrás, essa é a “pele” do sobreiro, designativo vegetal da Via Seca da Alquimia e consequentemente Árvore do Espírito Santo, por sua natureza seca e flogística, expresso pela Vera Cruz de “cuja pedra sabiam extrair mel” os doze espirituais eremitas de Santo António (discípulo coevo de São Francisco de Assis), humanização de Adonai, que é o mesmo etimologicamente. As suas celas, escalvadas na montanha, verdadeiros laboratórios espirituais aquecidos pela cortiça, mais parecem humildes sacrários ou lareiras místicas em cujo interior, em devota “soledade”, entravam em comunhão com o seu Santo Ser ou Sol Interior na imagem helíaca do supracitado Santo António trazendo ao colo o Menino-Desejado, o Rei-Sol destas faldas sintrianas.

Por cima do Convento, situa-se a:

ANTA DO MONGE – Que na verdade não é anta mas tholos, antiga construção circular quase reduzida aos alicerces e que fora, durante o período Calcolítico (cerca 2700 a. C.), santuário Celtibero ou mesmo Ligúrico. Ao seu lado, um marco geodésico (488 m de altitude) assenta sobre a primitiva mamoa. O seu sobrenome, “do Monge”, é herança da memória do episódio lendário ou não aí ocorrido com um monge capuchinho que, em noite de bruma perdido na serra, viu-se subitamente “num outro mundo”!… Indo mais para o mar oceano na direcção do Cabum Lunarum, Serpens, da Roca ou Rocha, chega-se a…

NOSSA SENHORA DA PENINHA – Ermida fundada no século XVII por Pedro Pais, Mestre-Canteiro, que com o auxílio das esmolas dos devotos das povoações à volta e de D. Pedro II ergueu no Monte de São Saturnino o pequeno e românico templo cúbico (Kaaba) à Virgem Negra da Peninha, a qual até essa altura esteve exposta à devoção numa outra capela, no sopé do monte, consagrada ao referido santo, junto da qual há um pequeno cemitério seiscentista, destinado a crianças (o Saturnino cristão tal como o Saturno mitológico devora os seus filhos, ou antes, acolhe os seus infantes inocentes…), a que se acede por um carreiro empedrado tendo ao inicio, gravada numa fraga, a Cruz Patrística dos Franciscanos, e num recanto próximo, escondido pelas penhas, um poço em meia-lua feito de tijoleira, num estilo romano-árabe. Esta última capela, hoje em ruínas, diz-se ter sido fundada por Pêro Pais, signifer ou signifero – “porta-estandarte” – de D. Afonso Henriques. Quanto à capela da Virgem da Peninha, está revestida de azulejos de largo desenho e belo colorido (datados de 1711) relatando os 44 passos da vida de Nossa Senhora, destacando-se a cena do Pentecostes tendo por ambiente natural a própria Serra de Sintra, desta maneira e mais uma vez sacralizada com a presença da Mãe Divina.

O púlpito é de mosaico e mármores variados, que se diz terem sido retirados de numerosos veios da Serra. A Peninha feche o Curso Iniciático Sintriano.

TÚMULO DOS DOIS IRMÃOS – Junto ao Ramalhão, para quem vem ou sai de Sintra, encontra-se um monumento funerário, isolado, conhecido por “túmulo dos dois irmãos”. Arca funerária românica bastante simples, possui à cabeceira e aos pés duas estelas discóides, com cruzes Templárias esculpidas. Apesar de aberto e verificar-se existir no seu interior só um esqueleto incompleto, ainda assim teima-se em acreditar que nele estariam originalmente dois corpos e que a sepultura teria sido saqueada. Compartilho dessa opinião.

Segundo a lenda corrente, aí jazeriam os restos mortais de dois Lázaros, não tanto agafados ou leprosos do hospital próximo (desaparecido) mas sobretudo “Ressuscitados no Espírito” (Dwijas), um Cristão e outro Mouro como Irmãos de Culto (Gnose e Sufismo) que, apaixonados pela mesma Donzela (a “Madona Sabedoria”), a ela dedicaram a sua vida e por ela morreram consumidos de espirituais amores. Amigos e Irmãos, juntos foram enterrados como Gémeos Espirituais, designando com isso a duplicidade (e mesmo triplicidade) astrosófica desta Montanha: o Sol via Júpiter-Vénus age sobre a Lua e a sua Serra, ou seja, reportando-me ao túmulo, Cristão à cabeceira e Mouro aos pés.

Fonte da Sabuga ou do Sol, Sintra Fonte da Sabuga ou do Sol, Sintra

O mesmo acontece na ex-Mesquita de Fátima, convertida Capela de S. Pedro de Penaferrim no reinado de Afonso I, junto ao Castelo dos Mouros (activa no culto pelo menos até ao século XVI, segundo Nuno Saldanha em A Capela de S. Pedro de Penaferrim, em Sintra. Aedificiorum, n.º 1, 1988): aí encontra-se um túmulo onde jazem indistintamente os despojos mortais de cristãos e mouros, recolhidos no cemitério anexo à fortaleza. A lápide da sepultura comum apresentava esculpidas, ainda há poucos anos, uma cruz latina tendo abaixo um crescente lunar sobre um crânio com duas tíbias entrelaçadas. O seu significado oculto é o seguinte: a união imortal do Oriente com o Ocidente feita em Sintra, coisa inédita no Mundo!

Assinala, igualmente, o carácter luni-solar desta e de toda a Montanha Sagrada que haja sobre a Terra, como acontece, por exemplo, nessa outra Montanha Moreb no Sul de Minas Gerais, Brasil, coroando a cidade de S. Lourenço, onde se encontram duas insculturas líticas representando o Sol e a Lua. Com efeito, como já disse, onde há um Culto Lunar também existe o Solar, e vice-versa, como complemento fundamental.

A prova disso é encontrada numa gravura do pintor e escritor Francisco de Holanda, que viveu no século XVI (1517-1584). Em seu livro levando o título Da Fábrica que falece ha Cidade de Lysboa, que terminou em 1571, ele desenha e descreve um templo romano, na Praia das Maçãs, cujo cipo (que está actualmente no Museu de Odrinhas) consagra-o “ao Sol Eterno e à Lua”. Sol Aeternus é epíteto dado pelos Sírios e herdado pelos Romanos a Júpiter Dolichenus, afinal, o astro que juntamente com Vénus rege a barda e sagrada Montanha de Sintra.

Águia jupiteriana na Serra Sagrada de Sintra Águia jupiteriana na Serra Sagrada de Sintra

Por seu lado, o Visconde de Juromenha em sua Cintra Pinturesca refere a lápide votiva romana achada na ermida da Senhora de Milides, junto a Colares, a qual era dedicada ao “Sol e Lua Eternos”.

Tudo isso não deixa de coadunar-se à natureza andrógina ou macho-fêmea (Sol e Lua) do Santo Graal de que esta Montanha é a expressão mais lídima sobre a Terra, quer como condição de Consciência Iluminada, quer como Objecto Sagrado. Como Consciência, o Graal é:

– O Mental Superior exprimindo a Mónada Divina ou a Tríade Superior, como sejam os princípios interiores de Intuição e Espírito, consequentemente, é a expressão simbólica do

– Terceiro Logos ou Trono, representado na Mãe Divina, que uns associam a Shiva e outros ao Espírito Santo, para todos os efeitos, o Princípio Causal do Homem e do Mundo.

Como Objecto, o Graal é:

– GRAL é o almofariz, objecto de laboratório, onde são feitas certas misturas químicas.

– GRAAL é a Taça Sagrada. Nela, naturalmente, são feitas as mais sublimes, espirituais e místicas fusões e sublimações alquímicas.

Estando o Graal tríplice representado na deografia ou geografia sagrada de Sintra, é situado como Graal-Taça no Castelo dos Mouros (na Iniciação Teúrgica associado ao Pico do Graal); como Graal-Livro no Palácio da Pena (com o seu Bosque do Graal); como Graal-Pedra em St.ª Eufêmia da Serra (com a sua Ara do Graal). Assessora-o o Quinto Cavaleiro São Jorge (Akdorge), “Senhor do V Império” como “Príncipe do Santo Graal” cujo Rei ou Imperador é o próprio Cristo Universal, na Mata do Ferreiro, pertencente aos jardins da Pena. O seu nome comum, o “Arquitecto” (erroneamente associado ao Barão de Eschwege, por este ter sido o arquitecto presidindo à construção do Palácio Real da Pena), tem muito menos valor que este outro de o “Guerreiro”, em iconografia igualíssima à que se vê num vitral da capela da Virgem da Pena retratando São Jorge. Trata-se da estátua em bronze de um homem, em tamanho natural, erecto sobre uma elevação cujas penhas configuram uma rosa fechada. Defronte para o Palácio, veste “à romana” com elmo tripenacho e armado de lança e escudo, este tendo gravada uma caravela com as velas recolhidas, direccionada a Ocidente, o que para mim significa ter alcançado em 1500 o Porto Seguro das praias douradas de Vera Cruz, o Brasil ou a “Nova Lusitânia”, no dizer de Pedro de Mariz, na meta ideal do V Império, mas simultaneamente significando, no Presente face ao Futuro, que falta cumprir-se Portugal!

Uma prova inquestionável de não ser esse o Barão de Eschwege é encontrada em antigas obras literárias de teor hermetista que apresentam ao seu início a mesma figura do “Guerreiro”, só que ao invés da caravela gravada no escudo vêem-se as letras hebraicas Yod-He-Vau-Heth formativas do Tetragramaton sobre a estrela de seis pontas ou Hexalfa. Mas bastariam os três penachos ou tripenacho do mesmo “Guerreiro” para demonstrar que Ele representa o “Governo Oculto do Mundo”, sendo ao mesmo tempo o Grande Papa e o Grande Monarca como as duas expressões Pax et Lex do Rex Mundis – MELKITSEDEK ou CHAKRAVARTI, tanto vale.

Santo e Guerreiro Akdorge da Serra Sagrada de Sintra Santo e Guerreiro Akdorge da Serra Sagrada de Sintra

O Palácio da Pena, o Guerreiro e a Cruz Alta (o velhinho Pico dos Kurats, o verdadeiro e consignado Pico do Graal) formam entre si um triângulo rectângulo (também chamado “Triângulo de Pitágoras” e “Triângulo de Ouro”, por seus lados estarem em relação ao “Número de Ouro” – 1.618) qual Delta Teúrgico, cujo “Olho do Eterno”, ao centro, está representado na capela circular (vulgo “templo das 12 colunas”, levantado por volta de 1840) de St.º António do Espírito Santo, indicativa da Lua (assinalada no crescente lunar coroando a sua abóbada exterior) e do Sol, este assinalado na abóbada interior onde se vê o medalhão vermelho com a Cruz Salvífica de Cristo, designativa do Novo Sol Cíclico, o Novuspalux – o Pramantha-Dharma, direi assim, para indicar as Regras evolucionais do Novo Ciclo da Terra e de quanto nela vive.

É tal a importância da Cruz Alta, na geografia sagrada sintriana, que Francisco Costa aí deixou lapidado um seu poema datado de MCMXXXIII (1933) consagrado ao sítio:

 

CRUZ ALTA

 

Longe das ondas turvas da maldade.

Sobre este cume entre rochedos nus.

És bem o extremo apoio, que Jesus

Legou por sua morte, à Humanidade.

 

Vai bem à tua simples majestade

Este lugar que te foi dado ó Cruz:

Pois neste cimo é mais intensa a luz

E é mais intensa e bela a tempestade.

 

Feriu-te um dia o raio e, certamente,

Mais de uma alma estranhou, irreverente,

Que o Céu visasse o que une o Céu à Terra…

 

Mas eu sei que tu é que atraíste

A cólera do espaço e assim cobriste

Com dois pequenos braços toda a Serra.

 

Esta Cruz, cuja original se deve ao rei D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha, tem 3,5 m de altura, 1,5 de largura e pesa cerca de 1700 kg. Feita de maneira a figurar os tramos com nozes de uma árvore seca, cuja réplica a Condessa d´Edla quis para coroar a sua última morada nos Prazeres (Celestes), lembra-me que em Portugal o nosso Santo António, ou Santo Antoninho, introduziu no seio da Ordem Franciscana, influenciando a Agostinha, a disciplina espiritual de Realização pela Ascese ou Via Seca, com isso provocando alterações sensíveis na metodologia da religião vigente. Ele foi o São Francisco português, o Isku ou Ligure da Cristandade, a “Arca da Aliança” de Deus com o Homem, parafraseando o Padre António Vieira.

A tomada de consciência do Espírito Sintriano é feita em simultâneo com a tomada de consciência individual, no acto supremo de transformar a vida-energia em vida-consciência. E isto é Iniciação Real.

O Homem Integral é constituído de 7/7. Todavia, até ao momento, só é consciente de 4/7 (ao nível da personalidade humana – Mental Inferior, Emocional, Vital, Físico) e inconsciente de 3/7 (ao nível da individualidade espiritual – Espiritual, Intuicional, Mental Superior). Esses 4/7 dinâmicos não deixam de ser a manifestação do Ser Verdadeiro, e quando a criatura humana desenvolver os 3/7 estáticos tornar-se-á, de facto e direito, divina.

O Homem, em sua labuta e demanda constantes, almeja e vai realizando a sua complementação integral, ou seja, o desenvolvimento dos 3/7 que faltam para chegar ao Todo, à Unidade, a Deus. Este é o único e verdadeiro Caminho da Iniciação Real, aqui, representado e particularizado pela Rota Jina de Sintra, a qual descreverei posteriormente.

Tal carácter parúsico de Sintra como Tebaida “avalónica” albergando em seu seio o Sangue Real de Cristo Pantocrático, via Linhagem encoberta devido aos ventos furiosos da repressão eclesial vigente sobre a Terra a par do poder estatal subordinado daquela, ambos em inteira conexão anti-Sinárquica e anti-Tradicional própria desta Kali-Yuga ou “Idade Sombria”, deu azo a crónicas e cronicões de escritores afamados dos séculos XIV-XVIII, de que destaco a Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, dedicada ao então príncipe D. João (futuro D. João III). Escorando-se nos cronicões da época, João de Barros fará eco da naturalidade húngara do Conde D. Henrique que, neto do mesmo Imperador Clarimundo (tanto valendo por “Luz do Mundo” – o Cristo Parúsico ou em sua “Segunda Volta”, mas também como Melkitsedek, “A Luz e o Governo do Mundo”, logo, Rei do mesmo e a cuja dinastia sagrada, dando fé à crónica, pertencia o pai do Fundador da Nacionalidade), se assume como Cavaleiro do Santo Graal até que, após sucessivas aventuras de âmbito declaradamente iniciático, haverá de desembarcar em Portugal, auxiliado pelo sábio Fanimor, junto a Sintra, terra que “dará os seus filhos para o reparo do Sangue de Cristo”.

O encantado Castelo do Santo Graal, "Escada do Céu" em Sintra O encantado Castelo do Santo Graal, “Escada do Céu” em Sintra

No cume da Serra Sagrada, o velho sábio, mergulhado na luz do Espírito, predirá, em épicas oitavas, os gloriosos feitos portugueses, dando destaque à origem da Demanda e da Nação a partir de Sintra: “… D. Afonso Henriques primeiro, / Primeiro em nome, e em verdadeiro / Rei enviado por Deus glorioso”. Pelo que: “… Ó armas divinas, que aqui sereis dadas, / Dadas por Cristo por mais perfeição, / Ter-vos-ão todos tal veneração, / Quanto por obras sereis exalçadas”.

Com esta descrição sumária da espiritualidade e de alguma monumentalidade da romântica e barda Sintra, à luz do Mito que faz a História, dou por encerrado este capítulo, não sem antes convidar a que se inicie, quanto antes, a Demanda do “Si” mesmo, do Santo Graal, que na Ara do Monte Salvat ou Monte Salvo vem iluminando as mentes e os corações de quantos por Ele são piedosamente agraciados, e mesmo os que ainda não têm sensibilidade bastante para O sentir, pois que, exprimindo ao Cristo Universal exprime a toda a Humanidade e, com isto, haverá de firmar aqui e para todo o Mundo a derradeira e suprema Vitória de Deus.

 

NOTAS

 

1) Victor Magnien, Les Mystères d´Eleusis, p. 354. Cf. Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada. Lello & Irmão – Editores, Porto, 1984.

2) Roger Sherman Loomis, The Development of Arthurian Romance. Harper & Row, New York, 1964.

3) Vitor Manuel Adrião, Sintra, Serra Sagrada (Capital Espiritual da Europa). Dinapress, Lisboa, 2007. E também do autor, Quinta da Regaleira (A Mansão Filosofal de Sintra). Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007. 

 

Créditos fotográficos – Arquivo Comunidade Teúrgica Portuguesa e Paulo Andrade.

 

 

 

 

Opus Magnum Olisiponense – Hugo M. D. Martins Domingo, Jul 12 2009 

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“Primeiro combinamos, em seguida decompomos, dissolvemos o decomposto, depuramos o dividido, juntamos o purificado e solidificamo-lo. Deste modo, o homem e a mulher transformam-se num só.”

Büchlein vom Stein des Weisen, 1778

 

Lisboa! Quando falamos desta cidade é difícil encontrar argumentos que definam a sua beleza e grandiosidade, pois são simplesmente as suas imagens que nos invadem o mais profundo e intimo do ser e compadecem harmoniosamente com a sensação de que a ela pertencemos.

No que toca às suas raízes fundadoras, ela apresenta uma tradição que passou ao longo dos séculos e contribuiu para o que é hoje. Desde o Paleolítico Inferior até ao Superior, aos Ligures, Celtas, Lusitanos, Romanos, Suevos, Alanos, Visigóticos, Judeus, Árabes, Moçárabes e Cristãos até aos dias de hoje, Lisboa sempre foi local desejado e de culto. Já Fernando Pessoa dizia: “O mito é o nada que é tudo”, e por detrás de cada mito existe sempre uma certa verdade velada ou oculta que mobiliza o motor psicossocial. Lisboa é exemplo disso mesmo, no que toca à mitologia da sua fundação. De acordo com ela, teria sido fundada pelo Chefe dos Argonautas gregos, Ulisses, que aqui se apaixonara pela belíssima Rainha Ofiússa, a Deusa-Serpente. Toda a história mitológica de Ulisses (Sol) e Ulissipa ou Ofiússa (Lua) caracterizam a fundação mítica da cidade nesse período dos semi-deuses Gregos, originando o nome Olisipo (aproveitando o termo celta já existente, Olisipon, “lugar de cavalos”, justificativa filológica até hoje prevalecendo graças ao valor célebre do cavalo lusitano). Posteriormente os Romanos, sabendo da história da fundação mítica da cidade e aproveitando o termo ligure lyx (vocábulo referente às águas do Tejo) para o converter em lux (“água santa”, que na altura deveria ser as das diversas nascentes, possuídas de propriedades minerais óptimas para a saúde, dispersas pela Lisboa ribeirinha), e igualmente pegando no derivado da palavra Olisipo que seria Olisipona, transformariam esta em Ulyssipona, e daí em Ulyssibona. Depois seriam os Árabes a ainda aproveitar o termo lyx sob a forma lix, transformando o nome em Lixbona (“águas boas”) que mais tarde, após a Reconquista cristã, se tornaria na que hoje conhecemos: Lisboa.

Quando estudamos a origem dos etimólogos que foram se articulando até ao formato actual, como o de Lisboa, somos levados de um “nada que é tudo” a uma verdade que acolhe os princípios ocultos desta cidade. O termo celta Olisipon designá-la-ia como “lugar de cavalos”, mas sendo que “cavalo” igualmente encontra a derivação filológica seguinte: Cavalo, Caballo, Cabala, esta como Tradição Iniciática, tal qual se encontra na história simbólica de Ulisses e a Deusa-Serpente ou Telúrica Ofiússa, a qual vai de encontro, mais uma vez, à mesma verdade, pois a serpente simbolicamente significa Tradição, Iniciação e Imortalidade. Em relação ao formato actual do étimo Lisboa, decompondo a palavra em Lis+Boa revelamos o mesmo, pois Lis é a Flor-de-Lis, símbolo da Boa Lei e do Governo Espiritual do Mundo chefiado pelo seu Rei ou Imperador Universal, Melki-Tsedek, igualmente simbólica da cidade reservando nas suas hastes os sentidos de Soberania, Mistério e Iniciação.

Após o terramoto de 1755, Lisboa foi reerguida pela genialidade e “iluminação” do ministro real Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal. Nesse enorme e importantíssimo feito o Marquês de Pombal, rodeado por uma corte de maçons operáticos e cabalistas sábios, teve como arquitecto principal o húngaro Carlos Mardel. Dispostos a fazer desta Lisboa despedaçada pela “Ira Divina” uma nova Elisipólis (segundo o outro mito bíblico, não grego, da fundação de Lisboa), o seu esquisso baseado na Arquitectura Sagrada veio a ser a confirmação disso mesmo. Com as suas inovações de ruas amplas e praças largas, constitui-se assim a Baixa Pombalina, entre o Terreiro do Paço e o Rossio. Todo este novo imóvel trabalhado e fixado para a eternidade, centralizou-se no na Praça do Rossio assente no modelo arquitectónico romano designado Mundus, o qual define a Cidade Eleita como o Centro de Ordenação do Mundo, ou seja, quis-se nisto que Lisboa seria o próprio Centro do Mundo, em conformidade com o pensamento sagrado da Cosmologia tradicional.

Toda essa sabedoria e esclarecimento de Carlos Mardel foram adaptados à Tradição Espiritual Portuguesa por via da sua ligação à ilustre Casa dos 24, inaugurada por D. João I como reguladora dos mesteres ou diferentes ofícios na cidade, dentre eles os dos arquitectos e pedreiros, neste caso, Maçonaria Operativa, os quais se reuniam na igreja de S. José dos Carpinteiros. Igualmente desempenhou cargo de relevo na primeira Obediência Maçónica Portuguesa, a Casa Real dos Maçons da Lusitânia.

Tendo a Maçonaria como função psicossocial a operação da regeneração mental e moral do Homem levando-o a lapidar a sua pedra bruta (personalidade) numa pedra cúbica pontiaguda (Individualidade), de forma a tornar o colectivo uma Sociedade Humana mais Justa e Perfeita, a sua denominação genérica estabeleceu-se como Arte Real. No entanto, esse termo não é especifico e particular da Maçonaria, pois há uma outra doutrina muito mais antiga (na qual a Maçonaria Especulativa bebeu muitíssimo no seu início, século XVIII) que é também e por excelência Arte Real, a Alquimia. Ora partindo do Terreiro do Paço, passando pela Rua Augusta até chegar ao Rossio, observa-se a existência de figuras, elementos e símbolos arquitectónicos oriundos da Tradição Hermética de quem a Alquimia é o seu corpo, ou seja, o Corpus Hermeticum.

 

O que é a Alquimia?

 

Quando se fala em Alquimia, miserável e instantaneamente associa-se a fantasia, a superstição, a feitiçaria…Algumas mentes, ainda assim um pouco mais informadas, lá vão dizendo, pobremente, que ela foi a “mãe da Química”, enquanto outros simplesmente dizem, sem nada dizer, tratar-se de uma “ciência hermética e oculta”. Mesmo não deixando de ser verdade, tenho a dizer que essas são definições bastante redutoras e medíocres, pois a Alquimia é muito mais do que uma simples “ciência oculta”, “mãe da Química” e muito menos uma “fantasia” ou uma “ciência de charlatães e vigaristas”. Para ela apresento uma definição que, na minha opinião, expressa muito bem aquilo que é a Alquimia e ao que ela se propõe, do autor Michael Noize:
 

Conjunto de doutrinas e práticas baseado na teoria das correspondências, das acções recíprocas, numa concepção unitária da matéria e na ideia de os metais se encontrarem em gestação na mina e nascerem enfermos. Conjunto enriquecido com ideias neo-platónicas e neo-aristotélicas, cuja aplicação deveria permitir a perfeição do manipulador e do seu material, graças a uma determinada operação místico-química. Tal operação consiste em, recorrendo-se a um processo natural, levar uma matéria, mantida secreta, ao estádio de perfeição, extensiva a todo o reino metálico. Por outro lado, tal operação deverá permitir a obtenção de determinados produtos que se administrarão como panaceia. Uma aura impenetrável de mistério paira sobre este conjunto, que deverá conferir ao Adepto a segurança material, a cura dos males físicos e a iluminação, tanto espiritual como intelectual.

Alquimia, para o público comum, também é sinónima de Pedra Filosofal, o Lapis Philosophorum, que supostamente permitirá ao Alquimista obter de uma “derivação” dela, a Panaceia Universal ou Medicina Universal e o Pó de Projecção, de forma a realizar a transmutação dos metais em ouro. Hoje, a Alquimia continua sendo vítima da ignorância da informação, antes, da desinformação, a qual simplesmente apercebe o seu limiar mais superficial. Na sociedade materialista, consumista e facilitista dos dias de hoje, também não me surpreende que surjam autores e livros a afirmar que “descobriram a Pedra Filosofal” e que o “mistério dos Tempos foi encontrado”, como se fosse possível um Adepto Real fazer propaganda profana da sua grandeza espiritual, e como se isso fosse o mais interessante que há na Alquimia. Como o respeitável leitor acabou de verificar na definição dada acima, a Pedra Filosofal é o resultado final da Grande Obra, ou Opus Magnum, que corresponde à Iluminação Espiritual do Adepto, por seus próprios esforços e méritos após sacrifícios imensos num permanente ora et labora, indo torná-lo um Ser discreto e sigiloso, apartado de toda a poluição psicomental, absolutamente ao contrário aos espaventos, com mais ou menos carisma e mais ou menos espectáculo próprio para alimentar emoções fortes de mentes fracas, correndo na “praça pública”.

 

Breve História da Alquimia e Alquimia em Portugal

 

As origens da Alquimia, segundo os investigadores desta temática, parecem advir do Antigo Egipto. No entanto, os factos até à actualidade apontam o seu início apenas no Oriente, mais especificamente na China. Para além do seu lado Operativo, a Alquimia Especulativa Chinesa (século VI), tendo tido nomes importantes como Lao Tsé e Ko Hung, foi absorvida posteriormente pelo Taoismo (século XIII), a Filosofia Hindu e a Hatha-Yoga. No Mundo Árabe, ela foi influenciada através da Escola de Alexandria que integrou nomes importantíssimos como Geber (que estabeleceu o princípio do Enxofre-Mercúrio), Razes (estabelecedor do princípio trinitário do Enxofre-Mercúrio-Sal) e Avicena (que associou Alquimia e Medicina). Com o contacto do Ocidente cristão com o Oriente islâmico nos séculos XII e XIII, a Alquimia seria profundamente influenciada por ambas as correntes religiosas, e foi assim que exerceu a sua influência espiritual em toda a Europa ao longo de vários séculos. O alemão Alberto Magno (Alquimia Laboratorial ou Operativa e Discursiva ou Especulativa) e o seu discípulo Tomás de Aquino (Alquimia não Operativa), o inglês Roger Bacon (perseguido pela Igreja, pontificando o Papa Urbano IV), os espanhóis Arnaldo de Vilanova (valenciano, que também foi perseguido pelo Clero) e o seu iniciador e amigo Raimundo Lúlio (maiorquino), assim o famoso francês Nicholas Flamel, são alguns nomes célebres de Adeptos Herméticos ou Filósofos do Fogo (Philosophum per Ignium). Já durante a Europa dos fins da Idade Média, Renascença e Modernidade tivemos o grande Adepto suíço Philippus Theophrastus Bombast, ou seja, Paracelso (Alquimia e Medicina, antes, Taumaturgia, tal como Avicena), os alemães Bernard Trevisan e Basílio Valentim, de Bruxelas (Bélgica), Van Helmont (século XVII, seguidor de Paracelso). Nos séculos XVII e XVIII, Ireneu Filaleto (Adepto Thomas Vaughan), Alexandre Sethon (também conhecido por Cosmopolita) e Lascaris. No século XVIII a Alquimia passa por um período negro de má reputação devido às controvérsias geradas pelos racionalistas e enciclopedistas franceses, questionando tudo e todos, contudo, Ordens Iniciáticas como a Rosa+Cruz e a Maçonaria, apesar de toda a controvérsia especulativa como “fermento” das posteriores condições de materialismo e ateísmo, não deixaram de aplicar com magnificência e êxito os segredos da Arte Real, surgindo, ligadas a elas, figuras ilustríssimas como os misteriosos Condes de Cagliostro e Saint Germain (ou São Germano). No século XIX tivemos Cyliani e D`Espagnet, e já no século XX o misterioso e popular Fulcanelli, pseudónimo dum Alquimista francês muito conhecido, como também o francês Armand Barbault (de quem alguns afirmam que praticava mais a Espagíria, “ciência dos elixires”, do que a Alquimia, “ciência dos metais”).
 

Relativamente a Portugal, já é sabido que a Tradição Alquímica também teve os seus dias de glória e os seus Alquimistas para serem celebrados no Panteão da Honra. Existem indícios de ter havido prática alquimista no Convento de Cristo, em Tomar (contudo, ao que tudo indica, mais que à Crisopeia e Argiopeia, “fábricas do Ouro e da Prata filosofais”, dedicar-se-iam à Espagíria, à concepção de medicamentos para ajudar os mais necessitados, tal qual acontecia no Convento dos Capuchos, em Sintra), como igualmente no Mosteiro de Odivelas, de acordo com o testemunho de D. Feliciana de Milão (1642-1705), que aí redigiu o seu Discurso sobre a Pedra Filosofal, e também no Convento do Carmo, Lisboa, onde está um túmulo em cuja ilustração se vê um Alquimista rodeado dos instrumentos da Arte. Também se sabe que este pequeno país discretamente plantado à beira-mar no Extremo Ocidente da Europa, foi ponto obrigatório de visita e partilha de conhecimentos da Arte Real por grandes nomes da Alquimia, como Raimundo Lúlio e Arnaldo Vilanova, facto relatado pelos próprios, e também o grande e excelso Paracelso, segundo o autor Amorim da Costa, teria passado por terras lusas, estado em Lisboa, e partilhado conhecimentos alquímicos com Iniciados nesta Arte.

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa

Túmulo com alegoria alquímica no Convento do Carmo, Lisboa
Relativamente aos Alquimistas portugueses, são conhecidos vários desde o século XIII, como Pedro Hispano (o único Papa português, denominado João XXI) que teve contacto com o Mestre Alberto Magno e o seu discípulo Tomás de Aquino, deixando um único tratado alquímico sobre as águas: Tractatus Mirabilis Aquarum. No século XV, o nosso “Rei Alquimista” D. Afonso V, da Dinastia de Avis e cognominado o Africano, deixou para a História o seu tratado sobre a feitura da Pedra Filosofal dividido em duas partes: Lapis Philosophorum e Divisão dos Quatro Elementos, que posteriormente foi furtado do gabinete do monarca e andou transviado em edições de “cordel” por terras inglesas e espanholas, até que cerca de 1980 Vitor Manuel Adrião recuperou-o para Portugal. Em 1557 o Padre António de Gouveia, o “Padre do Oiro”, natural dos Açores, que viajara a maior parte da sua vida pela Europa afora, foi acusado pela Inquisição de que sabya fazer outras cousas grandes como era a lapis filososuforu, a Pedra Filosofal, e inclusive ofereceu-se no Palácio de D. Isabel de Albuquerque para transmutar a prata em ouro; Frei Vicente Nogueira, que apresentava uma biblioteca com várias obras influentes de Alquimia, que a Inquisição mandou queimar. No século XVII, Pedro Nunes, que foi testamentário do famoso Alquimista inglês John Dee; Duarte Madeira Arrais e o seu livro Novae Philosophiae. No século XVIII, Raphael Bluteau, justamente consignado o “Hermes Lusitano”, nascido em Inglaterra de pais franceses e terminando a vida em Portugal, foi protegido pela rainha Dona Maria Francisca de Sabóia, esposa do rei Afonso VI de Portugal, e depois por D. Pedro II de Portugal e ajudado por D. João V para que as suas obras fossem todas impressas; outra figura de enorme relevo na Alquimia portuguesa, foi o médico e familiar do Santo Oficio, Anselmo Caetano Munhoz de Abreu Gusmão e Castelo Branco, com a sua famosa obra Ennoea ou Applicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal; temos ainda um autor desconhecido de 1724, que publicou um livro só com imagens alquímicas e sem comentários, portanto, um liber mutus intitulado Veritas Hermetica Veritatem Qvaerenti, documento que pertenceu à biblioteca do rei D. Carlos; e o próprio Bartolomeu Gusmão, pressuposto o primeiro aviador do mundo com a sua “passarola” no século XVIII, também foi suspeito de práticas alquímicas, contudo, não há provas concretas. Ainda no século XVIII, pelas razões já indicadas atrás, sabe-se que a Arte Real foi descredibilizada e, com isso, muitos Alquimistas da altura remeteram-se ao sigilo total, facto relatado por Francisco de Castro na sua Ronda de Lisboa. No século XIX, é também sabido pela difusão pública feita em primeira mão por Vitor Manuel Adrião desde 1985, que o ilustre e iluminado luso-brasileiro, António Augusto Carvalho Monteiro, criador do maior dos patrimónios esotéricos de cariz nacional em Portugal, a Quinta da Regaleira, também conhecida como a “Mansão Filosofal de Sintra”, igualmente se dedicou à Alquimia.
 
 

O Arco do Triunfo e a Iniciação Hermética

 
Voltando novamente à cidade de Lisboa, a Rua Augusta, antes de ser percorrida a partir do Terreiro do Paço, é precedida pelo seu Arco Triunfal. A obra foi concebida pelos arquitectos do tempo do Marquês de Pombal, posta a concurso apenas em 1843, no Governo de Costa Cabral, executada em 1862, e só em 1873 se lhe encontrou um remate, com o projecto de Veríssimo José da Costa e a intervenção de Vítor Bastos e do francês A. C. Camels. Este Arco sustenta a coroação dos Deuses Minerva e Apolo (que tem abaixo uma estatueta representando Ulisses, como referência à fundação mitológica da cidade) pela Lusitânia Triunfante, Gloriosa como Laurenta, sendo aqui expressão da Grande Mãe Universal, obra do francês Camels; baixo, nos lados, estão 4 estátuas de figuras emblemáticas da História de Portugal, obra de Vítor Bastos, sendo elas (da esquerda para a direita): Viriato, Vasco da Gama, Marquês de Pombal e Nuno Álvares Pereira, tendo a ladeá-las outras duas representando os Deuses do Génio e Valor (alegorias aos rios Tejo e a Douro, representando assim a união do Norte e Sul do País como um todo indissociável). Segundo o autor Vitor Manuel Adrião, o Arco da Rua Augusta tem um profundo significado esotérico, por ser como o Umbral dos Mistérios, a Passagem das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede. O facto é que toda a cidade (como Jerusalém e Roma) assente em sete colinas, sagradas para os locais, possui um Arco do Triunfo ou da Salvação.
 
Visto por esta perspectiva gnoseológica, não poderia estar mais de acordo, pois se toda a Rua Augusta expressa o Magistério da Opus Magnum, logo, o carácter iniciático é implícito nela mesma, e, tal como Mircea Eliade defendeu, a Alquimia não deixa de ser uma Iniciação, inclusive no decifrar da sua mensagem críptica após apreender a sua misteriosa linguagem, prefigurada “Fala dos Pássaros” (Anjos), a qual não permite a qualquer indivíduo despreparado física e psicomentalmente aceder indiscriminadamente aos segredos operáticos da Arte Real, reservados apenas àqueles Iniciados na Matéria, na “Fala”, na Filosofia em si mesma. Além disso, sendo esta uma Ciência tendo uma perspectiva unitária da Matéria, ao trabalhar sobre os metais o Alquimista está a trabalhar sobre si mesmo, permitindo-lhe aceder a um conjunto de experiências espirituais que possibilitem a sua transformação interior e alcançar a Perfeição não só física mas sobretudo espiritual. Visto assim, o Arco da Rua Augusta assume a função de athanor ou “forno” alquímico no qual a personalidade ou Neófito funciona como a “matéria” que é introduzida, perpassada nele para ser trabalhada. Ora esta, exposta de forma muito simples, é o objectivo principal de toda a INICIAÇÃO: A TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO SER HUMANO, ou por outra, A TRANSFORMAÇÃO DA VIDA-ENERGIA EM VIDA-CONSCIÊNCIA!
 

De que provas é que me sustento para afirmar tal coisa? Bem ainda de acordo com o autor Vitor Manuel Adrião, o Terreiro do Paço, através do traçado de linhas fixas indo até determinados pontos geográficos, configura dois objectos: o Compasso e o Esquadro, que entrelaçados tornam-se o símbolo da Maçonaria Simbólica, mas que também configuram o Hexalfa, Hexagrama ou Selo de Salomão, localizando-se dentro e ao centro do mesmo a estátua equestre de D. José I (da autoria de Machado de Castro e fundida por Bartolomeu da Costa, no dia do aniversário do rei, 6 de Junho de 1775). Este último, para o mesmo autor, por ser muito devoto de S. Jorge (Akdorge), quis ser retratado de forma a personificar o santo, o “vencedor da Tarasca”, o “matador de dragões” (representados nas serpentes calcadas pelas patas do cavalo no monumento, ademais os dragões também são serpentes aladas), o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, assim mesmo assegurando a marcha precessional do Sol (Ulisses) do Oriente ao Ocidente (figurados no pedestal da estátua, respectivamente, no Elefante, ou Fama, e no Cavalo, ou Triunfo), no justo exercício de Rei do Mundo ou Imperador Universal (Melkitsedek ou Ckakravarti).

Os pontos a que nos referimos para a formação das linhas do Compasso e o Esquadro, estabelecem-se com as duas Praças, Figueira e Rossio, ligadas ao Terreiro do Paço pelas Ruas do Ouro e da Prata indo unir-se no Cais das Colunas (da autoria de Eugénio dos Santos, sob o nome Cais das Colunas Tágides, desconhecendo-se a data exacta da sua construção), à beira Rio Tejo, surgindo disso um Esquadro ou Triângulo invertido (expressivo do Mundo Terrestre, do Terceiro Logos, dos Manasa-Putras ou “Anjos do Seio da Terra”). O formato do Compasso ou Triângulo Equilátero (expressivo do Mundo Celeste, do Segundo Logos, dos Matra-Devas ou “Anjos do Seio do Céu”), é marcado pela união dos torreões, poente e nascente do Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, com o próprio eixo do Arco da Rua Augusta.

A  noção de Rei do Mundo ou Rei-Sol (cognome também dado a D. João V, idealista do Quinto Império e que dividiu Lisboa em Oriental e Ocidental, dando-lhe carácter andrógino) também compadece com o significado que o Selo de Salomão representa na linguagem hermetista. Assim, desvelando o Selo de Salomão na sua simbologia, temos:

Os 4 Elementos

1. Quatro Elementos

A União dos Opostos

3. Planetas e os Metais

Os Planetas e os Metais

3. Planetas e os Metais

Sendo o Hexalfa representativo da relação entre os metais e os planetas, o próprio centro do símbolo expressa o Sol-Ouro manifestando o intuito supremo da Alquimia: a transformação do imperfeito, do que se encontra na periferia, na Perfeição Única, ou seja, a redução do múltiplo a Um. Este aspecto está em conformidade com o significado do que representa São Jorge ou Akdorge, o Rei do Mundo ou Rei-Sol, o unificador dos extremos Oriente-Ocidente num só ponto: a “Lisboa Andrógina”.

O facto dos elementos da Natureza serem representativos do Selo de Salomão, quando analisamos a geografia do local não deixa de nos surpreender que o elemento Água encontre-se exactamente sobre o Tejo, no Cais das Colunas. Logo, se o oposto dessa é o Fogo, o local no Terreiro do Paço onde este se localizará é precisamente o Arco da Rua Augusta. Ora, este facto está totalmente de acordo com a perspectiva de Iniciação do Arco, explicada anteriormente, pois é através do Fogo (neste caso Externo, que irá despoletar o Fogo Interno, o Fogo Purificador ou Transformador do indivíduo) que todo o Magistério se realiza. No fundo, é através do Fogo que toda a Obra se inicia e acaba, é através dele que todo o processo iniciático se desenrola. Além disso, o Selo de Salomão para a Alquimia e a Teosofia é corrente o seu uso sob a forma de “Estrela Sinete” (Sri Yantra), funcionando como uma Estrela ou Força celestial que ilumina os homens sábios e lhes indica o caminho, como aos Reis Magos no Oriente (G. Gichtel, Teósofo seguidor de Jakob Böhme e que editou os trabalhos deste último em 1682-83).

 

O Magistério da Rua Augusta

 

Ao continuarmos ao longo da Rua Augusta, atravessando as suas transversais, deparamo-nos com a figura fixa numa esquina “vivendo” desapercebida ao olhar do imenso número de pessoas que ali passa todos os dias com os mais diferentes propósitos. A figura é uma águia, magistralmente de asas abertas e com as suas garras pousadas nas labaredas de uma chama densa e forte, patente na Rua de São Nicolau.

Quando verificamos o número de ruas existentes desde o início do Arco do Triunfo até ao final da Rua Augusta, confirmamos serem sete. Isto leva a pensar que não foram abertas ali ao acaso e que antes possuem um significado específico, apesar de velado. Para mim, o significado esotérico de toda a Rua Augusta prende-se com um trajecto iniciático de carácter alquímico. Não esqueçamos que as ruas laterais à Rua Augusta são a Rua do Ouro (que também me faz lembrar a famosa rua do mesmo nome onde o imperador romano-germânico Rodolfo II, grande adepto da Arte Real, tinha a sua fortaleza em Praga e nela alojou, certa vez, cerca de duzentos Alquimistas) e a Rua da Prata, e tal como Olímpio Neves revelou, na sua Lisboa à luz dos seus Arcanos, trata-se de um caduceu. Tradicionalmente, o caduceu apresenta-se com duas serpentes branca e negra (Sol e Lua, Ouro e Prata) entrelaçadas ascensionalmente ao longo de um bastão (o bastão de Hermes), terminando viradas uma para outra em sentido oposto e com duas asas de anjos no seu topo. Aqui, as serpentes ou ofiússas representadas nas artérias principais da Baixa Pombalina, são exactamente as artérias pelas quais flui a Energia Vital Serpentina (Kundalini) desdobrada nos seus dois aspectos complementares: o lunar (Apana), que é frio e passivo, e o solar (Prana), que é quente e activo. O bastão central ou de Hermes (Rua Augusta), é o canal de fusão e síntese dessas duas forças polares (Sushumna). Assim, as três artérias representam o seguinte:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (Conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (Conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

caduceu da baixa pombalina

Quando falamos do significado do caduceu, dando-lhe o significado teúrgico inédito, reservando o principal para outro lugar, mesmo assim sabemos muito bem que muitas vezes este símbolo é confundido por inúmeras entidades ou instituições que, todavia, aproveitam a sua imagem como logótipo ou emblema representativo. Não querendo virar o tema discussão, a verdade é que este signo mercuriano representa o Deus Hermes da Grécia Antiga, o Mensageiro dos Deuses, o Portador do Verbo, o Anjo da Palavra com que liga (e desliga) o Céu e a Terra, sendo a referência mais importante da linguagem hermetista e que inclusive caracterizou a aparição da figura do Patrono da Alquimia: Hermes Trimesgisto, o “três vezes Grande” – pelo Corpo (Sal), pela Alma (Mercúrio) e pelo Espírito (Enxofre). Logo, a confirmação do carácter alquímico das artérias principais da Baixa fica claramente implícita.

Ficando esclarecida essa parte da gnoseologia hermética da Baixa Pombalina, resta agora interpretar interna e paralelamente a Rua Augusta e o significado que encerra. Então, como foi afirmado, temos que a figura alada que se encontra nessa artéria e esta mesma junta às ruas (paralelas), fazem chegar à conclusão de que a Rua Augusta é a representação exacta do Magistério que conduz à obtenção da Pedra Filosofal.

 

As Três Etapas da Grande Obra na Rua Augusta

 

Em termos gerais, existe o acordo que a Grande Obra é caracterizada por três partes: o Nigredo, o Albedo e o Rubedo. No entanto, alguns defendem uma fase intermédia do Albedo para o Rubedo chamada Citrinitas, e outros ainda consideram uma quinta etapa, a Viriditas. Contudo, as três primeiras são aquelas geralmente referenciadas e lhes atribuída uma cor, tendo-se assim o preto, o branco e o vermelho, respectivamente. Igualmente na Cosmologia hindu encontramos designações para essas diferentes fases, nas referências à descensão, ascensão e expansão da Luz, tomando as designações Tamas, Rajas e Satva. Além desta divisão em três etapas e respectivas cores, também temos outra divisão em Obra Menor e Obra Maior, na qual a primeira caracteriza a espiritualização do Corpo e a segunda a corporização do Espírito ou a “fixação do Volátil”, na linguagem técnica da Alquimia.

 

1.ª Etapa – Nigredo

 

Para compreendermos as três Etapas da Grande Obra, iremos analisá-las em separado em conformidade com o pensamento unitário que caracteriza a Alquimia observada por duas vertentes, ainda assim interligadas: por um lado, a operação física dos metais, e por outro, a operação espiritual e o seu significado.

Do ponto de vista laboratorial, operativo, o que de momento podemos aferir, posto que muitas das operações alquímicas estão envoltas num enorme mistério por os Alquimistas guardarem segredo, serão as operações metálicas expostas de forma muito genérica. Além disso, o modus operático que iremos descrever pertence à Via Húmida alquímica (cuja duração é de 28 meses filosóficos), pois há outras Vias (a Seca, por exemplo) para chegar à obtenção da Pedra Filosofal.

Na realização da Grande Obra, o seu início é feito através da Prima-Materia ou Matéria-Prima, a Matéria dos Sábios ou Dragão Vermelho, o qual será submetido a um tratamento alquímico para se retirar os dois princípios antagónicos contidos na Matéria caótica e corrupta – Enxofre e Mercúrio – através do Fogo Secreto ou o Primeiro Agente, o Princípio Ígneo espiritual simbolizado pela Salamandra (Sal+Mandra), que alguns autores afirmam ser um “Sal duplo”.

Na cocção da Matéria, o seu “reincruamento” caracteriza a separação ou dissolução (Solve) dos dois Princípios antagónicos que estão unidos, o Enxofre (Espírito, Activo-Masculino, Fixo) e o Mercúrio (Alma, Passivo-Feminino, Volátil) junto com o Sal (Corpo, Coagula), através de uma disputa brutal indo atingir-se o estado caótico que leva à putrefacção da Matéria. Nesta operação, o Alquimista “parte o ovo com a sua espada” (bem ilustrada na Atlanta Fugiens, de Michael Maier), característica principal da Etapa do Nigredo, também designada de Corvo (devido à cor preta, e que só por “acaso” é a ave augure de Lisboa), para que dela renasça um novo estado, uma nova vida, uma mais ampla consciência.

Do ponto de vista espiritual, a Iniciação do Neófito também se caracteriza por uma Morte e uma Ressurreição simbólicas. O conflito, neste caso, verifica-se na batalha que se estabelece entre os dois princípios opostos do indivíduo, o Inconsciente e o Consciente, onde este para obter a sua “Matéria-Prima” necessita “visitar” o seu interior, o seu Corpo, o seu próprio Caos ou as suas “Águas Primordiais” (segundo Carl Jung), o Akasha ou Éter de onde a Vida começou, para puder encontrar a Pedra Oculta, a Força Vital, a Alma ou Anima (ou Animus, no caso do homem), de forma a ser posteriormente iluminada pelo Espírito e assim transformar o Corpo material em Corpo Glorioso, Corpo Iluminado, Corpo Consciente, Corpo Imortal ou Vas Insignis.

Assim, o Neófito necessita de “morrer” simbolicamente para puder “ressuscitar”, precisa de descer aos “Infernos” para conseguir “elevar-se aos Céus”. Para que esse processo ocorra, a sua Consciência deve ser subtraída aos sentidos imediatos e voltar-se para Si mesma, para o seu interior, e nessa obscuração libertar-se de tudo quanto é “corrupto” e “corruptível”, mortal em seu Corpo e Alma, situando-se num estado onde não têm “apoios” nem “terra debaixo dos pés”, para descobrir a sua verdadeira Essência, para então a trabalhar e transformar, isto é, a manifestar e expandir.

Isso vai exactamente de encontro à sigla V.I.T.R.I.O.L (Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem), palavra misteriosa de 7 letras da Tradição Hermética, que traduzida do latim significa: Visita o Interior da Terra Rectificando encontrarás a Pedra Oculta. No fundo, este objectivo vai de encontro ao Ideal supremo da Maçonaria: o polimento da Pedra Bruta da Personalidade humana para que se transforme na Pedra Polida Pontiaguda (Lapis) da sua Individualidade espiritual que, neste caso, será a Pedra Filosofal (Lapis Philosophorum).

A Ressurreição também está presente na tradição Maçónica, como referência ao lendário Arquitecto do Templo de Salomão, Hiram Abiff, assassinado por não ter revelado os segredos de construção da Arte Real aos seus Aprendizes, sendo o Ritual simbólico realizado como forma de eleger um novo Mestre, para que este para dê continuidade ao drama da Morte e Ressurreição na infindável Cadeia das Necessidades, até que se liberte de vez, se torne efectivamente um Mestre Perfeito como Hiram o foi.

 

A Águia Alquímica

 

Após a renovação da Matéria, é necessário a “limpar” através das destilações, tal como Ireneu Filaleto utiliza na Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei, de forma que o Corpo fique então totalmente purificado. Por vezes esta fase é confundida com a designada “sublimação”, pois que ainda se está na fase do Nigredo, tal como Nicholas Flamel a descreve no Livro dos Hieróglifos: “a matéria é negra e liquida […] esta água desce, reduz o mais que pode o resto dos ingredientes, até tudo ficar como que uma mistura cozida e negra. Por este motivo se denomina a este processo sublimação e volatilização, já que voa para o alto”. O processo de destilação, no simbolismo alquímico, é designado de “Águia”. Ora, ao percorrer-se a Rua Augusta e após quatro ruas a partir do Arco do Triunfo, mais especificamente na Rua de São Nicolau, encontra-se a Águia de asas abertas, como que estivesse a ascender ou a voar de uma labareda que se encontra por baixo dela. Imagem que faz lembrar de imediato duas coisas: a Fénix e a Águia alquímicas, que estão plenamente em comunhão com a segunda Etapa do Magistério, o Albedo, pois a Matéria renasceu tal como a Fénix renasce do Fogo, sendo o início da segunda fase designado de Águia.

A Águia Filosófica da Rua Augusta A Águia Filosófica da Rua Augusta

Além disso, essa figura também se inscreve na sinalética esotérica descritiva da Lisboa Mítica como a Águia Flamejante de São Nicolau, tal como o autor Vitor Manuel Adrião, no seu Guia de Lisboa Insólita, defende muito bem. Passemos a citá-lo:

O seu simbolismo transfere para o tema da translatio imperii, isto é, da translação dos impérios ou poderes, tradicionalmente, segundo a tese perfilhada pelo Padre António Vieira, sendo cinco: Assírio, Persa, Grego, Romano e Português, o que já antes Luís de Camões vaticinara em Os Lusíadas, VI, 7: “Via estar todo o céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro poder que tudo doma”.

Isso está de acordo com as três Idades do Mundo da tese trinitária do cisterciense Joaquim de Flora, no século XIII, indo manifestar-se em simultâneo com a marcha precessional do Sol do Oriente para o Ocidente, incidindo em três Centros urbanos principais: a Idade do Pai correspondeu ao Ciclo do Carneiro incidindo sobre Jerusalém; a Idade do Filho corresponde ao Ciclo de Peixes e a Roma; a Idade do Espírito Santo corresponderá ao Ciclo de Aquarius auspiciando Lisboa.

Estando Portugal sob a égide do signo Peixes e do planeta Júpiter, este entre os antigos era figurado pela águia, o que vem dar a esta em questão o sinal imperial de Lisboa capital do desejado Quinto Império do Mundo, a nascer (donde Natal e Nicolau) nesta cidade mais ocidental da Europa, segundo a Utopia que vai se fazendo.

O facto de esta ave estar sobre chamas, tem o sentido místico de Iluminação Espiritual da Alma Ibérica, península sob a égide do Sagitário e de Júpiter, desde o seu Centro fundamental que é Lisboa, sendo a águia a única ave a poder fitar o Sol de frente por possuir dupla pálpebra, logo, é ave solar. A legenda latina dos hermetistas ocidentais, Ignis Natura Renovatur Integra, “Pelo Fogo se Renova a Natureza inteira”, ganha novo alento aqui: tal como a fénix renasce das cinzas, segundo o mito, igualmente a águia ulissiponense renasceu das chamas destruidoras provocadas pelo terrível terramoto de 1755, ganhando outra e mais moderna feição graças ao pragmatismo modernista do Marquês de Pombal que parecia antever já uma nova Lisboa, ao desinibi-la do passado e igualá-la às mais modernas capitais europeias.

 

2.ª Etapa – Albedo

 

Nesta Etapa, operacionalmente “corta-se a cabeça do corvo” para se atingir a cor branca. Com um controlo exímio do Fogo obter-se-á o Mercúrio Comum, o Alkaest (termo também utilizado por Paracelso para designar o Fogo Secreto), e posteriormente conseguir-se-á o Enxofre Filosófico através do reaproveitamento da “casca” ou a “cinza” que se formou na Etapa do Nigredo, de forma que o Alkaest reanime o Enxofre “morto”. Deste ter-se-á os constituintes necessários para se alcançar o mais importante desta Etapa, o Mercúrio Filosófico, também chamado Rebis (esta operação mantém-se em grande sigilo). Operação que se baseia na junção dos dois compostos obtidos anteriormente – Enxofre Filosófico e Mercúrio Comum ou Dissolvente Universal – e submetendo-os a uma cocção muito lenta catalisada pelo Fogo Secreto, dar-se-á a chamada “Núpcia Química”, o “Casamento do Irmão com a Irmã” ou “Casamento do Rei com a Rainha”, concretizando-se então o Grande Arcano da Alquimia, a união dos opostos, neste caso a união do Fixo ao Volátil. Então, é assim que o “Rei ressuscita da morte” e “casa com a Rainha”, terminando assim esta segunda Etapa do Albedo. No nosso percurso ao longo da Rua Augusta, tal aspecto (União do Rei com a Rainha) está representado por duas artérias paralelas a ela, as Ruas do Crucifixo e da Madalena.

Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa Fonte bicéfala manuelina (Rebis). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Tendo sido a Etapa anterior uma “descensão aos Infernos”, uma “visita ao Interior da Terra” e o encontro da “Pedra Oculta”, que também foi uma Morte simbólica, consequentemente essa Etapa foi presidida por Saturno por representar a “Noite Saturnina”, a Morte (neste caso, pelo sacrifício da Matéria) ou separação dos dois Princípios antagónicos sob a sua foice. Esta Etapa posterior, o Albedo, é simbolicamente presidida por Júpiter, pois no campo espiritual representa a “Ressurreição”, a “Ascensão aos Céus” graças ao estado de Consciência que se alcançou, que até aí era inacessível ao indivíduo na sua condição normal. A Alma elevou-se, evolou-se da “prisão” mais recôndita da “Terra”, ressurgindo da “Noite” do Caos desenvolvendo e manifestando a sua força máxima… a Vida vence a Morte.

O processo acima descrito, espiritualmente ocorre essencialmente pela incorporação da Luz Absoluta pela própria Individualidade, cujo rejuvenescimento do Corpo desenvolver-se-á através do contacto com a sua Força Vital, Força profunda do seu Ser Anímico ou Alma, definido assim a espiritualização do Corpo, e posteriormente, após “lavar-se”, “purificar-se” ou “branquear-se” esse, estará então preparado para a unificação, coagulação, condensação, “fixação do Volátil”, ou seja, a corporização do Espírito, tornando-se assim um “Ser Imortal”, um “Homem Regenerado”. O mesmo é afirmado na Turba dos Filósofos: “Os Espíritos não se unem aos Corpos senão depois de estes terem sido perfeitamente purificados das suas impurezas”.

 

3.ª Etapa – Rubedo

A Núpcia Química

 

O Rebis, do ponto de vista operativo, no fundo é a “coisa dupla” da matéria da Pedra Filosofal, é o Andrógino Alquímico, a sua essência primaz que possui o poder absoluto de dissolver, mortificar, e destruir os Corpos, de os dissociar, separar as suas porções impuras das puras, uni-los aos Espíritos e, por consequência, gerar novos seres metálicos diferentes dos seus originais. Entramos, então, na última Etapa do Magistério, o Rubedo.

A Matéria submetida a “regimes” específicos de calor com adição de Fogo Secreto, irá chegar ao Enxofre Vermelho, que sofrerá a multiplicação enriquecendo-se a Matéria até ao estado de Elixir, sendo este um estado primário da Pedra Filosofal. Este é levado ao vermelho, no fundo ao rubro (purpurado), onde apresentará as características de irredutível e absolutamente impermeável à acção dos agentes químicos, como explica Fulcanelli.

A confirmação se a Pedra Filosofal foi atingida ou não, surge com a criação do Pó de Projecção para realizar-se a transmutação de um metal vulgar em Ouro, processo chamado Crisopeia. No entanto, a finalidade de alcançar a Pedra Filosofal também e sobretudo tem uma intenção mais altruísta e espiritual que a ambiciosa e material da simples produção de ouro (que levou muitos alquimistas ou pseudo-alquimistas, assopradores, a serem presos e torturados por governantes cobiçosos dos seus segredos, ainda mais ambiciosos que eles): a Panaceia Universal, a Medicina Universal, o Ouro Potável, a Fonte da Eterna Juventude. Essa seria produzida através de uma destilação da Pedra Filosofal por um “espírito” (termo para designar um álcool), que após tomado iria rejuvenescer o corpo de forma a atingir a juventude eterna (o pensamento profano contemporâneo acredita tratar-se exclusivamente do rejuvenescimento celular do organismo, ignorando que para se alcançar a Imortalidade física tem primeiro de passar-se pelo fenómeno natural da Morte, pois sem esta não há Ressurreição. A própria Igreja Católica fala disto, mesmo não entendendo nada de tamanho Mistério Kumárico, antes, Manasaputra a ver com a “Ressurreição dos Corpos” e os “Vasos Insignes de Eleição”).

5. FIG2.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Do ponto de vista espiritual, como foi referido anteriormente, trata-se de consumar a corporização do Espírito, da associação, união, junção, “casamento” do Espírito com um Corpo “lavado”, purificado, para se atingir aquilo a que a Grande Obra se propõe: a Crisopeia e a Panaceia Universal, pois todo este processo centra o Corpo na Força Vital (também chamada Alma, Anima, Caijah, Pedra Oculta, etc.) que foi resgatada, purificada e reunida ao Espírito, ocorrendo a transmutação espiritual de um “corpo vil” ou “obscuro” (chumbo) num “corpo nobre” ou “iluminado” (ouro). Trata-se a passagem da Lua para o Sol, da Anima para o Animus, de Psique para Eros. Com isso, o Corpo regenerado faz-se Imortal, pelo facto da Força Vital também ser imortal, eterna como uma chama que não se apaga, uma Chama Eterna (a Mónada Divina). Nicholas Flamel na culminação da Grande Obra, afirmou: “(…) É como um leão que devorasse toda a natureza impura e metálica e a transformasse na sua própria substância, quer dizer, em ouro verdadeiro, mais puro do que o das melhores minas (…)”.

6. FIG3.RosariumPhilosophorum,séculoXVI

Assim, podemos resumir todo o Magistério Alquímico nos imóveis descritos anteriormente, da forma seguinte:

ARCO DO TRIUNFO = “Separação” (Initio) – Nigredo. Símbolo: Corvo.

ÁGUIA FLAMEJANTE = “Destilação” (Medius) – Albedo. Símbolo: Águia.

CRUCIFIXO-MADALENA = “União” (Finis) – Rubedo. Símbolo: Caduceu.

 

A Escada e o Magistério

7 Ruas – 7 Fases

 

Quando falamos de Magistério, obrigatoriamente é implícito todo um percurso árduo caracterizado por fases, etapas, graus, etc., que assumem um sentido de ascensão, de subida, de alcançar a Transcendência, a Iluminação, de busca da Perfeição, do Bem, do Bom e do Belo, do Divino, enfim. Assim, é natural que simbolicamente se assumam símbolos que retratem esse aspecto. Na Alquimia, como também na Maçonaria, tal como noutras tradições antigas, esse símbolo de Iniciação é caracterizado por uma Escada (por exemplo, a Escada de Jacob). Relativamente à Alquimia, é inevitável referir a obra de Fulcanelli, o grande Alquimista do século XX, intitulada Le Mystère des Cathédrales. Nesta, o autor enfoca no pórtico principal da Catedral de Notre Dame, Paris, a sequência de 12 altos-relevos dos finais do século XIII, que afirma tratar-se de representações alquímicas. Entre eles há um medalhão que é a configuração antropomórfica da própria Alquimia.

7. Simbolo da Alquimia, Catedral de Notre Dame, Paris

Essa figura andrógina expressiva do Rebis ou Melkitsedek, prefigura a Alquimia e ostenta dois livros, um aberto e outro fechado, representando o conhecimento exotérico e o conhecimento esotérico, respectivamente. Ademais, apresenta diante de si a escada simbólica, a qual parece ter duas interpretações. A primeira, refere-se a ela como a paciência que o Alquimista necessita ter para conseguir ao seu topo, ou seja, à obtenção da Pedra Filosofal. A segunda, mais imediata, afirma que os seus nove degraus poderão representar as 9 operações principais necessárias para se alcançar o final da Grande Obra.

As 9 operações estão de acordo com os 9 meses de gestação do feto no ventre da mãe. O ventre, para os Alquimistas, tem mais do que o simples significado de matrás, “vaso de vidro” ou retorta, pois que nesta dispõem a geração do Mercúrio Filosófico, intencionalmente referindo-se sempre ao “Delfim Filosófico que é alimentado no Ventre da Mãe”, pois é nele que se dá o processo de Criação. Significativamente, o Terreiro do Paço apresenta por cima dos seus arcos ou arcanos tarôticos “cabeças de delfim”…

Em plena Baixa Pombalina tem-se a Escada do Céu, Scalae Coeli, prefigurada no Templo Cristológico e Graalístico de Santa Maria Maior, vulgo Sé Patriarcal, levando de nome oculto ou secreto “Templo da Luz” e de nome magisterial ou sacerdotal “As Três Luzes ou Chamas”.

Contudo, quando analisamos as diferentes interpretações relativas à noção de escada, constatamos que esta apresenta diferentes visões consoante os autores que debatem o assunto. Vejamos alguns exemplos:

Raimundo Lúlio (1235-1315), o Doctor iluminatus, hermetista e alquimista espanhol, amigo de Arnaldo de Vilanova (dois grandes pilares da Alquimia medieval) e verdadeiro Adepto da Arte Real (sendo que se afirma que alcançou a Pedra Filosofal), apresenta na sua De nova logica (documento com a data 1512, o que induz à crença dele não ter morrido na data citada acima) uma escada com nove degraus pela qual Sophia (a Sabedoria) avança pelos diferentes Reinos (tendo a Intuição como guia) até Deus, através do instrumento ars generalis, e aí constrói a sua morada. Além dessa, também no seu Breviculum (século XIV) apresenta nove filósofos que encarnam as nove dúvidas que podem advir dos nove Reinos-objectos do Universo, estando enumerados na primeira escada da pintura.

A Escada de Jacob foi a que apareceu em sonhos ao patriarca bíblico e lhe dava acesso ao Paraíso Celestial, sendo percorrida acima e abaixo pelos Anjos de Deus. A Musurgis universalis de Athanasius Kircher (1601-1680), obra de 1662, apresenta na sua divisão das regiões superiores do Cosmos, aproveitando o modelo da Escada de Jacob, nove coros de Anjos.

A escada do número dez de Agrippa (1486-1535), apresenta-se dividida horizontalmente em seis degraus, desde o Mundo Subterrâneo através do Mundo dos Elementos até ao Mundo dos Arquétipos, com os dez Nomes de Deus e as suas “Emanações”, as dez Sefiroths (Agrippa von Nettesheim, De occulta philosophia, 1510).

Segundo a escada apresentada por Robert Fludd (1574-1637), a organização das diversas faculdades do conhecimento do Homem dispõe-se sobre seis degraus e resumem-se à percepção, sensação, imaginação, razão e análise, sendo o último degrau a compreensão directa da Palavra Divina através da meditação (verbum). A escada em si não vai além do próprio Deus (R. Fludd, Utriusque Cosmi, Vol.II, Oppenheim, 1619).

Como vimos anteriormente, o símbolo ou representação da escada prende-se com o conceito de Iniciação, pois com esta o neófito ascenderá dum Plano inferior para outro superior, elevado, considerado Divino, e para o fazer terá que passar por várias provas (degraus) a fim de atingir o topo, o Nível Superior. Quando analisamos figuras que dizem respeito à Iniciação na Maçonaria, verificamos sem qualquer espanto que a escada também está presente e que os degraus que constam nela são nada mais e nada menos do que sete. Na imagem específica que apresentamos, respeitante à tábua ou painel do 2.º Grau da Maçonaria – Companheiro – estão presentes os sete degraus e o arco, exactamente como está estabelecido no conjunto Arco Triunfal+Sete Transversais da Rua Augusta.

8. Tábua do Segundo Grau, J Bowring, 1819

Tendo em conta que Arte Real também é figurativa do objectivo supremo da Maçonaria Hermética (transformar a “Pedra Bruta” em “Pedra Polida Pontiaguda”), tal facto está em consonância com a designação igual de Arte Real dada à Filosofia Alquímica (transmutar o “Chumbo” em “Ouro”). Assim, justifica o número sete respeitante ao objectivo Maçónico: o alcance da Perfeição do Homem operada através da Via Alquímica.

Contudo, quando verificamos o significado do número sete na Alquimia, ele apresenta-se inúmeras vezes ligado não só ao número das operações principais (bastante bem ilustradas no Splender Solis, de Salomon Trismosin, século XVI) que são necessárias realizar para chegar ao fim da Grande Obra, mas também às operações intermédias nas diferentes etapas. Wiliam Blake falava nas “7 fornalhas da alma”, referindo-se às sublimações atribuídas a Saturno, ou seja, durante a Etapa do Nigredo. Temos as 7 destilações necessárias no Albedo, tal como dizia Ostanes ou Ostano, Alquimista da Antiguidade helénico-alexandrina, e tal como Raimundo Lúlio falou, dizendo que para se atingir a Água Divina era necessário rectificá-la 7 vezes, por sua vez afirmando Nicholas Flamel que para purificar a “cabeça do corvo” era necessário mergulhá-la 7 vezes no rio Jordão. Igualmente temos as 7 fases ou “regimes” de calor pelos quais passa o Rebis na Etapa do Rubedo para se atingir a Pedra Filosofal.

No fundo, o número das sete ruas que constituem as transversais da Rua Augusta são simbolicamente as sete operações principais da Grande Obra, representando igualmente as sete operações intermédias de cada fase (7 sublimações – Nigredo; 7 destilações – Albedo; 7 multiplicações – Rubedo) necessárias para alcançar a meta final do Magistério, a Pedra Filosofal. A pintura abaixo sintetiza muito bem as principais fases da Alquimia em forma de escada, justificando tudo quanto ficou exposto.

9. Cabala, S. Michelspacher, Augsburg, 1616

Ainda segundo a perspectiva tradicional, iniciática, tendo presente o pensamento e pretensão manifesta do Universo Alquímico (Macrocosmos-Microcosmos, o Todo-Tudo, o Uno-Unidade), percorrendo essas sete ruas transversais da Rua Augusta, simbolicamente elas poderão representar os 7 Chakras (Centros Vitais) que o Homem possui no “interior” do seu Corpo Vital, que no Físico denso são as Glândulas, e que o percurso deles, de baixo a cima, acaba por ser o percurso que a “Serpente” Kundalini (o Fogo Secreto, o Fogo Criador do Espírito Santo) realiza ao longo da coluna vertebral, até chegar ao topo e atingir o estado mais elevado de Consciência. Assim, a planta gnoseológica da Baixa Pombalina, ficará completa:

Rua Augusta = Andrógina (conduto central – SUSHUMNA – da Energia Vital ou PRANA). Hierarquia: ASSURAS (Arqueus). Planeta: Mercúrio em Saturno (Terra).

Rua do Ouro = Masculina (conduto lateral direito – PINGALA – da Energia Eléctrica ou FOHAT). Hierarquia: AGNISVATTAS (Arcanjos). Planeta: Sol.

Rua da Prata = Feminina (conduto lateral esquerdo – IDA – da Energia Electromagnética ou KUNDALINI). Hierarquia: BARISHADS (Anjos). Planeta: Lua.

Rua do Crucifixo = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua do Ouro, ou seja, o conduto etérico que reveste PINGALA – VAJRINI. Princípio Masculino. Hierarquia: JIVAS (Homens). Planeta: Marte.

Rua da Madalena = Expressa o cordão simpático a ver com a Rua da Prata, ou seja, o conduto etérico que reveste IDA – CHITRINI. Princípio Feminino. Hierarquia: JINAS (Adeptos). Planeta: Vénus.

 

Conclusão

 

Se até aqui têm estado representadas todas as operações materiais da Grande Obra, resta saber onde está o resultado dela, ou seja, a Pedra Filosofal. E até neste aspecto Lisboa torna-se uma cidade magnífica por também possuir, segundo a minha interpretação, a Pedra Filosofal representada nela, em conformidade ao pensamento sagrado e até religioso da Cosmologia que tradicionalmente era aplicada no esquisso arquitectónico das cidades, centralizadas no Mundus, cuja cruzeta era o Cardus e o Decumanus, e que é herança fidedigna da Tradição Hermética aos arquitectos e geómetras da Antiguidade até um período bastante recente (meados do século XVIII, sendo Lisboa a última cidade europeia a ser construída segundo a Arquitectura e Geometria Sagradas, inclusive tendo servido de modelo para a edificação da norte-americana cidade de Washington). Tal como Roma foi uma cópia de Jerusalém, como afirmou o padre jesuíta Athanasius Kircher na sua Arithmologia (Roma, 1665), o mesmo autor do Mundus Subterraneus, também para Lisboa houve a pretensão de que fosse a Nova Jerusalém Celeste descida à Terra através do “Rei-Sol” D. João V, quando obteve autorização do Papa Clemente XI para criar o Patriarcado de Lisboa, que sempre esteve em oposição ao Bispado de Roma, o que valeu ao monarca uma excomunhão (mais tarde retirada).

Após o terramoto de 1755, Carlos Mardel e a sua equipa de arquitectos remodelou a cidade entre o Rossio e o Terreiro do Paço, prosseguindo assim a tradição romana do Mundus e indo caracterizar a “Lisboa Quadrada”. Já antes, reinando D. João V, Lisboa havia sido dividida em Oriental e Ocidental, do modo a distinguir a Autoridade Espiritual do Poder Temporal, ficando com dois hemisférios sobre as sete colinas para que assim se revelasse cidade sagrada e caput mundi, “cabeça do mundo”, conformada às profecias bíblicas que foram sabiamente interpretadas e ajustadas pelo Padre António Vieira ao tema do Quinto Império e da sua capital universal, Lisboa.

Sendo o Omphalos o “Umbigo” do Mundus, o Centro do Universo do qual este nasceu e cresceu, assim também a Pedra Filosofal, visto ser a Matéria Primordial de todo o Cosmos. Enquanto isso, a realização da Grande Obra é operada no sentido inverso, no retrocesso ou contracção da expansão do Universo, a fim de obter o estado mais puro, perfeito e original da Matéria. O Omphalos de Lisboa localiza-se no Rossio, sendo este o ponto central (Mundus), o ponto zero de todas as direcções da cidade ao país, mas também para onde convergem todas as direcções, e a partir do qual ela cresceu e expandiu (depois de 1755) através dos seus quatro pontos cardeais. Ora o ponto central da Praça do Rossio é onde está a coluna monumental com a estátua de D. Pedro IV, que traz na mão direita a Carta Constitucional de 1826 (29 de Maio), sustentado rés-do-chão pela guarda de quatro figuras emblemáticas, caracterizando então o Axis Mundi, o “Pilar ou Canal de ligação do Céu e a Terra”, a “rotura dos níveis”, como também Mircea Eliade afirmou. Esta obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel Davioud, ambos franceses.

Do ponto de vista esotérico, segundo o autor Vitor Manuel Adrião, as quatro estátuas em volta da coluna, com trajes solenes greco-romanos, representam os Guardiões do Mundo orientados nas quatro direcções do Globo, onde cada uma apresenta um naipe do baralho, ficando assim: paus, espadas, ouros e copas. A estátua do rei D. Pedro IV de Portugal e I Imperador do Brasil (4+1 = 5 = Pentalfa igual ao Infinito), fica assim representando o Quinto Guardião ou Regente do Mundo, posto que um “Imperador é Rei de reis”. Ainda segundo a tradição cabalística judaico-cristã, iconograficamente eles apresentam-se como os “Quatro (Cinco) Anjos Coroados” com os nomes de Rafael, Mikael, Auriel, Gabriel (e Anjo Custódio). As direcções que assumem as quatro estátuas, ainda de acordo com o mesmo autor, vão coincidir com determinados pontos característicos da Baixa de Lisboa. Assim, a estátua que segura na mão direita uma rodela com uma serpente, configurando o naipe ouros, e que é a Prudência, assume a direcção da Gare Central do Rossio, a 56º NW, onde à entrada figura D. Sebastião com a espada e o escudo das quinas; na direcção da Porta de Santo Antão, o “Anacoreta do Deserto”, a qual inclina 17 graus para a direita, está a Temperança com uma taça, que é copas, a 7º NE; a Força, apoiada com uma maça que é paus, direcciona-se, a 40º SW, para o Convento do Carmo; com a espada e a balança, naipe final, temos a Justiça a 25º SE, direccionada à Sé Patriarcal. Por fim, a figura de D. Pedro com o olhar virado para o Arco da Rua Augusta e o Cais das Colunas, está simbolizado o Domínio do Mundo como figuração do Imperador Universal.

10. FIG3.Estátuas do Rossio

No que respeita ainda a esta Arquitectura Sagrada, Michael Maier, em 1616, no seu tratado Circulus Quadratos comparou os quatro pontos cardeais opostos do Omphalos da Jerusalém Celeste com os Elementos que compõe a Natureza, e sabendo que Carlos Mardel aplicou o modelo arquitectónico sagrado romano, Mundus (sendo que Roma foi edificada à imagem de Jerusalém após o século V), o Axis Mundi do Rossio e as quatro figuras (quatro pontos cardeais) que o compõem, acabam por constituir também o Quinto Elemento, a Quintessência, o Éter (preenchendo o Ar respirado pelos Deuses da Mitologia Grega, e que foi utilizado até ao século XIX na propagação da Luz – luminiferous aether) originador dos quatro Elementos da Natureza nos quatro pontos cardeais do Mundo: Ar, Fogo, Água e Terra, ficando estabelecido como coroa do monumento o Imóvel, o Uno, a Unidade do Cosmos (manifestado como Três Mundos: Supramundo, Mundo, Submundo), a Matéria Primordial, no fundo, a Pedra Filosofal.

Também o Alquimista do século XV, George Ripley, associou Jerusalém com as suas 12 portas às 12 fases da Magnus Opus. Em Lisboa não há as 12 portas e sim 12 bairros principais, representativos dos 12 signos do Zodíaco que igualmente regem a Grande Obra, tal como os 7 outeiros ou colinas representam os 7 planetas tradicionais (Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno), e particularmente alinhavaram-se as 17 artérias da mesma “Lisboa Quadrada”, ajustando-a ao número 17 do biorritmo de Portugal. A própria figura apresentada anteriormente, Cabala, de S. Michelspacher, faz jus a esse aspecto astrológico e astrosófico que os arquitectos iniciados ao serviço do Marquês de Pombal quiseram preservar.

Além disso Lisboa, aplicando a linguagem hermetista, pode ser mesmo encarada como o Palácio dos Mistérios e Segredos da Grande Obra, a que só os verdadeiros Iniciados terão acesso. Sendo o Terreiro do Paço, de acordo com o que anteriormente foi tratado (Selo de Salomão), a representação microcósmica do Mundus, não deixa de ser a chave ou veículo interpretativo (em conjunto com os 22 Arcos ou Arcanos Maiores do Tarot nele presentes) para “entrar” na Lisboa não profana e desvelada , e sim na Lisboa sagrada e velada, ocultada ou secreta.

Arco Rua Augusta

No geral, o percurso do espaço característico desde Terreiro do Paço ao Rossio, passando pela Rua Augusta (com as pares do Ouro e da Prata), representa toda a Obra Alquímica que se expressa num itinerário iniciático de compreensão simbólica e operação interior do indivíduo, dando contributo à sua TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL, ou melhor, TRANSMUTAÇÃO ESPIRITUAL (“de metal comum em ouro raro”), numa reflexão alusiva à demanda e conquista da Pedra Filosofal, ou por outra, do Santo Graal. Assim, estas três zonas principais da Baixa lisboeta vêm a caracterizar diferentes funções e acções referentes à Grande Obra, tendo como pano de fundo a concepção unitária da Filosofia Alquímica, onde Lisboa (Macrocosmos) e o Lisboeta (Microcosmos) tornam-se um só. Podemos, então, sintetizar os esses espaços imóveis da seguinte forma:

TERREIRO DO PAÇO – A Chave dos Mistérios Alquímicos – Espírito Santo

RUA AUGUSTA – O Magistério Alquímico – Filho

ROSSIO – A Pedra Filosofal – Pai

O Terreiro do Paço, representa o guia e a síntese daquilo que a Grande Obra Alquímica representa e se propõe. Síntese, porque manifesta os princípios da Natureza e a sua união, como sucede com os metais necessários à Obra, representados no simbolismo multifacetado do Selo de Salomão; e guia porque “aconselha” o neófito, operando com os 22 Arcanos Maiores, sobre o trajecto que deverá tomar para que finalmente seja abençoado na consumação do Magistério.

A Rua Augusta, propõe-se como o terreno (ou “retorta”) de operação alquímica da Matéria-Prima (o neófito), com o objectivo de “operar” sobre esta através das diferentes “fases” (ruas) da Obra, de forma a atingir a Perfeição da Matéria, a Pedra Filosofal (o Ouro Puro, o Leão de Fogo, a Iluminação Espiritual).

O Rossio, a própria Pedra Filosofal, a Matéria Primordial erigida sobre os 4 Elementos da Natureza (4 pontos cardeais) constituindo o “Centro do Mundo”, o Axis Mundi, estabelecendo-se a Comunhão, o Uno, a Unidade ou União do Homem com o Divino, a “ligação da Terra com o Céu”, no fundo, o Grande Arcano da Alquimia, a União dos Opostos (“…o que está em baixo é como o que está em cima…”).

Não terá sido por acaso que o ilustre e majestoso artista (e não só) Lima de Freitas pintou em magnífico painel de azulejos, plantado em plena Lisboa, dentro da Gare Central do Rossio, a ilustração intitulada Pessoa e a Serpente, que praticamente resume tudo quanto foi dito até aqui. Enfim, uma imagem vale mais que mil palavras…

Fernando Pessoa

[...] Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja [...].

 Fernando Pessoa

 FIM

 

Obras consultadas

 

A. M. Amorim da Costa, Alquimia, um Discurso religioso. Colecção Janus. Editora Vega, Lisboa, 1999.

Alexander Roob, O Museu Hermético, Alquimia & Misticismo. Taschen, 2006.

Athanasius Kircher, Arithmologia, Roma, 1665.

Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales. Ed. Jean-Jaques Pauvert, Paris,1964.

Mariano J. Vázquez Alonso, O Universo da Alquimia. Editorial Estampa, Lisboa, 2007.

Michael Maier, Atlanta Fugiens. Oppenheim, 1616.

Michel Saint, Dossieres Secretos da Alquimia. Litexa Editora, Lisboa, 1986.

Mircea Eliade, Forgerons et Alchemistes. Ed. Flammarion, Paris, 1956.

Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. Livros do Brasil, Lisboa, edição 2006.

Olímpio Neves, Lisboa à luz dos seus Arcanos. Revista “Graal”, Ano-I, N.º 2/3, Verão-Outono 1982, Sintra.

Vitor Manuel Adrião, A Ressurreição de Portugal. Edição Academia de Letras e Artes, Cascais, 2009.

Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita. Edições Jonglez, Paris, 2009.

Vitor Manuel Adrião, História Oculta de Portugal. Madras Editora, S. Paulo, 2000.

Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Edição Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.

Vitor Manuel de Adrião, Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.

 

Créditos fotográficos – Autor, Paulo Andrade e “Google”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo” Sábado, Dez 10 2005 

Sintra“Quem nasce em Portugal é por Missão ou Castigo” – - Profecia lapidar da Montanha de Sintra.

E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente.

Profecia de Fernando Pessoa, extraída de A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico, in A Águia, nº 12, II série.